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Do Paraná ao coração gaúcho: a história de fé, recomeço e superação de uma professora que encontrou um novo lar em Caxias do Sul

por Alice Corrêa

Ao deixar Maringá para construir uma nova vida no Rio Grande do Sul, Patrícia Ribeiro Camilo enfrentou pandemia, saudade e desafios profissionais, mas encontrou na fé, na resiliência e no amor as forças para transformar a mudança em uma história de supera

Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

A vida de Patrícia Ribeiro Camilo, de 32 anos, mudou completamente quando ela decidiu trocar a cidade de Maringá, no Paraná, por Caxias do Sul. O que começou como um relacionamento à distância acabou se transformando em uma jornada de coragem, fé e recomeços, marcada por desafios inesperados, perdas dolorosas e uma reinvenção pessoal profunda.

A decisão de mudar de estado não foi impulsiva. Pelo contrário, segundo ela, foi construída aos poucos, ao longo do relacionamento com o homem que viria a se tornar seu marido, natural de Vacaria. Entre visitas, conversas e momentos de reflexão, a ideia de deixar a cidade natal começou a ganhar forma.

“Foi tudo muito conversado, muito planejado. Durante o namoro eu orava muito e sentia que Deus estava me direcionando. Quando eu vinha visitar a família dele, eu sentia algo muito forte dentro de mim, como se esse fosse o meu lugar”, relembra.

Convicta da escolha, Patrícia tomou uma das decisões mais difíceis da vida: deixar para trás família, amigos, rotina e toda a estrutura que havia construído no Paraná.

“Não é fácil. A gente deixa pessoas que ama, histórias, lugares que fazem parte da nossa vida. É um passo muito forte e também doloroso.”

Uma chegada marcada pela pandemia

Patrícia chegou ao Rio Grande do Sul em fevereiro de 2020. A mudança vinha acompanhada de planos bem definidos: o casamento já estava marcado para abril, a festa organizada, vestido escolhido e familiares preparados para viajar de Maringá para celebrar o momento.

Mas o destino tinha outros planos.

Poucas semanas depois de sua chegada, o mundo parou diante da pandemia de Covid-19. De repente, tudo mudou. O casamento precisou ser reformulado, as viagens foram canceladas, o trabalho planejado não aconteceu e a nova vida começou em meio a um cenário de incertezas.

“Eu me vi num lugar diferente, longe da minha família, sem trabalho e com o casamento acontecendo sem a festa que a gente tinha planejado. Foi um choque muito grande.”

Sem possibilidade de retornar para casa, já que voos e deslocamentos estavam restritos, Patrícia encontrou abrigo e acolhimento na casa da família do então noivo.

“Eles me acolheram. Foi um momento muito difícil, mas eu tive essa rede de apoio.”

O choque cultural

Mesmo sendo sulista, Patrícia percebeu rapidamente que havia diferenças culturais entre o Paraná e o Rio Grande do Sul. A adaptação não aconteceu de imediato.

“A primeira coisa que eu senti foi que as pessoas eram mais reservadas. Eu chegava, dava bom dia e às vezes não recebia resposta. Eu ficava pensando: ‘Como assim?’.”

Com o tempo, porém, ela percebeu que o jeito gaúcho exige apenas mais tempo para criar confiança. “Depois que eles confiam em você, eles te colocam dentro do coração.”

Outro desafio foi o vocabulário típico da região. Patrícia lembra com humor de algumas situações que, no início, pareciam verdadeiros enigmas linguísticos.

“Minha sogra pediu para eu pegar ‘guisado’ no congelador e eu pensei: ‘Meu Deus, o que é isso?’ Depois fui aprendendo o que era ‘guisado’, ‘ranhento’, ‘reinando’... Hoje já estou super adaptada.”

O frio que ninguém avisou

Mas talvez nenhuma adaptação tenha sido tão difícil quanto o clima. Acostumada ao clima mais ameno do Paraná, Patrícia levou um susto ao enfrentar o primeiro outono gaúcho.

“Era abril, mês que na minha cidade quase não faz frio. Eu estava na cama com quatro cobertores, tremendo, enquanto meu marido estava de bermuda.”

Ela admite que os primeiros invernos foram difíceis. “Eu chorei muito por causa do frio. Foi algo que eu realmente não estava preparada.”

Mesmo assim, o clima também trouxe experiências inesquecíveis. Em 2021, Patrícia viu neve pela primeira vez. “Foi lindo. Um momento mágico.”

O desafio de recomeçar a carreira

Professora por formação, Patrícia chegou ao Rio Grande do Sul com a expectativa de rapidamente ingressar no mercado de trabalho. Mas novamente a pandemia alterou os planos. Com escolas fechadas e o ensino em reorganização, as oportunidades eram escassas.

“Eu mandava currículo, mas as escolas não estavam contratando.”

Acostumada a trabalhar desde muito jovem, começou como babá aos 11 anos, Patrícia precisou lidar com algo novo: depender de outras pessoas financeiramente.

“Eu sempre fui muito independente. Trabalhei em dois empregos em Maringá. Então chegar aqui e não ter trabalho foi muito difícil.”

Para não ficar parada, encontrou uma alternativa: começou a dar aulas particulares nas casas de alunos. “Mulher se reinventa. A gente dá um jeito.”

Meses depois, uma escola abriu as portas para ela trabalhar. Em seguida, Patrícia prestou concurso público e foi aprovada. Hoje, atua como professora na rede municipal de ensino.

“Foi uma vitória enorme. Hoje eu posso dizer que criei raízes aqui.”

Perdas e saudade

Além das dificuldades profissionais, Patrícia também enfrentou momentos de dor.

Durante a pandemia, perdeu uma das pessoas mais importantes de sua vida: uma amiga de 28 anos que morreu vítima da Covid-19. Por causa das restrições sanitárias, ela não conseguiu viajar para se despedir.

“O caixão era lacrado, então nem faria sentido eu ir. Foi muito doloroso.”

A distância da família também pesa em datas especiais.

“Dia das mães, aniversários, momentos importantes… às vezes a gente chora de saudade.” Mas, para ela, essas são consequências das escolhas feitas.

“São escolhas. E cada escolha tem suas renúncias.”

Fé como sustentação

Nos momentos mais difíceis, Patrícia encontrou força na fé. Ela acredita que a mudança para o Rio Grande do Sul fazia parte de um propósito maior.

“Eu acredito muito que Deus me trouxe para cá.”

Segundo ela, a presença de pessoas especiais em momentos importantes reforçou essa sensação de cuidado divino.

“No dia de escolher o vestido de noiva, por exemplo, algumas pessoas estiveram ali comigo representando a minha mãe. Choraram comigo, me ajudaram.”

Um novo sentimento de pertencimento

Com o passar do tempo, Patrícia deixou de se sentir visitante e passou a se reconhecer como parte da cultura gaúcha. Hoje, ela diz com orgulho que já se sente um pouco gaúcha.

“Eu amo churrasco, amo rodeio, amo gineteada. Gosto de chimarrão.”

Apesar disso, lembra com bom humor de um episódio curioso envolvendo a tradicional roda de mate. “Uma vez estavam tomando chimarrão e não me passaram a cuia. Eu pensei: ‘Mas o Paraná é o maior produtor de erva-mate!’.”

A essência que ela não abre mão

Mesmo adaptada ao novo estado, Patrícia diz que faz questão de manter algumas características que trouxe de sua terra natal.

Entre elas, a simplicidade e a facilidade de conversar com desconhecidos.

“Eu cresci em sítio. Tenho esse costume de conversar, de dar bom dia, de criar amizade fácil.”

Crescimento pessoal

Para ela, a mudança também trouxe amadurecimento. Casamento, nova cidade, nova carreira e novos desafios fizeram com que Patrícia se transformasse.

“Eu amadureci muito nesses anos.”

Hoje, quando olha para trás, não tem dúvidas de que faria a mesma escolha novamente.

“O coração gaúcho já me ganhou.”

Uma palavra para definir a jornada

Se tivesse que resumir tudo o que viveu desde que deixou Maringá, Patrícia escolheria apenas uma palavra. Depois de alguns segundos de reflexão, ela responde com convicção:

“Superação.”

Porque, apesar das lágrimas, das saudades e das dificuldades, ela acredita que cada desafio enfrentado ajudou a construir a mulher que é hoje. E para outras mulheres que sonham em mudar de estado ou de país, deixa uma mensagem clara:

“Vocês são fortes. Vocês são capazes. Planejem, mas não tenham medo de viver novos caminhos.”

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