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Oração de Jesus

Miguel Debiasi

Oração de Jesus

Basta uma tragédia, algumas intempéries, outras dificuldades intransponíveis para o ser humano deparar-se com sua frágil natureza, finita, mortal. O ser humano é vulnerável as mais simples conjugações e ações dos fatores climáticos, do tipo latitude, altitude, temperatura, umidade, calor, pressão atmosférica, inversão térmica, efeito estufa. Como se não bastasse, aquilo que parece tão frágil pode ser extremamente traiçoeiro à natureza humana. Como forma de conviver com esta frágil natureza, a cultura ocidental cristianizada aponta abertura para o transcendente, para um ser superior, absoluto.

No decurso da história, os seres humanos mostraram capacidade de superação de muitos tormentos e medos. Mas, também fracassaram em muitas situações, como em condenar o Filho de Deus na Cruz, os holocaustos em massa, de seis milhões de judeus, os bombardeamentos atômicos das cidades de Hiroshima e Nagasaki, genocídio de povos pela violência, fome, pobreza e outros. Pode-se dizer, por um lado, houve acertos, e por outro, depara-se com desacertos da fragilidade humana.

Nesta luta pela superação das fragilidades, elaboraram-se profundas visões filosóficas, posições teológicas, teorias sociológicas, estudos antropológicos, desenvolveram-se pesquisas científicas. Contudo, em todas deixa transparecer que algo escapa a ciência, a experiência, a temporalidade, racionalidade humana. Em boa medida, muita coisa está para amanhã, para o depois do aqui e do agora. Mas, em sua finitude pode dar sentido a própria vida e da civilização, enfrentando o dilema da temporalidade e transcendência da história.    

Na fragilidade humana há algo divino, um elo e uma relação com Deus. Para os cristãos, não só existe um elo entre Deus, terra, mundo, humanidade, como também é um dogma de fé (Gênesis 1). Reza-se a Deus que criou o ser humano do pó da terra (Gênesis 2). Dentre todos domínios que Deus delegou ao ser humanos, quais sejam, abaixo dos céus, sobre a terra e os mares, o mais relevante é ser o guardião da obra criada. Ademais, Deus viu tudo que tinha criado é bom e perfeito (Gênesis 1,28-31). A relação entre Deus e o ser humano torna-se mais acentuada com a encarnação do seu Filho. A ponto de Deus permitir imolar seu Filho numa cruz, em defesa da redenção de sua obra (Mateus 27,45-50).  

Os textos bíblicos descrevem Jesus de Nazaré muito fiel a vontade de Deus Pai. A ponto de Jesus dizer que realiza não sua vontade, mas daquele que o enviou; as obras que fazia eram daquele que o enviou; as palavras eram daquele que o enviou; quem acreditava N’ele estava crendo no Pai que o enviou; quem o enxergava e via o Pai (João 10-12). Jesus foi tão fiel ao Pai a ponto de enfurecer as autoridades religiosas da época a tramarem politicamente a sua morte de cruz (Mateus 26,57-68).

 A relação amorosa entre Jesus e Deus Pai é uma questão fundamental para os cristãos. A relação Pai e Filho é tão determinante que há perigo de abordá-la superficialmente. Por sua relação com o Pai, Jesus modificou radicalmente o conceito e a experiência de Deus que se tinha no judaísmo da época. Pois, os judeus piedosos não se aproximam de Deus e nem se atreviam chamá-lo de Pai. Estes haviam colocado Deus muito acima dos conceitos religiosos, logo, também muito ausente da vida humana. Por essa visão criou-se uma resistência e uma cultura de pronunciar o nome de Deus, muito menos referir-se a ele de Pai, diz o teólogo espanhol José Maria Castillo.

A relação de confiança de Jesus no Pai celestial é uma ascendência absoluta, de uma (re)ligação humano e divino. A Deus ninguém jamais viu, foi Jesus, o Filho único do Pai, que no-lo deu a conhecer (João 1,1-3.14.18). O transcendente e inalcançável de Deus está plenamente contido e expresso no imanente e alcançável pela fé em Jesus Cristo. Jesus mostrou que isso acontece pela oração. Toda oração de Jesus expressa intimidade profunda, comunhão fiel com Pai. Ainda que as orações que Jesus ensinou sejam poucas, mas são de uma profunda significação evangélica. Jesus, rezava para realizar em seus atos, palavras, gestos a obra de Deus Pai na história humana, a salvação do universo criado (João 17).

Portanto, a oração de Jesus é uma vigília-com, sentir-com, viver-com, falar-com, superar-com, realizar-com o Pai. A ponto de mostrar que do Reino de Deus é uma real e concreta experiência humana, quando verdadeira transforma o mundo e as pessoas. Logo, a frágil natureza humana encontra-se numa condição de transcendência permanente, a percepção que a vida não se limita ao mundo material, corpóreo. Enfim, não se pode viver toda vida aqui e agora, há uma outra grande parte a ser vivida no futuro.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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