Você está ouvindo
Tua Rádio
Ao Vivo
18:00:00
Encontro Certo
19:00:00
 
 

Venceu a lógica, a perseguição e censura

Miguel Debiasi

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados. Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vocês não quiseram” (Lucas 13,34; Mateus 23,37). Jesus expressa sua tristeza pela rejeição contínua de Jerusalém aos mensageiros de Deus. O lamento de Jesus ecoa na atual perseguição e censura direcionada ao Padre Júlio Lancellotti

Para o povo de Deus, Jerusalém era o coração espiritual e político de Israel, a Cidade Santa onde estava o Templo, centro da adoração e da presença de Deus. Foi estabelecida como capital por Davi e da identidade nacional judaica. Era o lugar da peregrinação e do esperado para o cumprimento das promessas de Deus e a vinda do Messias, a quem o povo aguardava.

Mas, também o local de grande rebelião e rejeição, onde os líderes religiosos matavam os enviados de Deus, simbolizando a resistência à vontade divina. A fala de Jesus expressa seu profundo lamento porque Jerusalém, o lugar que deveria acolher o Filho de Deus, o rejeitava, assim como seus líderes rejeitavam Sua mensagem de salvação. Esta rejeição e perseguição levariam a cidade de Jerusalém a um grande julgamento, apesar do desejo de Jesus de protegê-los como uma galinha protege seus pintinhos.

No contexto bíblico, a missão principal do profeta é ser um porta-voz de Deus, transmitindo Sua Palavra ao povo. Sua Palavra sempre é um chamado à retidão, interpretando os acontecimentos à luz da vontade divina. Há sempre uma exortação ao arrependimento e à obediência, muitas vezes revelando aspectos do futuro para alertar e guiar a nação. Tudo com coragem e fidelidade a Deus, mesmo em face da oposição (Oseias 14,1-2; Jeremias 3,12; 4,1).

A ausência de razões oficiais por parte do cardeal arcebispo Dom Odilo Scherer para a determinação que afastou temporariamente o Padre Júlio Lancellotti das redes sociais e de transmissões ao vivo gerou uma onda de interpretações e especulações. Para muitos, a medida soou como censura e perseguição, especialmente no contexto crescente de ataques da extrema-direita contra o trabalho social do padre. A falta de transparência no caso, portanto, alimenta o debate público e impede o conhecimento da verdadeira motivação por trás da decisão.

Para entendermos a proibição ao Padre Júlio Lancellotti é preciso olhar para os muitos atores religiosos e sociais envolvidos neste caso:

O cardeal arcebispo Dom Odilo Scherer possui um perfil teológico e pastoral considerado mais tradicional e alinhado à Cúria Romana e à doutrina oficial da Igreja Católica. Sua trajetória inclui um período como oficial da Congregação para os Bispos, na Santa Sé, o que demonstra sua proximidade com o centro da autoridade eclesiástica e sua adesão às normas e à disciplina da Igreja.

Embora a Arquidiocese de São Paulo tenha uma história notável de envolvimento com pautas sociais, dom Odilo tende a adotar uma postura cautelosa. Ele direciona o foco para a caridade cristã e na justiça social dentro dos parâmetros institucionais, buscando evitar o que ele e seus apoiadores poderiam considerar ativismo de fé e política. A recente decisão de restringir as atividades do Padre Lancellotti ilustra de forma nítida essa orientação teológica e pastoral de Dom Odilo.

A Arquidiocese de São Paulo desempenha um papel fundamental, com um trabalho pastoral robusto centrado na evangelização urbana e na busca pela sinodalidade, tanto na organização e quanto na articulação das ações de caridade social. Há um esforço significativo do clero e dos leigos em levar a mensagem do Evangelho aos desafios de um ambiente urbano complexo. Esse compromisso culminou no 1º Sínodo arquidiocesano (2017-2023), que adotou como tema: Comunhão, Conversão e Renovação Missionária.

O processo sinodal resultou na implementação de novas diretrizes e estruturas para dinamizar a ação pastoral, incluindo a readequação das seis regiões episcopais em 24 decanatos e a promulgação de novos regimentos para a Cúria Metropolitana e para as coordenações pastorais, visando maior eficiência e unidade pastoral. Um marco importante em 2024 foi criado o Vicariato Episcopal da Caridade Social, desenhado para articular e dinamizar as inúmeras iniciativas caritativas já existentes nas 311 paróquias da Arquidiocese, garantindo impacto social e unidade de propósito.

As ações sociais refletem a opção preferencial pelos pobres e enfermos, abrangendo a distribuição de alimentos, apoio a pessoas em situação de rua, com destaque para o trabalho realizado pela Missão Belém e Padre Júlio Lancellottti, orientação jurídica, psicológica e a promoção da saúde.

Padre Júlio Lancellotti, pároco da São Miguel Arcanjo, na Mooca, é uma voz profética que, há quase quatro décadas, encarna a Teologia da Libertação e a opção preferencial pelos pobres. Sua atuação incansável, focada na defesa dos direitos humanos e acolhimento da população em situação de rua, interpreta o Evangelho a partir da realidade de opressão, buscando justiça social e combatendo a “cultura do descarte”, em sintonia com o Papa Francisco.

Referência nacional, Padre Júlio utiliza sua forte presença digital para denunciar a marginalização, a violência institucional e a falta de políticas públicas, mobilizando por dignidade e acesso à saúde e documentação para os vulneráveis. Sua luta contra a aporofobia ou o ódio aos pobres e sua insistência em dar voz aos invisíveis geram atritos com setores conservadores, que tentam silenciar sua mensagem.

As recentes restrições impostas pelo cardeal Dom Odilo, como a suspensão das transmissões online e um período de recolhimento, não diminuem sua missão, mas amplificam o clamor por justiça. Sua voz, inspirada por Jesus dos marginalizados, incomoda ao expor as contradições sociais, transformando o silêncio imposto em um eco profético poderoso, sustentado por milhões de seguidores e pela solidariedade de quem defende a dignidade humana, consolidando-o como símbolo do Evangelho vivo.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

Enviar Correção

Comentários

Newsletter Tua Rádio

Receba gratuitamente o melhor conteúdo da Tua Rádio no seu e-mail e mantenha-se sempre atualizado.

Leia Mais