O fortalecimento do Real e o desafio da Justiça Social
A célebre frase do Papa Francisco, “o dinheiro deve servir, e não governar”, ressoa como um chamado à consciência em tempos de profunda desigualdade. Quando o capital se concentra em mãos de poucos, a moeda perde sua essência de ferramenta de desenvolvimento e passa a ser um fim em si mesma. Tal cenário exige uma reflexão profunda: qual é a verdadeira função da riqueza de uma nação se ela não estiver a serviço da dignidade humana e do equilíbrio social?
Como nenhum economista conseguiu expressar adequadamente a idolatria do dinheiro, o Papa Francisco descreve o domínio financeiro sobre uma sociedade passiva. Ele argumenta que por trás de cada crise financeira, há uma crise antropológica profunda que nega a primazia do ser humano. O dinheiro tornou-se um ídolo; adoramos o bezerro de ouro (Êxodo 32,2-35) e aceitamos sua ditadura.
Uma reforma ética é necessária para rejeitar um dinheiro que governa em vez de servir. O pontífice exortou a um retorno a uma economia ética, que beneficie a humanidade, onde “O dinheiro deve servir, e não governar” (Evangelii Gaudium, n. 58). O Papa Francisco faz uma análise profunda da realidade mundial e critica a idolatria do dinheiro e a globalização da indiferença. Ele defende que o dinheiro esteja a serviço da vida, prevalecendo sobre o lucro.
A mensagem central do texto é um apelo à inversão de prioridades no sistema socioeconômico atual. Quando o dinheiro governa, a ética se torna opcional, a desigualdade se aprofunda e as pessoas são tratadas como meros bens de consumo, usadas e descartadas, o que ele chama de “economia da exclusão que mata (Evangelii Gaudium, n. 53). O pontífice defende um novo paradigma político e econômico que coloque a vida humana e o bem comum no centro de todas as decisões.
No acumulado do ano de 2025, o rublo russo foi a moeda que apresentou a maior valorização em relação ao dólar, com um ganho impressionante de cerca de 36,60%. Em segundo lugar, ficou o florim da Hungria, que registrou alta de 19,96%. O real brasileiro, com uma valorização de aproximadamente 16,8%, ocupou a quarta posição no ranking global de moedas que mais se fortaleceram frente à divisa americana, segundo alguns levantamentos que consideram 33 divisas principais.
Os principais fatores da valorização estão na taxa Selic elevada (próxima a 15%), que atrai investidores que buscam retornos maiores em renda fixa, aumentando a demanda por reais e fortalecendo a moeda. A desvalorização do dólar e as políticas tarifárias do governo Trump nos EUA tornaram o dólar mais barato, beneficiando moedas emergentes como o Real. O país viu um bom ingresso de dólares, impulsionado pelos juros altos e pela melhora na confiança em relação aos fundamentos econômicos.
Exportações robustas, especialmente de comodities do agronegócio e da mineração, sustentam a entrada de moeda estrangeira. O resultado primeiro do governo dentro da meta que gerou confiança para o câmbio. A valorização expressiva do real, que também veio do controle fiscal e de reformas, que o governo implementou diante do cenário político e econômico internacional.
Apesar da potencial valorização do Real em 2025, o Brasil enfrenta desafios estruturais persistentes. Fatores internos, como o elevado endividamento público, que atingiu cerca de 78,6% do PIB em 2024, evidenciam a dificuldade crônica dos governos em equilibrar as contas públicas e gerenciar os gastos com serviços públicos.
Além disso, gargalos estruturais significativos, como logística cara, burocracia excessiva, alta carga tributária e insegurança jurídica, continuam a afastar investimentos, reduzindo a produtividade e a competitividade do país em mercado global. Esse cenário de ineficiência e risco fiscal pode, em última instância, resultar na fuga de capital e na consequente desvalorização da moeda nacional.
A valorização do Real traz diversos benefícios ao povo brasileiro. Especialistas apontam que uma moeda nacional mais forte torna as importações mais baratas, o que ajuda a controlar a inflação ao reduzir os custos de produtos e insumos importados. Esse cenário impacta diretamente o poder de compra da população, principalmente em itens essenciais como combustíveis e alimentos, cujos preços estão atrelados ao mercado global.
Com um Real valorizado, torna-se mais acessível para os brasileiros com capacidade financeira viajar para o exterior e comprar produtos importados, incluindo eletrônicos e outros bens de consumo.
Além disso, a combinação de juros altos e uma moeda forte atrai capital de investimento internacional em busca de melhores retornos. Esse fluxo de dólares pode ajudar a financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento do país, gerando empregos e impulsionando a economia a longo prazo.
Apesar dos benefícios econômicos da valorização do real, a crítica do Papa Francisco sugere que a moeda nacional deve ser um instrumento para garantir as necessidades básicas da população e o desenvolvimento social, e não um fim em si mesma que rege o mercado e a tomada de decisões políticas.
Nessa perspectiva, para que a valorização do Real sirva para à estabilidade econômica sustentável e ao bem-estar coletivo, é fundamental priorizar a resolução dos problemas estruturais do Brasil, em vez de se concentrar apenas nos ganhos de mercado e nos interesses financeiros. A persistência dessa crítica ressalta a necessidade de um sistema econômico mais justo e inclusivo, uma conquista fundamental para a ética financeira e social.
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