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Socorro, lá vem o vírus!

Gislaine Marins

Calma, pessoal.
Não é desta vez que o ser humano será extinto. E olha que a gente se esforça para isso: destruímos a natureza, poluímos tudo o que é possível, envenenamos a nossa comida, abandonamos à própria sorte os seres humanos pobres - indignos da consideração social de merecerem os mesmos serviços públicos dos demais cidadãos -, louvamos as políticas que aniquilam a qualidade de vida, desprezamos as necessidades de vida digna para os idosos, criamos mal os nossos jovens, aplaudimos a polícia que mata em um país que rejeita a pena de morte e as condenações sem processo, rimos com os que ofendem e afetam psicologicamente as minorias, enfim, esforço para acabar com o ser humano é o que não falta.
Por isso, é preciso manter a calma. Este vírus não é agressivo como o ébola, aquele que não comove quase ninguém, porque só atinge africanos, negros e quase sempre pobres. Este vírus, porém, é bom para ajudarmos a reforçar o estereótipo de que os chineses são os párias do mundo: eis mais uma contribuição para a destruição da humanidade. Este vírus também favorece a seleção inatural da espécie: os sistemas de saúde mais preparados cientifica, tecnologica e economicamente poderão garantir a proteção de massa, indispensável para a sobrevivência da maioria: pobres ou ricos que sejam. Já os sistemas baseados no financiamento privado da saúde deverão enfrentar um fenômeno misto: aos ricos, a garantia de tratamento de acordo com os próprios recursos pessoais, aos pobres, o "Deus dará". Esta epidemia também está mostrando que a categoria dos "pobres" é bem mais abrangente do que se pensa: como revelaram casos nos Estados Unidos, não basta um plano de saúde para sentir-se seguro. As companhias estão enviando as contas dos exames aos assegurados para protegerem o seu capital. Como já vimos outras vezes na história das tentativas de extermínio do ser humano: primeiro vem o dinheiro, depois os escrúpulos.
Socorro: contra o inevitável, só nos resta ter consciência das probabilidades. Restam os livros que já imortalizaram outras epidemias, o nosso medo, a nossa coragem, a nossa tragédia, a nossa ironia. Restam a ciência com a sua corrida contra o tempo, e a perplexidade de quem acompanha os ataques ao conhecimento científico; resta o choque diante do opinionismo dos vaidosos da própria ignorância. Resta o que sabemos e o que não sabemos. Resta a nossa provável sobrevivência, a nossa sorte, a nossa confiança e, infelizmente, os nossos maus costumes, por vezes mais perigosos do que o vírus, e a prepotência dos que se consideram acima das catástrofes e da própria fragilidade da vida.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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