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O tempo será implacável

Miguel Debiasi

“O tempo será implacável” com aqueles que atacam a democracia, frase proferida pela ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff. No cotidiano e nas viradas históricas do país, o que permanece não é a ilusão de vitória dos que derrubam regras democráticas, mas a certeza de que a história cobra o seu preço.

No mundo grego antigo, a percepção e a compreensão do tempo não eram pensadas de forma puramente matemática ou mecânica, mas divididas em três dimensões conceituais distintas:  chronos, kairos e aion.

O tempo chronos é o quantitativo e linear; o tempo sequencial do relógio e dos calendários. Era visto como o tempo que avança e consome tudo – devorador. A sua compreensão se dá pelo cumprimento de rotinas, ciclos agrícolas e mediações físicas como clepsidras e ampulhetas.   

O tempo kairos é qualitativo e oportuno; o momento exato, a janela ideal para a ação. É a verdadeira compreensão máxima do tempo. Não importava a duração em minutos, mas a intensidade do instante. No kairos, o tempo cronológico deixa de importar, porque o foco total está em agarrar uma oportunidade única – na política, na guerra ou na arte.

O tempo aion é sagrado e eterno; o tempo imensurável do cosmo e dos deuses. Representa o tempo plano, sem início nem fim. Nele, o tempo é comprimido no sentido de que o passado, o presente e o futuro coexistem simultaneamente em uma totalidade divina.

Para os gregos, a maior sabedoria não era acelerar o passo para produzir mais dentro do chronos, mas sim desenvolver a sensibilidade de perceber quando o chronos dava lugar ao kairos. Saber o momento exato de falar em debate público ou desferir um golpe em batalha era a forma grega de dominar o tempo.

O povo hebreu do Antigo Testamento revolucionou a história humana ao introduzir o conceito de tempo linear, histórico e teleológico – com um propósito final. Enquanto a maioria das civilizações vizinhas da Antiguidade – como os egípcios, babilônicos e gregos, enxergavam o tempo de forma estritamente cíclica – como um eterno retorno atado aos ritmos da natureza –, o pensamento hebreu rompeu esse círculo.

Na lógica dos hebreus, o tempo se desenvolve em linha reta, com um começo absoluto – a Criação no Gênesis – e um fim determinado – o Dia do Senhor ou a consumação escatológica. Os acontecimentos são únicos, irrepetíveis e progressivos. A história não é uma ilusão que se repete, mas o cenário real onde a vontade divina se desdobra.

Diferentemente da mentalidade ocidental moderna herdada dos gregos, focada no tempo cronológico abstrato – chronos, a contagem matemática dos segundos e horas –, os hebreus avaliam o tempo de forma qualitativa. Esse famoso poema de Eclesiastes traduz bem isso: “Tudo tem o seu tempo determinado ... tempo de nascer, e tempo de morrer” (Eclesiastes 3). O tempo só ganha significado quando preenchido por uma ação relevante.

Na cosmovisão hebraica, Deus não está isolado do mundo físico; Ele entra no tempo humano para agir. Eventos marcantes como a Aliança com Abraão, a libertação do Egito (o Êxodo) e o Exílio na Babilônia não são mitos cíclicos, mas marcos geográficos e temporais definitivos. O passado serve como memorial, gerando a responsabilidade de lembrar os atos de Deus na história para fundamentar a esperança no futuro.

Embora a teologia e a história hebraicas fossem lineares, a vida cotidiana dos hebreus no Antigo Testamento – fortemente ligada à agropecuária e ao pastoreio – dependia dos ciclos da natureza. No entanto, eles ressignificaram os ciclos agrícolas, transformando-os em festa com propósitos históricos e lineares.

A semana e o Shabat (sábado) – a introdução do ciclo de sete dias com o repouso no sétimo dia, quebrou a dependência exclusiva dos ciclos lunares. Além disso, as celebrações agrícolas foram ressignificadas como memórias históricas: a colheita da primavera tornou-se a Páscoa (Pesach), celebrando a libertação da escravidão no Egito, enquanto a festa das Cabanas (Sucot) passou a lembrar a peregrinação real de 40 anos pelo deserto.

Dessa forma, o Antigo Testamento estruturou a fundação do que o Ocidente viria a chamar de “História”, dando à humanidade um senso de direção, propósito e responsabilidade moral sobre o tempo presente. A partir dessa compreensão, o tempo deixa de ser um ciclo inabalável e passa a ser o palco de eventos relevantes, capazes de elevar a consciência e as ações humanas.

Dez anos depois da sessão do Congresso Nacional (31/08/2016) que marcou o golpe de Estado contra a ex-presidente Dilma Rousseff, a história do Brasil está sendo reescrita pelos fatos e pela incontornável realidade. O tempo tornou-se o juiz implacável, reposicionou personagens, desmontou as farsas e expôs às claras as motivações que estavam por trás do golpe de 2016, entrando para a história como um dos fatos mais sombrios da democracia brasileira.

Deputados do submundo político apresentavam-se como os baluartes da moral, da família e dos bons costumes, mas o tempo expôs sua nudez em meio a um lamaçal de corrupção. Personagens do meio político e jurídico idolatrados como super-heróis, retornaram à insignificância. Os grandes veículos de comunicação, historicamente formadores da opinião pública e que apoiaram o golpe, hoje amargam o descrédito e a perda de audiência.

Ao longo desses capítulos, o Brasil sofreu o duro impacto de retrocessos em áreas sociais, habitacionais, culturais, educacionais e científicas, combinados com a estagnação econômica e o retorno para o Mapa da Fome. Nesse percurso, avançaram ações e manifestações de ódio, intolerância, violência, misoginia, discriminação e o abismo da desigualdade social e econômica.

Na tentativa de se reerguer, o país hoje busca reconstruir-se sob a liderança de um estadista de prestígio global. Nesse cenário, a própria ex-presidente Dilma Rousseff consolidou-se como agente imprescindível da multipolaridade ao comandar o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS, em Xangai.  À frente da instituição, Dilma emergiu como uma das vozes mais potentes na defesa de um novo paradigma global fundado na soberania, na cooperação e no desenvolvimento compartilhado.

Em sentido oposto, os arquitetos do golpe trilham o caminho da desmoralização pública e histórica, confinados ao submundo da política. O legado real do golpe resume-se ao agravamento das tensões sociais e à disseminação de preconceitos, aprofundando as divisões e o abismo que fraturaram a nação. O tempo, de fato, mostra-se implacável com aqueles que atentaram contra a democracia brasileira.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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