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Perdidos e achados

Gislaine Marins

Era uma fria manhã de inverno na capital dos italianos. Um dia para perder e achar. Saindo para realizar um trabalho, encontrei pelo caminho uma manifestação de pais contra a vacinação, uma onda que crescia entre teorias não confirmadas, simples falsidades e palavras de ordem: liberdade.

Hoje a liberdade é professada de modo infantil. Sem levar em consideração a complexidade das relações sociais e da vida em comunidade, as pessoas invocam a liberdade em nome das causas mais estapafúrdias: o direito de sonegar impostos, o direito de ter filhos, o direito de questionar a ciência (sem ter conhecimento científico), o direito de estacionar onde quiserem, o direito de ouvir música em volume alto a qualquer hora e em qualquer circunstância e não menos o direito de insultar quem quer que seja.

Já tenho uma certa idade para considerar que esses são comportamentos antigamente definidos como grosserias típicas dos incivilizados. Não existiam os conceitos de politicamente correto e politicamente incorreto: as pessoas eram separadas entre as que tinham bom senso e boa educação e as que eram vistas como bichos selvagens. Se o politicamente correto contribuiu para esse debate foi, justamente, reiterando o que já se sabia e descrevia por meio de outros termos, exigindo uma reflexão sobre as maldades destiladas por trás daquilo que as pessoas definiam como brincadeira.

Mas o tempo passou e as coisas pioraram muito. Os defensores das maiores barbaridades, inaceitáveis socialmente, já não dizem que o fazem por brincadeira, hoje reivindicam a sua liberdade. A liberdade de fazer o que der na telha com os outros e de rejeitar que os outros façam qualquer crítica. Em poucas palavras: são infantis, incapazes de raciocínio lógico. Conhecem apenas a linguagem da violência e usam o termo liberdade como arma de negacionismo. Acreditam que farão muitos reféns usando voz grossa, altos decibéis, exibindo músculos e especialmente mostrando as suas carteiras. Em um país sempre submetido à lei do mais forte, os pobres são educados na resignação e os outros, com as armas à disposição - das palavras às armas, da política ao poder financeiro - agem como se a nação fosse um campo a ser devastado pelos seus caprichos.
Ao atravessar a manifestação dos pais contra a vacina, percurso obrigatório para chegar ao outro quarteirão, não pude deixar de ver os sorrisos, os carrinhos de bebê perfeitamente higienizados, os rostos aparentemente inofensivos. A maioria das pessoas naquele grupo acreditava estar sendo enganada por um complô global que iria inocular nos seus filhos substâncias perigosas, capazes de causar doenças terríveis e incuráveis e sentia ter o direito de lutar pela liberdade de não servir de cobaia.

As pessoas não entendem que os ensaios clínicos de qualquer substância são realizados antes com voluntários. Somente depois de várias fases, considerados todos os possíveis efeitos colaterais, é realizado o cálculo segundo o qual é indicado usar uma vacina em vez de correr o risco de continuar à mercê dos contágios.

Imbuídas de ignorância e com grande senso de proteção, pessoas geralmente amistosas tornam-se vetores de um clima hostil, permeado de mentiras, ameaças, terror. Quem não promove comportamentos violentos acaba sendo submetido ao medo, que paralisa tudo, até a capacidade de reação ao que é irracional: que não existe liberdade na mentira. Não existe a liberdade de invocar direitos que promovem rupturas sociais.

Terminando de ziguezaguear entre  faixas, mamadeiras e ilusões, apressei o passo, enquanto perdia todos os meus documentos. Uma daquelas mães, imbuída das noções básicas de convivência, encontrou tudo e entregou a um policial. Depois de algumas horas recuperei a identidade que já julgava perdida.

Isso apenas confirmou o que se vê em muitos rostos perdidos: as pessoas não são más por princípio, mas são terríveis nos casos específicos. Desejam certezas que o mundo não oferece, que podem ser buscadas com leitura, estudo, análise para alcançar a paz das probabilidades. Não por acaso, governos autoritários investem em propaganda, autorizam (e às vezes financiam) grupos complotistas que difundem inverdades e cortam verbas para a educação. Dar às pessoas as condições para saírem da ignorância significaria dar a elas o poder de vencer a violência e a mentira.

Lembrei dessa história porque a onda dos incrédulos e dos opositores à vacina contra a covid voltou a erguer-se no mar das nossas desgraças. Não basta fazer uma escolha individual. É preciso vacinar-se por quem não poderá fazê-lo em função das suas condições físicas e de saúde: começando pelos filhos em seus carrinhos, chegando aos idosos com baixa imunidade e todas as pessoas que não podem ser ignoradas, desprezadas e descartadas por mostrarem mais do que outras a própria fragilidade.

É muito triste o mundo que vangloria o mais forte. A vacinação é uma boa oportunidade para mostrarmos o nosso espírito solidário, surpreendendo quem, como eu, perde documentos e reencontra-os graças à humanidade que resiste no íntimo de todos, até mesmo daqueles que hoje nos parecem irreconhecíveis pelas teses absurdas que endossam e pelos comportamentos violentos que apoiam.

 

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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