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O maior apartheid social do país

Miguel Debiasi

 

No início de junho Michelle Bachelet, Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, alertou do impacto devastador da Covid-19 sobre as minorias étnicas, principalmente em países como Brasil, França, Reino Unido e EUA. Desde então, nestes países os números de vítimas da Covid-19 só têm crescido, bem como, os atos de racismo se tornaram uma constante pelo mundo. O racismo é um mal abominável que precisa ser repudiado por toda humanidade. Novas vítimas da Covid-19 precisam ser evitadas por um trabalho governamental global e pela consciência e caridade cristã.    

Michelle Bachelet não precisou profetizar para denunciar a situação social que se desenhava nestes países. No caso do Brasil, o notório descalabro com a questão de políticas sociais, com os programas de saúde pública e no sucateamento do Sistema Único da Saúde (SUS), é fato mundialmente conhecido. Adalmir Leonídio, historiador e professor de História do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Observatório de Criminalização da Pobreza e dos Movimentos Sociais, aponta dados de um quadro social que a população negra no Brasil corre sérios riscos na pandemia. O historiador indica que no Estado de São Paulo, a situação com a população negra tem 62% mais risco de morrer em meio à pandemia do que as pessoas brancas.

Michele e Adalmir com suas preocupações humanitárias denunciaram a situação de vulnerabilidade das populações mais desassistidas pelas autoridades governamentais frente à pandemia e aos atos de racismo. Em qualquer telejornalismo sério esta situação ficaria óbvia, a denunciar-se à falta de vontade política do governo federal ao promover a desestruturação do SUS. Desta postura governamental, criou-se uma situação nacional de mais vulneráveis a doenças em geral, em particular da    Covid-19. Para o historiador Adalmir, o Brasil tem uma das situações mais difíceis mundialmente para as populações mais pobres, pois, o país tem a maioria negra. Os negros são os mais abandonados em situação de vulnerabilidade pela desigualdade social e econômica, submetidos ao racismo de caráter institucional e político. Sem acesso ao serviço público de saúde e na falta de combate à discriminação racial promove-se uma verdadeira situação de maior apartheid social do mundo do século XXI.

É inaceitável tratar a população negra como número, são necessárias ações que promovam respeito, igualdade e justiça. É a população que mais sofre, porque ao invés do Estado criar políticas públicas de inclusão e garantir acesso da população a elas, suas ações vem em desencontro, o que aumenta a desigualdade, quase sempre motivadas pelos interesses econômicos.  É de conhecimento internacional que o vírus atinge pessoas de todos os grupos social, porém não pode passar desapercebido que quem mais tem sofrido é a população negra, devido à má distribuição de renda, aliada ao precário acesso à saúde preventiva e demais direitos sociais. 

Para o enfrentamento desta situação de desumanização, a Igreja orienta que será preciso promover um humanismo integral e solidário capaz de enxergar em cada pessoa em situação de risco um irmão em Cristo. No rosto de milhões de homens e mulheres marginalizados de nosso tempo, ver-se um irmão em Cristo que clama por justiça e por um gesto de compaixão humana e social (João 3,16). Um humanismo integral e solidário desperta a consciência adormecida diante das vidas ceifadas pela fome, analfabetismo, racismo, doenças endêmicas, pobreza. O projeto de Cristo e do Evangelho é atualizado em cada ato de solidariedade e de humanismo. As virtudes da fé, caridade e esperança ganham pleno sentido quando os cristãos deste mundo lutarem por justiça social, por acesso ao progresso humano e as condições de vida digna. Cristo constituiu a sua Igreja com a missão de anunciar a Boa Notícia do Evangelho a toda humanidade, sobretudo, aos pobres e aos últimos da sociedade (Atos dos Apóstolos 1,18).

A Igreja ensina que o amor de Deus pelo mundo, manifesto no percurso da história da salvação e pela encarnação de Jesus Cristo deseja chegar a toda humanidade, de forma predileta ao pobre. A difusão do amor de Deus aos pobres e a humanidade é missão dos cristãos, manifestado em atitudes a favorecer a superação da exclusão social, do racismo e evocar a justiça, fraternidade, paz e crescimento social das pessoas (Tiago 2,14-26). A Covid-19 é uma doença contagiosa e letal, largamente alastrada nas populações periféricas, devido à falta de políticas de saúde pública e de amor ao ser humano. O racismo, é um comportamento humano que caracteriza do maior apartheid social do país e do mundo do século XXI, fruto da ação preconceituosa. Covid-19 e racismo tem vitimados milhões de pessoas, sobretudo, pobres e negros do Brasil e do mundo como do estadunidense Joerge Floyd. Para uma enérgica reação a essa situação, considera-se a encíclica Mit Brennender Sorge, do papa Pio XI (1937), indicando que a doutrina religiosa e moral da Igreja não tolera o racismo e o abandono social de etnias.

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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