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Tempo de retorno para Deus

Miguel Debiasi

 

“Quaresma é uma viagem de regresso a Deus”, nas palavras do Papa Francisco. Com a Quarta-feira de Cinzas, iniciamos os 40 dias de preparação para celebrar a Páscoa do Senhor. Nesse período, os cristãos são convidados a refletir em suas comunidades sobre a vivência da sua fé. Rezar, jejuar e dar esmola: estes são os pilares que sustentam esse caminho de conversão pessoal e social.

A Quaresma é o tempo, no calendário litúrgico, que dá início à celebração do Magnum Paschale Sacramentum ou do Grande Sacramento Pascal, como define o Papa Leão Magno (Leão I), um doutor da Igreja notável por sua compreensão do Mistério Pascal. Por seu significado teológico e eficácia espiritual, a Páscoa é a solenidade central que ultrapassa todas as outras do ano litúrgico.

A é um período que se fundamenta em um profundo sentido e simbolismo bíblico, remetendo tanto aos 40 dias que Jesus passou no deserto, jejuando e  sendo tentado no deserto antes de iniciar Sua vida pública, quanto aos 40 anos da caminhada do povo de Israel rumo à Terra Prometida (Mateus 4,1-11; Êxodo 16,35). Esse itinerário espiritual estabelece a Quaresma como um tempo privilegiado de conversão e reflexão, a fim de acolher a graça divina e comprometer-se com os valores do Reino dos Céus.

Santo Agostinho, via a quaresma como um tempo de renúncia aos desejos desordenados, mudança interior e conversão, buscando um retorno ao essencial através da oração, jejum e caridade. O santo ressaltava a importância de não apenas se abster de coisas materiais, mas também de praticar obras de misericórdia, como o perdão e viver uma vida de amor. Para ele, a quaresma era uma “viagem de retorno ao essencial”, onde a meditação e a reflexão sobre a vida de Cristo e a própria fé eram fundamentais.

São Francisco de Assis vivia o tempo quaresmal de maneira intensa, não apenas durante os 40 dias da Páscoa. Ele fazia jejuns, penitências e orações como forma de imitar a vida de Cristo, buscando uma conversão interior e uma união mais profunda com Ele. Francisco vivenciava seis quaresmas anuais por devoção, para se preparar para diferentes festas e mistérios litúrgicos, como: a quaresma da Páscoa, de São Miguel Arcanjo, de Nossa Senhora e a do Advento.

Diversos santos e santas vivenciaram com profundidade os pilares preparatórios da Páscoa do Senhor e seu testemunho impactou a vida cristã e a sociedade. Santa Mônica, do século IV, conhecida por sua oração perseverante pela conversão do marido e do filho Santo Agostinho,  demonstra um impacto transformador  vida cristã e nas relações familiares e, por consequência, sociais.

A mártir Santa Teresa Benedita da Cruz (1891-1942),  cuja busca intelectual pela verdade a levou à conversão ao catolicismo e seu testemunho como filósofa e carmelita, que morreu em Auschwitz, teve um profundo impacto social e espiritual.

Santa Dulce dos Pobres (1914-1992), cujo testemunho de caridade e acolhimento aos pobres teve um imenso impacto espiritual e social no Brasil.  Sendo frequentemente citada como exemplo de vida cristã, especialmente em tempo quaresmal e da Campanha da Fraternidade.

A Igreja apresenta alguns caminhos espirituais que incluem práticas sociais, para que os cristãos vivam de forma proveitosa o tempo quaresmal. O itinerário mais tradicional se fundamenta no tripé: oração, jejum e caridade (esmola). Estas práticas, vividas com discrição e um coração voltado para a conversão, integram as dimensões  espiritual e social da vida cristã, preparando o fiel para a celebração da Páscoa.

A oração pessoal e comunitária intensifica a conexão com Deus, sendo o alicerce de toda a jornada quaresmal. Além disso, a leitura e meditação da Palavra de Deus, especialmente dos Evangelhos propostos para cada domingo da quaresma, ajudam a guiar o fiel em seu itinerário de conversão. A via-sacra, por sua vez, permite que o fiel medite a Paixão de Cristo acompanhando os passos de Jesus em direção à cruz. Outra prática é a busca pelo sacramento da Reconciliação (confissão) para uma purificação interior e renovação da graça batismal. Por fim, retiros espirituais são itinerários que fortalecem o fiel em sua jornada de penitência e conversão.

O jejum e a penitência vão além da privação; são exercícios de disciplina. Eles ajudam a controlar os desejos do corpo e a reordenar a relação com os bens materiais. Seguir as orientações da Igreja, jejuar na Quarta-feira de cinzas e na Sexta-feira Santa, e não comer carne nas sextas-feiras da Quaresma, auxilia o fiel a se reaproximar de Deus. A penitência pessoal, ao abrir mão de um hábito ou prazer, tem seu valor de conversão. Escolher uma vida mais sóbria e simples, evitando o supérfluo, ajuda a encontrar a verdadeira essência da vida cristã.

A caridade ou esmola é a expressão prática da fé em ação. Ela nos aproxima do próximo, ajuda a viver o amor de Cristo e promove o desapego do egoísmo e bens materiais. O exercício das obras de misericórdia corporais e espirituais, a participação ativa por meio do voluntariado ou apoio financeiro e material a instituições são ações concretas e relevantes nesta jornada quaresmal.

Em síntese, a quaresma, em seu itinerário, demonstra que a dimensão espiritual indissociável da dimensão social. Longe de ser um retiro intimista e isolado, a preparação para a Páscoa configura-se como um fervoroso convite à ação concreta e transformadora da sociedade. A Campanha da Fraternidade, como elemento de reflexão no tempo quaresmal, traduz a vocação cristã ao amor em ação social. Diante do déficit habitacional, somos convocados a um imperativo ético e evangélico: a incansável busca pela moradia digna para todos, condição essencial para a promoção de uma sociedade mais justa, humana solidária.

Todos esses exercícios espirituais e sociais que a Igreja apresenta aos cristãos para o tempo quaresmal buscam prepará-los para a grande celebração da fé cristã: a Páscoa do Senhor, a nossa Páscoa.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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