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Um trabalho fácil

Gislaine Marins

Quando o meu marido me viu chorando pelo segundo dia consecutivo, perguntou: “Por que você aceita esse tipo de trabalho, se faz sofrer tanto?”

Certos trabalhos deveriam exigir indiferença, distanciamento, isenção, mas nem sempre funciona assim. Quando traduzo, sinto-me como uma atriz. Tento transmitir a emoção, a alegria, a dor para quem lê na língua traduzida. E sofro. Sofro como uma desgraçada. Costumo dizer que o tradutor é como um gato: tem sete vidas. Às vezes no mesmo dia.

Tinham-me dito que era um trabalho fácil. Um documentário. Tão fácil que eu nem precisava me preocupar com o tempo e o comprimento das frases, esses detalhes técnicos que os tradutores conhecem bem. Depois do meu trabalho, o documentário seria editado e eventualmente, se fosse necessário um corte, a gente veria em fase de edição.

Armei-me de fones de ouvido e comecei a fazer o meu trabalho fácil. Uma das mulheres contava que tinha sido abusada pelo pai. Outra contava que a família tinha permitido que ela fosse para a zona turística da cidade porque o dinheiro que ela ganhava com os turistas era essencial para a sobreviência da família. Outra tinha sido obrigada a ir para a zona de prostituição. Uma ficou grávida. O filho caiu das frestas do pavimento da casa e morreu afogado, sem que ela tivesse a possibilidade de salvá-lo. Morava em uma palafita.

Chorando como uma torneira aberta, respondi ao meu marido que traduzia porque as pessoas precisavam conhecer aquelas denúncias. As vítimas tinham em comum o fato de terem conseguido participar de um programa de inclusão social e, lentamente, estavam se recuperando das feridas, dos sofrimentos pelos quais passaram. E eu, que nunca tinha passado por aquilo, nunca consegui esquecer, como se lembrar fosse o preço da minha impotência, da impotência da nossa sociedade, da deliberada indiferença em relação ao que acontece com quem não é considerado alguém igual a nós. Praticamos a arrogância deliberada: cada vez que dizemos “Deus me livre” ou “Graças a Deus, isso nunca aconteceu comigo”, estamos no nosso íntimo gozando essa ilusão de que estamos em um patamar inatingível. O patamar é o problema. Se achamos que por algum motivo estamos isentos, imunes, protegidos, estamos conscientemente ou não nos colocando acima dos outros, estamos nos fechando para a capacidade de nos identificarmos com quem está vivendo uma situação que por um acaso qualquer, nunca vivenciamos.

Trabalho fácil: traduzir às vezes é uma dor quase igual à do viver, ou à do fingir, como dizia Fernando Pessoa. Porque, para ser verossímil, é preciso fingir a dor que deveras sentimos. Para interpretar um papel a exigência é semelhante. Para traduzir, idem. Não, não é difícil. Difícil é a dor que a gente não sente. Triste é a dor que a gente ignora. Infame é a dor que a gente despreza. Mas é verdade, não é difícil.

Difícil era para a Sônia. Como vou esquecer dela? Éramos quase iguais na escola. Mesma altura, mesma cor, mesmas notas, mesma rua. O pai dela tinha ambições políticas. Para aumentar suas chances, aliou-se ao partido do governo. Não bastou. Então, enquanto eu decidia o que estudaria no antigo Segundo Grau, o pai da Sônia teve uma ideia lucrativa para a família: mandar a Sônia trabalhar na Avenida Voluntários da Pátria, em Porto Alegre. Não na parte final da rua, dominada pelo comércio popular, mas na parte que seguia em direção ao Bairro dos Navegantes, a partir da Rodoviária. A pior zona de prostituição da cidade. A zona em que o desespero era maior, onde até os miseráveis eram capazes de pagar por dez minutos de sexo. A Sônia não tinha completado quinze anos.

Nunca me conformei com isso. O pai dela, um monstro hipócrita, ao ser questionado sobre o sumiço da filha, limitou-se a dizer que ela não tinha cabeça para os estudos. Não era verdade.

A última vez que vi a Sônia, ela voltava para casa de manhã, enquanto eu esperava o ônibus para ir para a escola. Contar isso não irá restituir os anos perdidos, os sofrimentos pelos quais ela passou e nem aliviará a dor que sinto ao relembrar a crueldade das chamadas famílias de bem. Serve apenas como aviso: nenhuma narrativa construída ao redor da exploração poderá esconder para sempre a verdade. Quanto mais conseguirmos contar que o mundo das famílias de bem está podre, corroído por histórias de pais que abusam das filhas, que vendem as próprias filhas, mais essas historinhas inventadas parecerão aquilo que realmente são: mentiras para submeterem as mulheres desde a mais tenra idade, mentiras para culpabilizarem as vítimas.

Quando terminei de fazer o meu trabalho fácil, achei que não iria ter tantos outros trabalhos fáceis como esse. Engano meu: o mundo está cheio de famílias com filhos homossexuais, de mulheres que apanham dos maridos, de casamentos combinados, de mães que lutam por seus filhos. E a culpa, quando a justiça é feita, vejam só, nunca é da vítima. Quando os tribunais aplicam a justiça, os casos terminam sempre com o reconhecimento de que o adulto ou a pessoa com maior poder na relação violou a vítima, e não o contrário. Portanto, não é problema de abstinência. O problema é a violência de quem pensa que a vida dos outros está “em outro patamar”. Não é apenas o abusador que viola as vítimas. Os indiferentes também têm um papel nessa história. São coniventes. Nesse palco, o meu papel de choradora e tradutora é muito mais confortável. Como eu disse, é um trabalho fácil.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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