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Especial Mês da Mulher - Entre a Rússia e a Serra Gaúcha: a coragem de quem atravessou o mundo por amor

por Alice Corrêa

Nascida em Rostov-on-Don e com carreira internacional como modelo, Vitália Andreevna Lisimenko encontrou em Caxias do Sul um novo lar, um novo trabalho e uma nova identidade; a série especial retrata a força da mulher migrante e imigrante

Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

A história de Vitália Andreevna Lissimenka atravessa continentes, idiomas e culturas. Aos 34 anos, a russa que nasceu na cidade de Rostov-on-Don carrega na própria trajetória um testemunho de coragem, adaptação e reinvenção. O que começou como uma história de amor do outro lado do mundo acabou transformando o Brasil, e especialmente Caxias do Sul, em casa.

“Meu nome é Vitália Andreevna Lissimenka, sou da Rússia e moro aqui há quase oito anos”, conta ela, com o leve sotaque que ainda revela suas origens. Antes de chegar ao Brasil, a vida de Vita (como prefere ser chamada) era marcada por viagens constantes. Ainda muito jovem, aos 14 anos, iniciou carreira como modelo internacional. Durante mais de uma década, percorreu diferentes países, vivendo por temporadas em cidades distantes, sempre com contratos de poucos meses.

Era uma rotina de mudanças constantes, mas que sempre trazia uma certeza: o retorno para casa. Até que, em uma dessas viagens, o destino decidiu escrever uma história diferente. Foi na China que Vita conheceu aquele que viria a ser seu marido, um brasileiro de Caxias do Sul que também trabalhava como modelo. O encontro, inesperado, mudou completamente o rumo da sua vida.

“Foi o amor”, resume ela, emocionada.

Os dois se apaixonaram e ainda viajaram juntos por alguns países da Ásia. Mas havia algo que chamava o jovem brasileiro de volta ao sul do país: a empresa da família e os pais que precisavam de ajuda. A decisão foi tomada juntos. Talvez, naquele momento, nenhum dos dois imaginasse que a escolha se transformaria em um projeto de vida duradouro.

“Quando decidimos voltar, não imaginávamos que ficaríamos tanto tempo. Mas aconteceu… e até hoje estamos aqui”, conta Vita.

A primeira vez no Brasil

Antes de chegar ao país, a imagem que Vitália tinha do Brasil era construída principalmente pelas amizades que fez ao longo da carreira internacional. Modelos e colegas brasileiros estavam espalhados pelo mundo e sempre falavam com carinho do seu país. Mesmo assim, conhecer o Brasil de verdade foi uma experiência completamente diferente. Quando desembarcou em Caxias do Sul, há quase oito anos, Vita trazia na bagagem apenas algumas palavras em português.

“Eu sabia falar muito pouco. Coisas como ‘estou com fome’ ou ‘meu nome é Vita’. Era basicamente isso”, relembra.

A adaptação, no entanto, não começou de forma tranquila. Logo nos primeiros dias na cidade, ela precisou enfrentar uma cirurgia de emergência, tudo isso sem dominar o idioma e em um país completamente novo.

“Foi um choque. Eu estava no hospital sem falar português”, recorda.

Apesar do susto inicial, tudo correu bem. E foi a partir daquele momento que Vita começou, aos poucos, a descobrir o Brasil que passaria a chamar de lar.

Um frio inesperado

Uma das primeiras surpresas veio logo depois da recuperação. O frio.

Vinda de um país conhecido pelas temperaturas rigorosas, Vitália não imaginava que encontraria clima semelhante no Brasil.

“Eu cheguei em outubro e achei frio”, conta, rindo. “E não trouxe nenhuma jaqueta.”

Como muitos estrangeiros, ela carregava a imagem de um país tropical, marcado por praias, samba e carnaval. Mas Caxias do Sul apresentou um Brasil diferente: de serras, neblina e temperaturas baixas.

“A gente imagina outra coisa quando pensa no Brasil”, diz.

Um choque cultural… positivo

Mais do que o clima, o maior impacto cultural veio da forma como as pessoas se relacionam. Vitália cresceu em uma cultura onde as relações são mais reservadas. Na Rússia, segundo ela, abraços e demonstrações de afeto costumam acontecer apenas entre pessoas próximas. No Brasil, foi diferente.

“Muita gente chega abraçando, conversando, perguntando como você está”, explica.

No início, aquilo foi difícil de assimilar.

“Eu não estava acostumada. Para mim era estranho abraçar alguém que eu acabava de conhecer.” Mas com o tempo, o estranhamento deu lugar à admiração.

“Acho isso muito bonito nos brasileiros. Esse jeito caloroso, amigável.”

Aprender português… vivendo

A barreira do idioma também trouxe desafios, principalmente no começo. Em Caxias do Sul, poucas pessoas falavam inglês, o que tornava a comunicação ainda mais difícil. Mas Vita encontrou ajuda inesperada. Uma professora de português que se tornaria essencial na sua adaptação.

“Quero agradecer muito à minha professora, a Grazi”, diz.

Mais do que ensinar gramática, a professora ajudou Vita a entender a cidade. Ela ensinou como usar o transporte público, mostrou as ruas e ajudou a russa a ganhar autonomia no dia a dia.

“Meu marido nem sabia usar ônibus aqui, e eu já sabia”, conta, sorrindo.

A experiência internacional também ajudou. Antes de chegar ao Brasil, Vitália já falava russo, inglês e coreano. línguas que aprendeu durante as temporadas de trabalho em outros países. Hoje, se alguma palavra em português ainda falta, ela improvisa.

“Eu explico de outro jeito”, diz.

Recomeçar profissionalmente

Ao perceber que sua vida no Brasil seria permanente, Vita precisou tomar outra decisão importante: reinventar sua carreira. Apesar de ainda fazer alguns trabalhos como modelo, ela decidiu apostar em outra área. A beleza. Durante os anos de modelo, aprender a cuidar das próprias unhas havia sido quase uma necessidade. Em alguns países onde trabalhou, especialmente na Ásia, as condições de higiene nos salões eram precárias.

“Eles usavam o mesmo alicate para todo mundo”, lembra.

Foi ali que ela decidiu aprender manicure, inicialmente para cuidar de si mesma. O que começou como um cuidado pessoal acabou se transformando em profissão. Em Caxias do Sul, Vita começou atendendo em um pequeno espaço no bairro Forqueta. Com o tempo, o trabalho começou a ganhar reconhecimento. Clientes indicavam para amigas, que indicavam para outras pessoas.

“Foi crescendo assim, por indicação”, conta.

Hoje, ela tem seu próprio espaço de beleza próximo ao Shopping Villagio Caxias e também ministra cursos, formando novas profissionais.

“Nunca imaginei que teria um negócio no Brasil, e ainda mais nessa área”, diz. “Mas eu amo o que faço.”

Ser estrangeira no Brasil

Ao longo da trajetória, Vita não sente que ser estrangeira tenha sido um obstáculo. Pelo contrário.

“Se você quer trabalhar, você consegue”, afirma. Segundo ela, as oportunidades surgem para quem está disposto a buscá-las.

Mesmo em um momento delicado do cenário internacional, com tensões envolvendo seu país de origem, Vitália diz nunca ter sofrido preconceito no Brasil.

“Aqui eu nunca senti isso.”

Hoje, inclusive, ela trabalha como educadora de uma empresa de origem ucraniana. “Eles me tratam igual às outras educadoras”, conta.

Saudade e distância

Apesar da adaptação bem-sucedida, a saudade da família permanece. Logo após chegar ao Brasil, a pandemia de Covid-19 impediu viagens internacionais por vários anos. Durante esse período, Vita ficou sem visitar a família na Rússia.

“Foram cinco anos sem ver minha família”, lembra. A distância, inevitavelmente, traz momentos de solidão.

“A gente sente sim”, admite.

Mas ela também reconhece o apoio que encontrou no Brasil, especialmente no marido e na família dele. “Eles me ajudaram muito.”

Uma russa… quase gaúcha

Hoje, Vitália diz sentir que encontrou um lugar de pertencimento. Quando viaja pelo Brasil com colegas de trabalho, ouve frequentemente uma brincadeira: a russa já virou gaúcha. Ela mesma admite que algumas expressões já fazem parte do vocabulário.

“Bah”, “barbaridade” e outras expressões típicas aparecem naturalmente nas conversas. Mesmo assim, Vita faz questão de manter viva a cultura de origem. Em casa, a língua russa continua presente. Os filhos que virão, garante ela, também vão aprender o idioma.

Além disso, a família mantém tradições, como comemorações de Natal e Ano Novo no estilo russo e algumas comidas típicas. “Gosto dessa mistura de culturas”, diz.

O que o Brasil ensinou

Quando olha para trás, Vitália percebe o quanto sua história no Brasil transformou sua forma de ver o mundo.

“O Brasil me ensinou que mesmo sem falar a língua, você pode conquistar coisas”, afirma. Para ela, persistência é a chave. “Você pode chegar em um lugar que nunca conheceu e construir uma vida.”

Hoje, a russa que cruzou o planeta por amor diz se sentir verdadeiramente em casa.

A força de ser mulher

No Dia Internacional da Mulher, Vita reflete sobre o significado de ser mulher longe do próprio país. Para ela, a palavra que define essa experiência é coragem. “Ser mulher é ser forte”, afirma. Mesmo diante de momentos difíceis, de solidão ou de incerteza, ela acredita que existe uma força interior capaz de conduzir cada mulher ao próprio caminho. “Nem todas as mulheres se conhecem de verdade”, diz.

E deixa uma mensagem de encorajamento:

“Desejo que cada mulher se descubra por dentro. Quando isso acontece, ela pode conquistar o mundo.”

Se tivesse que se definir em uma única palavra após toda essa jornada, Vitália não hesita. Coragem. E, em russo, ela deixa uma última frase que resume sua filosofia de vida:

“Lembre sempre que você é linda, que você é a melhor e que você pode fazer tudo.”

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