O professor não consegue sair da escola: 3 em cada 4 professores trabalham além da jornada contratada, aponta pesquisa nacional
Levantamento do Instituto Casagrande Social com 7.246 docentes também mostra que 71,3% perceberam aumento das responsabilidades profissionais e 68,9% têm dificuldade de se desligar mentalmente do trabalho
O trabalho dos professores brasileiros continua muito depois do fim da última aula. Pesquisa nacional realizada pelo Instituto Casagrande Social mostra que 76,5% dos docentes trabalham regularmente fora da jornada contratada, enquanto 71,3% afirmam que suas responsabilidades profissionais aumentaram nos últimos anos. O levantamento ouviu 7.246 professores da Educação Básica, das redes pública e privada, nas 27 unidades da Federação.
Planejamento de aulas, preparação de materiais, correção de atividades e avaliações, registros, acompanhamento individual dos estudantes, atendimento às famílias e mensagens relacionadas à rotina escolar estão entre as tarefas que avançam sobre períodos que, formalmente, estariam fora do expediente.
Para o professor doutor Renato Casagrande, presidente do Instituto Casagrande Social, os números ajudam a dimensionar uma parte da profissão que raramente aparece quando se discute a rotina docente.
“A sociedade enxerga o professor durante a aula, mas não vê tudo o que foi feito antes dela nem o que continuará sendo feito depois. Existe uma jornada invisível, formada por atividades indispensáveis para que o ensino aconteça, e os dados mostram o quanto esse trabalho tem ultrapassado os limites formais da jornada”, afirma Casagrande.
Trabalho continua mesmo quando o expediente termina
O impacto não aparece apenas nas horas trabalhadas. Segundo a pesquisa O Estado do Professor Brasileiro 2026, 68,9% dos participantes relatam dificuldade para se desligar mentalmente do trabalho.
O dado chama atenção porque amplia a discussão sobre jornada: mesmo quando não está preparando uma aula ou corrigindo uma atividade, o professor pode continuar mobilizado por questões profissionais.
Ao mesmo tempo, a rotina escolar passou a incorporar demandas que vão além do conteúdo pedagógico. Questões relacionadas à inclusão, saúde emocional dos estudantes, uso de tecnologia, conflitos no ambiente escolar e comunicação com as famílias passaram a ocupar espaço crescente no cotidiano docente.
“Quando 71,3% dos professores dizem perceber aumento de responsabilidades, a discussão não pode ficar restrita à quantidade de aulas dadas. É preciso olhar para tudo o que foi incorporado à função e entender se a organização do trabalho acompanhou esse aumento de demandas”, analisa Renato Casagrande.
Na avaliação do Instituto Casagrande Social, a sobrecarga não deve ser tratada apenas como uma questão de capacidade individual de organização. O debate envolve a própria estrutura do trabalho docente e a distribuição das responsabilidades dentro da escola.
Valorização também passa pela organização da jornada
Os resultados indicam a necessidade de discutir medidas práticas para reduzir a extensão recorrente do trabalho para noites, fins de semana e períodos de descanso.
Entre os pontos defendidos pelo Instituto estão a garantia de tempo protegido para planejamento, definição de limites para solicitações profissionais fora do expediente, revisão de processos burocráticos, fortalecimento de equipes de apoio e adoção de tecnologias capazes de reduzir tarefas repetitivas.
“Valorizar o professor também significa criar condições para que ele consiga realizar seu trabalho dentro de uma jornada adequadamente organizada. Quando trabalhar além do horário deixa de ser uma situação eventual e passa a fazer parte da rotina, existe um problema de organização que precisa ser enfrentado pelas instituições e pelas políticas educacionais”, afirma Casagrande.
Para o especialista, os três indicadores precisam ser observados em conjunto: 76,5% trabalham regularmente fora da jornada contratada, 71,3% perceberam aumento das responsabilidades e 68,9% relatam dificuldade de se desligar mentalmente do trabalho.
“Esses dados não falam apenas sobre horas. Eles mostram uma profissão em que as fronteiras entre tempo de trabalho e tempo pessoal estão cada vez menos claras. A discussão sobre valorização docente precisa incluir salário e carreira, mas também tempo, estrutura, apoio e condições concretas para exercer a profissão”, conclui Renato Casagrande.
Sobre a pesquisa
A pesquisa O Estado do Professor Brasileiro 2026, do Instituto Casagrande Social, contou com a participação de 7.246 professores da Educação Básica, das redes pública e privada, nas 27 unidades da Federação. A participação foi voluntária, por meio de questionário digital, com amostra não probabilística por adesão. Por essa razão, os resultados descrevem os participantes do levantamento e não constituem estimativas probabilísticas de todo o universo de professores brasileiros.
Comentários