“É impossível desver”: dentista de Marau relata experiência voluntária em Moçambique
Ana Paula Rodigheri participou de missão com atendimentos odontológicos em comunidades africanas
A dentista marauense, Ana Paula Rodigheri, voltou de Moçambique com uma frase que resume o impacto da experiência: “quando você vê o que vê lá, é impossível desver”. Integrante de uma missão voluntária realizada por meio da Por1Sorriso e da Missão África, ela viajou com o propósito de oferecer atendimento odontológico e cuidado às comunidades. De volta a Marau, conta que trouxe muito mais do que imaginava receber e que a experiência mudou sua forma de enxergar o próprio trabalho, as oportunidades e a realidade de quem vive sem acesso a condições básicas.
Durante a missão, o grupo passou por comunidades como Tica e Lamego. Em Tica, uma escola construída a partir de ações anteriores garante alimentação e educação às crianças da região. Já em Lamego, Ana Paula encontrou uma realidade que a marcou especialmente: famílias com acesso limitado a alimento, água e outros recursos básicos. A Missão África mantém um poço na comunidade e trabalha agora para viabilizar uma escola que deverá reunir educação e alimentação, com a intenção de inaugurar a estrutura em maio de 2027.
Entre os atendimentos, uma história ficou gravada na memória. Um menino de cerca de oito ou nove anos passou o dia esperando por atendimento odontológico, mas a equipe não conseguiu recebê-lo antes do encerramento das atividades. Na manhã seguinte, quando os voluntários chegaram a uma escola localizada em outra comunidade, ele estava novamente na fila. Segundo relatou à dentista, havia caminhado cerca de 30 quilômetros porque continuava com muita dor. “Tia, tem vaga ainda?”, perguntou. Desta vez, foi o primeiro a ser atendido.
Ana Paula também percebeu que orientações consideradas simples no Brasil ganhavam outro significado naquele contexto. Recomendar gelo após uma extração, por exemplo, nem sempre era possível para famílias sem energia elétrica ou geladeira. Crianças que recebiam escovas com personagens conhecidos aqui não reconheciam as figuras. Para ela, são situações que evidenciam que a diferença entre quem pode oferecer ajuda e quem precisa recebê-la muitas vezes está nas oportunidades disponíveis ao longo da vida.
A experiência terminou, mas, para Ana Paula, o compromisso não ficou em Moçambique. Ela pretende continuar divulgando o trabalho das organizações e mobilizando apoio para a futura escola de Lamego. Também deixou um convite para quem deseja participar de ações voluntárias, seja em missões, em projetos locais ou por meio de doações. “É muito melhor ser a mão que tem para entregar do que a mão que precisa receber”, resumiu, ao falar sobre o que trouxe dessa viagem para a vida.
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