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Entre o sonho e a coragem: a trajetória de uma brasileira que construiu a vida em Portugal

por Alice Corrêa

Aos 32 anos, a professora paranaense Eliane Ribeiro Marquezone deixou o Brasil rumo a Portugal em busca de novas oportunidades. Entre desafios, preconceitos e recomeços, construiu uma vida estável no exterior sem perder o sentimento de pertencimento ao pa

Foto: Reprodução/Montagem Tua Rádio

Natural do Paraná, no Sul do Brasil, Eliane Ribeiro Marquezone cresceu em meio a uma realidade simples e a uma vida já estruturada. Professora por formação, construiu carreira no Brasil e levava uma rotina relativamente estável. Mas, aos 32 anos, decidiu mudar completamente o rumo da própria história.

Em setembro de 2001, ela deixou o país ao lado do marido e da filha e embarcou rumo a Portugal. A decisão, segundo ela, foi movida por uma combinação de fatores: dificuldades financeiras, o desejo de buscar uma vida melhor e, principalmente, um sonho antigo de conhecer o mundo.

“Eu sempre tive o sonho de sair. O sonho de muita gente era ir para os Estados Unidos, mas era muito difícil conseguir o visto. Portugal parecia mais acessível, além da língua”, relembra.

Hoje, aos 56 anos, Eliane olha para trás e vê mais de duas décadas de uma trajetória marcada por desafios, descobertas e recomeços.

O impacto da chegada

Deixar para trás o país de origem nunca é simples. E, para Eliane, o choque foi maior do que imaginava. Quando chegou a Portugal, a realidade que encontrou estava longe da expectativa criada antes da viagem. Mesmo sendo professora no Brasil havia oito anos, o primeiro emprego foi em uma loja. A mudança brusca de profissão trouxe frustração.

“Foi um baque muito grande. Eu já tinha minha vida organizada como professora e, de repente, precisei voltar para trás”, conta.

Nos primeiros dias, a vontade de desistir foi intensa. Eliane lembra que chorou muito e chegou a pensar seriamente em retornar ao Brasil. “Eu disse para o meu marido que queria voltar. Aquilo não era a vida que eu imaginava.”

Mas um telefonema mudaria o rumo dessa decisão. Ao conversar com um cunhado, ouviu uma resposta dura, porém decisiva. Ele lembrou que a casa da família no Brasil já estava alugada e que tudo havia sido vendido antes da viagem.

“Na hora eu até fiquei ofendida, mas depois percebi que aquilo foi um empurrão para eu ficar e enfrentar a situação.”

Recomeçar para seguir em frente

Apesar das dificuldades iniciais, o destino começaria a mudar pouco tempo depois.

Com a ajuda de uma amiga portuguesa, professora já aposentada, Eliane recebeu orientação para solicitar a equivalência de seu diploma no Ministério da Educação. Em poucos meses, iniciou o processo de validação da formação brasileira. Em maio de 2002, menos de um ano após a chegada, ela já estava habilitada para lecionar em Portugal.

“Foi isso que me motivou a continuar aqui. Voltar para a sala de aula fez toda a diferença.”

Desde então, a docência voltou a ser o centro da sua vida profissional. Atualmente, Eliane leciona para alunos do quinto e sexto ano e pretende permanecer na profissão até a aposentadoria.

Desafios e preconceitos

A trajetória, no entanto, também foi marcada por episódios de preconceito. No início da carreira em Portugal, Eliane conta que enfrentou resistência por ser brasileira. Em algumas situações, a nacionalidade se tornou motivo de discriminação.

Em um episódio que ficou marcado em sua memória, uma cliente se recusou a ser atendida por ela em uma loja.

“O marido dela tinha deixado a nora para ficar com uma brasileira. Então ela disse que não queria ser atendida por mim.” A experiência também se repetiu no ambiente escolar. Na época, ela era uma das poucas brasileiras dando aulas na região, o que gerou desconfiança em parte da comunidade.

“Eu não fui muito bem recebida no começo. Naquela altura era raro ver uma brasileira como professora.”

Com o passar dos anos, no entanto, a realidade começou a mudar.

Portugal passou a receber imigrantes de diversas partes do mundo, e as escolas se tornaram ambientes cada vez mais multiculturais. Hoje, Eliane vê com bons olhos essa diversidade.

“Agora é um verdadeiro mix de culturas. Temos alunos de vários países, e eu acho isso muito positivo.”

A saudade e a distância

Mesmo vivendo há mais de 20 anos fora do Brasil, Eliane diz que aprendeu a lidar com a distância da família. Segundo ela, a saudade existe, mas deixou de ser um peso com o passar do tempo.

“É um processo que a gente aprende a administrar. Faz parte da vida de quem decide morar fora.”

Ela conta que conseguiu visitar o pai pouco antes de sua morte, há 13 anos. Já a mãe não teve a mesma oportunidade de despedida. Ainda assim, encara a situação com serenidade. “Quando saí do Brasil, eu já sabia que algumas coisas poderiam acontecer e que talvez eu não estivesse presente.”

Hoje, a tecnologia também ajuda a manter os laços familiares.

“As formas de comunicação melhoraram muito. Isso aproxima as pessoas.”

Fé e perseverança

Nos momentos mais difíceis, Eliane encontrou na fé o principal suporte para seguir em frente. “A fé foi o que me sustentou. Acreditar que tudo tem um propósito.”

Essa convicção ajudou a enfrentar as fases mais complicadas da adaptação e a transformar a experiência de imigração em uma trajetória de crescimento pessoal.

Entre duas pátrias

Apesar de ter adquirido a nacionalidade portuguesa e de ter construído a vida no país europeu, Eliane afirma que sua identidade continua profundamente ligada ao Brasil.

“Eu tenho nacionalidade portuguesa, mas sou brasileira. O sentimento de pertencimento é brasileiro.”

Ao mesmo tempo, ela diz que aprendeu a viver plenamente o lugar onde está.

“Quando estou no Brasil, vivo como brasileira. Quando estou aqui, vivo como portuguesa. Eu sou muito aberta ao mundo.”

Essa postura também mudou sua forma de enxergar a vida. Segundo ela, morar fora ampliou horizontes, trouxe novas perspectivas e permitiu compreender diferentes culturas e formas de viver.

“Hoje vejo o mundo de uma forma muito mais aberta.”

A vida que ela sonhou

Mais de duas décadas depois da mudança, Eliane afirma ter conquistado aquilo que buscava quando decidiu deixar o Brasil. Ela possui casa própria, carro e uma vida estável em Portugal. Trabalha perto de casa e mantém uma rotina tranquila.

“Tenho uma vida que sempre sonhei.”

Um conselho para quem deseja morar fora

Para mulheres que sonham em viver no exterior, Eliane deixa um conselho claro: planejamento é essencial. Segundo ela, sair do país sem informação ou estrutura pode trazer riscos, especialmente para mulheres que podem se tornar mais vulneráveis em um ambiente desconhecido.

“Quem quer sair precisa se organizar bem, saber para onde vai, com quem vai e o que vai fazer.”

Ela acredita que a imigração pode ser transformadora, mas exige coragem, consciência e preparo.

“Se for um sonho, vale a pena correr atrás. Mas precisa ser feito com responsabilidade.”

Um futuro ainda em movimento

Mesmo depois de tantos anos fora do Brasil, Eliane ainda guarda planos para o futuro. Um deles é viajar pelo país onde nasceu, algo que pretende fazer após a aposentadoria. “Quero conhecer todos os estados do Brasil, ficar um tempo em cada lugar.”

Para quem um dia saiu do Paraná em busca de novos caminhos, a vida segue sendo uma jornada de descobertas. Uma jornada que começou com medo, passou por desafios e hoje se traduz em realização. Mas que, acima de tudo, continua sendo guiada pela mesma coragem que a levou a atravessar o oceano há quase 25 anos.

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