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O destino é igual, a viagem não

Gislaine Marins

Acompanho com apreensão crescente o modo como as pessoas estão atravessando a pandemia. Já sabemos qual é o destino final, que é a conclusão do nosso próprio percurso de vida. No entanto, cada caminho se diferencia pelo modo como enfrentamos os diferentes momentos da viagem.

Adorava viajar com meu pai. A minha sensibilidade para a contemplação, para a observação atenta da paisegem que muda de curva em curva, subindo e descendo planaltos é uma experiência vivida. Ele chamava a nossa atenção para as casas esparsas ao longo da estrada, para os passarinhos, para as flores, para os campos e os animais que íamos vendo. E sublinhava a importância de cada detalhe. Isso influenciou também o modo como leio e talvez tenha sido um fator determinante para o meu interesse por biografias e narrativas de viagem. Sempre gostei mais da Odisseia do que da Ilíada.

Não havia viagem sem contratempos. Meu pai dizia que a nossa capacidade de resolver problemas também era parte da viagem, tão importante quanto alcançar o destino. Meu pai explicava por meio de lições práticas de mecânica e borracharia a teoria da narrativa. Sem saber, ensinava que ninguém se torna herói sem superar peripécias.

Meu pai se alegrava ao encontrar desconhecidos capazes de oferecer uma ajuda sem pedir nada em troca. É o que a gente aprende ao estudar a estrutura da narrativa, quando percebe que o herói precisa contar com a ajuda de alguém, um deus, um protetor, uma fada, para cumprir o seu percurso. Todo mundo já encontrou alguém assim, numa viagem ou na vida.

Nunca vi meu pai aborrecido por causa de um engarrafamento ou porque contratempos contrariavam os seus planos. Como herói confiante, ele dizia que tudo fazia parte da aventura. Sem saber, construía os seus episódios com fé. Não era uma fé visível em gestos exteriores, em rituais de conveniência para sentir-se parte de uma comunidade. Um dia, cansado, ele adormeceu no volante e acordou a tempo de evitar a curva e a morte. Sentia-se grato por ter acordado e ter recebido mais uma chance, acreditava profundamente que tinha sido salvo pelo seu anjo da guarda.

Viveu apenas poucos anos depois desse episódio, levado por aquilo que não tem solução, não tem remédio nem prevenção. Transmitiu a todos os que o conheceram a alegria de viver.

Conto isso porque já se passaram mais de trinta anos desses fatos. Nesse intervalo, o mundo mudou tanto que meu pai não seria capaz de reconhecê-lo. A violência aumentou, a nossa desconfiança em relação às pessoas é imensa. As doenças atingem cada vez mais pessoas, mas a medicina alcançou níveis nunca vistos antes para salvar vidas e para favorecer a prevenção. O conhecimento ampliou-se, assim como o acesso a informações. Porém, a desinformação também ampliou-se exponencialmente e muitas pessoas simplesmente não conseguem distinguir a informação da manipulação.

A nossa triste viagem na pandemia está mostrando todos os nossos limites: ignorância, indiferença, descrença. Por outro lado, está mostrando a nossa coragem, a nossa lucidez e a nossa capacidade de resistir para alcançar metas. O que nos diferencia é o modo como estamos realizando esta viagem. Todo o sabor da vida, afinal de contas, está no modo como fazemos as coisas: se fazemos com interesse ou não, com prudência ou não, com empatia ou não, com gentileza ou não. Chegamos ao fim da nossa viagem exatamente com aquilo que recolhemos ao longo do caminho: com gratidão ou não, com flores nas nossas pupilas, com ódio ou com amor, com a lembrança de um entardecer, com coragem ou desespero, com conhecimento ou ignorância. Nem todos podem chegar ao fim como heróis, porque as coisas não se equivalem. Agir de uma ou de outra forma não é igual. Por isso, no roteiro da vida também há heróis e vilões. Há os que lutam pela vida e os que promovem a morte. Há os que lutam pela concórdia entre os homens e os que fomentam o egoísmo mais atroz. Há os que superam peripécias e os que alimentam problemas.

O Brasil certamente não é o único país que superou cem mil vítimas ao longo da pandemia. A diferença é o modo como enfrentamos o vírus, com autoridades desdenhando os efeitos dos contágios, não apenas em termos de número de vítimas fatais, mas também de multiplação das cepas. A diferença é que entre nós as medidas de proteção foram grandemente subestimadas. A diferença é que mostramos explicitamente, como nunca antes, a nossa vã arrogância, achando que um organismo invisível a olho nu seria incapaz de nos derrubar. Não só derruba os mais velhos, os mais doentes, mas começa a atingir os sãos, os mais jovens e até as crianças. Nesse contexto trágico de indiferença, reservo a minha total solidariedade aos que se surpreendem, aos que não desistem e aos que estão determinados a chegar ao fim da viagem de forma digna e ética, sem abrir mão dos valores humanos fundamentais. Aos que não se entregam à lógica do eu primeiro e os outros que se virem. No rosto de cada pessoa, de cada história e da cada amigo que continua lutando com alto valor da vida eu vejo o sorriso do meu pai, a confiança com a qual ele viveu até o último instante da sua vida. As suas últimas palavras foram: não se preocupe filha, vai ficar tudo bem. Depois disso, apenas a saudade e a certeza de que ele percorreu o caminho certo.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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