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Páscoa: memória, celebração e renovação da vida e da fé

Miguel Debiasi

Em sua obra Confissões, Santo Agostinho (354-430) escreve: “fomos feitos para Vós e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós”. Santo Tomás de Aquino (1225-1274) escreve “Na ressurreição a Vida emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente”. A Páscoa de Jesus Cristo expressa a natureza de Deus e a realidade humana.

O teólogo, filósofo e sacerdote franciscano escocês, o bem-aventurado João Duns Scotus (1265-1308), escreve que Deus é uma liberdade criadora. A vontade divina é a origem de todo ser. É pelo querer de Deus que todas as coisas foram feitas. Deus opera por meio do Verbo divino, gerado no ato de amor infinito que Deus se ama a si mesmo: “por Ele todas as coisas foram feitas e sem Ele nada foi feito. O que foi feito nele era a vida. E, a vida é a luz dos homens” (João 1,3-4). Cristo é o mediador para a humanidade. É o próprio Deus que O oferece ao homem e ao mundo, o dom mais sublime sem o qual a humanidade teria sido privada da salvação possível.

A Páscoa é a festividade da fé central para o cristianismo, pois celebra-se a ressurreição de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Páscoa do hebraico Pessach significa passagem. O povo de Deus ao participar da festa da Páscoa celebra a Ressurreição de Jesus Cristo, Sua vitória sobre a morte e Sua passagem transformadora em nossa vida.

A Páscoa cristã tem sua iniciação na Pessach do povo hebreu que festejava com liturgia solene a libertação da escravidão do Egito (Êxodo 12,1-51). O rito de celebração da Páscoa dos hebreus consistia no sacrifício de um animal (cordeiro-pascal) como meio de eliminar o pecado. A páscoa dos hebreus prefigura a realidade futura do povo de Deus que foi a imolação de Cristo na cruz. A Páscoa de Cristo, Filho de Deus que se fez homem, pelo seu sangue derramado, é a única capaz de eliminar o pecado e a morte. A única que liberta a pessoa humana, abrindo para ela, novamente, as portas do Paraíso, da Salvação. Cristo imolado é o verdadeiro Cordeiro Pascal.

Na Páscoa celebra-se a obra da redenção humana e a glorificação de Deus realizada por Cristo, quando morrendo, destruiu a morte e ressuscitando, renovou e resgatou nossa vida. Pelos textos bíblicos, observa-se que os Apóstolos e os primeiros cristãos que acompanharam Jesus de perto não entendiam perfeitamente o que era ressurreição e seu significado de fé, ainda que o Mestre tivesse se referido a ela em suas explicações e anúncios: O Filho do Homem será morto, mas ressuscitará” (Lucas 9,22).

Na madrugada do domingo da ressurreição, as mulheres foram ao túmulo em pranto e vendo que estava vazio não compreenderam o que havia acontecido, acreditaram após o próprio Cristo ressuscitado se apresentar a elas (João 20,11-18). No final do mesmo dia os Apóstolos puderam ver, tocar seu corpo, observar suas chagas, ouvir sua voz e receber o envio no Espírito para anunciar a Boa-notícia da vida nova (João 20,19-23). Antes de retornar para junto do Pai, Cristo ressuscitado, apareceu a mais de quinhentas pessoas numa só vez (1Coríntios 15,6).

O testemunho da ressurreição de Jesus inequívoco dos Apóstolos e das mulheres discípulas é a base da fé anunciada e transmitida pela Igreja durante a história. É pela Páscoa de Jesus e de tais testemunhos, que a fé cristã está plena de sentido e de futuro. O anúncio da ressurreição de Jesus vem sendo transmitido pela Igreja de geração em geração. A cada Páscoa que celebramos renovamos o anúncio, a fé e a vida em Jesus Cristo.

A celebração das festividades pascais de longa tradição em nosso tempo pela força de muitas propagandas midiáticas e de outros costumes da sociedade diminui o seu sentido. Para uma considerada parcela da sociedade a Páscoa do Senhor virou sinônimo de feriadão, oportunidade para os passeios, descanso e de entretenimentos. Em muitos círculos familiares a Páscoa é lembrada de forma paganizada e deturpada pelos consumos, festas, bebidas, bailes. Para outros, a Páscoa virou um mero folclore. Nestes ambientes e círculos familiares perdeu-se o significado da Páscoa e abandonou-se a prática religiosa e sua tradição.

Em contrapartida, as confraternizações familiares após as celebrações religiosas são tradições que fortalecem a fé em seu principal e essencial sentido, viver a Páscoa do Senhor. A cada Páscoa celebrada os cristãos renovam seu compromisso e sua fidelidade às origens da fé. Por ela, a fé, vivem com intensidade a maior festividade, a celebração do Mistério Pascal de Cristo, a sua Ressurreição e a nossa ressurreição.

As novas gerações se distanciam do sentido da Páscoa. No feriado da Páscoa as cidades oferecem muitas atividades sociais e festivas, substituindo a celebração redentora da vida humana. Cabe aos cristãos darem o testemunho fiel da Páscoa como Jesus pediu aos seus apóstolos e discípulas (Mateus 28). Pelo testemunho fervoroso dos cristãos contrapõe-se a cultura da indiferença religiosa. Somente pela participação litúrgica superam-se os limites da incredulidade humana: “Se ressuscitastes com Cristo, agora pensai nas coisas do alto, não nas coisas da terra somente” (Colossenses 3,1).

A Páscoa do Senhor manifesta que Deus criou o homem e a mulher para serem transformados, para viverem eternamente. Quando tocado pela graça de Deus o ser humano é um “vir-a-ser”, como reflete a filosofia. Como diz Santo Agostinho, “fomos feitos para Vós e estamos inquietos para repousar para Vós”. Santo Tomás de Aquino convicto de todos os sentidos escreve “na Ressurreição a Vida emerge, ela se impõe simplesmente”. Estes grandes teólogos e santos professam “a ressurreição do Senhor é a nossa esperança”.

A teologia nos ensina que celebrar a Páscoa do Senhor é reconhecer que Deus não desiste de nós, Ele espera atento para que um dia, na casa eterna, vivermos sempre com Ele e com todos seus eleitos e santos que já gozam da visão beatífica, de convivermos lado a lado com Deus. A Igreja prega convicta “Jesus que morreu e ressuscitou e assim acontecerá com os que são dele” (1Tessalonicenses 4,14).

Todos podem à luz dos textos bíblicos reconhecer os testemunhos dos apóstolos e discípulas de Jesus e de seus ensinamentos que nos asseguram que “seremos redimidos para que vivamos uma nova vida” (Romanos 6,4). A Páscoa é da natureza de Deus e da realidade humana libertadora que se impõe hoje e sempre.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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