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Além do Atípico: Histórias de mães que transformam amor em força diante dos desafios da inclusão

por Alice Corrêa

Entre diagnósticos, preconceitos e superação, Clori e Cássia transformaram a dor em força para garantir dignidade, inclusão e amor aos filhos especiais

Foto: Alice Corrêa/Tua Rádio São Francisco

O sonho da maternidade costuma vir acompanhado de planos, expectativas e descobertas. Mas, para algumas mulheres, ele também chega trazendo diagnósticos inesperados, noites sem dormir, idas constantes a hospitais e uma batalha diária por inclusão. Ainda assim, é justamente nesses caminhos mais difíceis que surgem histórias de coragem capazes de redefinir o significado da palavra “mãe”.

Clori Ribeiro de Souza, de 44 anos, e Rita de Cássia Chiaradia, de 47, carregam trajetórias diferentes, mas unidas pelo mesmo amor incondicional. São mães atípicas, mulheres que aprenderam a transformar o medo em força e a dor em resistência.

Clori é mãe de três filhos. Entre eles, Giovana e Júlia, ambas nasceram surdas. O primeiro diagnóstico chegou há quase duas décadas, quando a informação sobre deficiência auditiva ainda era escassa. “É como se abrisse um buraco. Tu não sabe pra onde ir”, relembra.

Na época, a família precisou organizar rifas, almoços beneficentes e mobilizar toda a comunidade para conseguir pagar o implante coclear de Giovana. O caminho foi longo: viagens semanais para Porto Alegre, anos de fonoaudiologia e uma rotina intensa de reabilitação. Mas desistir nunca foi uma opção. “Se Deus colocou isso no meu caminho, é porque eu vou dar conta”, afirma.

Anos depois, veio a segunda surpresa: Júlia também nasceu surda. Dessa vez, porém, o medo já caminhava junto com a experiência. O diagnóstico deixou de ser um desconhecido e passou a ser enfrentado com mais segurança e acolhimento.

Hoje, Giovana trabalha e cursa faculdade. Júlia frequenta a escola normalmente. As duas se comunicam oralmente e vivem uma rotina que a mãe define como uma vitória construída “um pouquinho por dia”.

Foi justamente para permanecer perto das filhas que Clori precisou se reinventar profissionalmente. Ex-faxineira e técnica de enfermagem, encontrou na costura uma nova forma de sustento. O pequeno espaço improvisado na garagem virou o “Ateliê Sonho de Mãe”, confecção que hoje sustenta a família. “Porque toda mãe sonha em poder trabalhar em casa e cuidar do filho”, resume.

Já Rita de Cássia viu sua vida mudar poucos dias após o nascimento do filho Ian. A gravidez havia sido tranquila, o parto também. Mas, com pouco mais de um mês de vida, o bebê começou a apresentar crises convulsivas. Vieram os exames, internações e um diagnóstico difícil: paralisia cerebral. “Eu fiquei sem chão”, conta.

Os médicos chegaram a afirmar que Ian provavelmente não passaria dos dois anos de idade. Hoje, aos 26 anos, ele segue cercado pelo cuidado da mãe e da família. “Meu filho não é um produto com data de validade”, respondeu ela, na época, aos profissionais de saúde. Ian é totalmente dependente. Precisa de ajuda para se alimentar, trocar fraldas e realizar todas as atividades do dia a dia. Mesmo assim, Cássia aprendeu a enxergar além das limitações. “Qualquer coisinha diferente que eles façam já aquece o coração.”

O medo de ter outro filho acompanhou a mãe por anos. Ainda assim, decidiu tentar novamente. Aos 39 anos, nasceu Giovani. Hoje, o menino ajuda a cuidar do irmão mais velho e cresceu aprendendo, dentro de casa, o significado da inclusão. “Ele já pergunta se o irmão vai conseguir entrar nos lugares quando planejamos comer fora”, conta.

Apesar das histórias de superação, tanto Clori quanto Cássia afirmam que o preconceito ainda faz parte da rotina.

Olhares de pena, comentários inadequados e dificuldades de acessibilidade continuam sendo obstáculos enfrentados diariamente por famílias atípicas. “A deficiência não está nos nossos filhos. A sociedade é muito deficiente”, dispara Clori.

Para Cássia, a inclusão ainda acontece mais no discurso do que na prática. “O termo inclusão é muito bonito nas redes sociais, mas no dia a dia falta empatia, falta acessibilidade e falta ensinar as crianças a respeitarem as diferenças.”

Entre consultas, terapias, noites em claro e uma luta constante por direitos, as duas mães compartilham a mesma certeza: ser mãe atípica é viver em estado permanente de amor e resistência. “Não é fácil, não vai ser fácil. Mas eles nos dão força todos os dias”, diz Cássia.

E talvez seja justamente nisso que mora a grandeza dessas histórias, na capacidade de seguir em frente, mesmo diante das incertezas, transformando cada pequena conquista em motivo para continuar lutando.

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