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Que o sangue dos inocentes nos ilumine

Miguel Debiasi

 

Segundo o filósofo Sócrates, as guerras, revoluções e batalhas derivam exclusivamente dos desejos do corpo. Infelizmente, a contemporaneidade ainda sangra sob escombros de cidades destruídas, vitimando inocentes.  
 A população mundial não pode continuar subjugada por autoridades corrompidas, que perpetuam crimes horrendos para satisfazer suas ambições.

Guerras não ocorrem por ideais nobres, mas pelo desejo de acumular riqueza e poder, necessidades criadas unicamente para satisfazer políticas imperialistas. Na visão dos filósofos gregos, a sociedade é um reflexo do indivíduo. Se os governantes se deixam escravizar por seus apetites materiais, o Estado caminha para a tirania, a divisão e o caos social. A verdadeira justiça na gestão pública exige líderes guiados pelo bem comum, e não pela ambição desmedida.

Diante da conjuntura internacional, em que autoridades inebriadas pelos seus desejos imperialistas são incapazes de trocar a ambição cega pela sabedoria e pela preservação da vida, os horrendos crimes que vêm sendo perpetuados contra o povo palestino, sudanes, ucraniano, birmanes, congolês, normalizam a guerra e a morte de inocentes. A brutalidade da matança mostra o quão perversos são algumas autoridades que nutrem a crença na guerra.

Desde o início do conflito de Israel com a Palestina, em outubro de 2023, cerca de 70 mil palestinos foram mortos na Faixa de Gaza. Em outros conflitos, ocorreu por volta de meio milhão de mortes entre ucranianos e russos; a guerra no Sudão conta com mais de 150 mil vitimados; no Congo transcende aos 17 mil mortos; e na Birmânia, atual Myanmar, no sudeste Asiático, ultrapassa mais de 100 mil.

Como se não bastasse, a ofensiva conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã tem impulsionado níveis inéditos de brutalidade e desumanidade. O trágico resultado dessa escala de violência reflete-se em bombardeios de escolas civis, hospitais e campos de refugiados, devastando cidades e vitimando populações totalmente desprotegidas.

A perpetuação dos conflitos no Oriente Médio alimenta interesses hegemônicos imperialistas, gerando impactos humanitários devastadores. Em Gaza, a escalada militar e as violações do direito internacional são uma grande ameaça à humanidade. O alto número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças, e o bloqueio à ajuda humanitária – levam a graves acusações de punição coletiva. Essa crise é agravada pela contínua recusa em reconhecer a Palestina como um Estado e uma nação soberana.

Paralelamente, o acirramento das tensões entre Israel, Estados Unidos e Irã ameaça arrastar a região do Oriente Médio para um conflito de larga escala de proporções globais. As estratégias de guerra usadas pelos EUA e Israel pela mudança de regime no Irã e a busca pela manutenção da hegemonia ocidental, em detrimento de soluções diplomáticas duradoras, têm custado vidas inocentes. O risco de bloqueio das rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, ameaça desestabilizar o comércio internacional e inflacionar os preços globais de energia.

A partir de uma consciência global, nenhuma guerra tem suporte moral; todas são inaceitáveis. Nada justifica o sangue de inocentes e indefesos. Na teologia bíblica, todo sangue de inocente simboliza a gravidade do assassinato, da injustiça e da opressão, cujo clamor por justiça chega diretamente a Deus (Êxodo 3,7-8). Em Gênesis, Deus diz a Caim que o sangue de Abel, assassinado injustamente, clamava da terra (4,10). Em Provérbios, o derramamento de sangue inocente é listado entre as coisas que o Senhor mais odeia (6,16-17). No Apocalipse, o sangue dos mártires pede a justiça de Deus (6,9-10). O sacrifício de Jesus Cristo, cujo sangue não clama por vingança, mas oferece perdão e redenção à humanidade.

Na história da Igreja, o teólogo Tertuliano cunhou a máxima de que “o sangue dos mártires é a semente da Igreja”. Essa reflexão destaca que o sacrifício daqueles que morrem por amor à fé e à verdade não é em vão; ele ilumina e fortalece a comunidade cristã, inspirando a justiça social e o comportamento ético das novas gerações de seguidores de Jesus Cristo. Em nossos dias, diante da tragédia que assola o Oriente Médio, o Papa Leão XIV convoca a humanidade a rejeitar a violência e a ganância, clamando: “Basta com a loucura da guerra, da idolatria de si mesmo e do dinheiro”.

Quais os caminhos para o fim das guerras e dos conflitos internacionais? A nível institucional, a paz é buscada por meio de organizações multilaterais e mecanismos diplomáticos que visam forçar ou mediar negociações pacíficas. As conversas bilaterais e trocas de notas exclusivas entre os governos em disputa continuam sendo a forma mais comum de resolver as divergências. Paralelamente, há restrições comerciais e financeiras aplicadas por organizações globais para isolar financeiramente a nação agressora e forçá-la a negociar uma solução. Na prática, essas ações têm se mostrado insuficientes e frequentemente falham em produzir resultados reais.

Historicamente, organizações como a ONU foram idealizadas como principal fórum global para a paz e segurança. Contudo, sua atuação hoje se revela limitada: a Assembleia Geral debate e emite resoluções que muitas vezes são ignoradas, enquanto o Conselho de Segurança enfrenta bloqueios políticos severos que impedem a autorização de missões de paz eficazes ou a imposição de sanções definitivas.

Da mesma forma, as alianças regionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) nas Américas e a Liga dos Estados Árabes no Oriente Médio, frequentemente esbarram em interesses próprios e na falta de consenso político, falhando em conter as escaladas de violência local. As instituições jurídicas como a Corte Internacional de Justiça (CIJ), esbarram na falta de mecanismos práticos para fazer com que as nações soberanas cumpram suas determinações. Isto comprova que o atual sistema internacional de resolução de conflitos carece de autoridade coercitiva real para frear as disputas entre países.

Diante da inércia das instâncias oficiais, a construção de um mundo pacífico passa a depender da atuação ativa da sociedade civil global. Isso exige dos cidadãos o exercício diário da cidadania, através da pressão política contínua – como abaixo-assinados, manifestações, greves –, do boicote a empresas financiadoras da indústria bélica e do uso estratégico das redes sociais espalhando informações factuais e expondo a violência contra os direitos humanos. Somente ao romper a barreira da censura e exigir responsabilização direta de seus líderes, a população mundial poderá assumir o protagonismo necessário para impor uma verdadeira cultura de paz.

Enquanto os conflitos internacionais perdurarem, que o sangue dos inocentes não seja em vão, mas servia de bússola para a construção de um mundo onde a vida seja preservada. Que o luto coletivo se transforme em luta ativa, pavimentando o caminho para um mundo onde prevaleçam a justiça, a empatia e a paz duradoura.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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