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O Brasil explicado a Freud

Gislaine Marins

Sonhos são fenômenos estranhos. Embora relacionados à realidade, costumam formar uma narrativa enigmática, que instiga não somente psicanalistas, mas também especialistas em ficção. Nos sonhos as hierarquias se invertem, os temores são solucionados ou se aprofundam no terror, a vida se transforma em carnaval ou o carnaval da vida assume formas catalogadas, autoritárias, insuportáveis. Num tremor de pálpebras, a festa pode se transformar em uma catástrofe, sem nenhuma linha aparentemente consequencial. Ao contrário do que se requer do escritor, o sonho não exige lógica. E como nos piores pesadelos, a forma caótica do seu enredo é a que mais se parece com a realidade que vivenciamos hoje.

Recentemente estava lembrando de uma crônica de Moacyr Scliar, na qual ele explicava os conceito de id, ego e superego como um condomínio, cujos moradores tinham compartamentos muito diferentes ao longo do ano e, principalmente, durante as festas carnavalescas. Uma brincadeira didática que talvez explique o sonho que tive com o doutor Freud.

Durante um seminário à distância, pesadelo do nosso cotidiano profissional, um colega avisava que iria reproduzir um vídeo sobre a psicanálise em tempos de pandemia. Quem aparecia na cena era o próprio Freud, explicando os comportamentos aloprados das pessoas ao longo deste ano terrível. Os demais colegas ouviam a lição do pai da psicanálise com aquela atenção que temos encontrado ultimamente: enquanto respondem a um telefonema, preenchem uma planilha numa janela paralela do computador e recebem uma encomenda em casa. Por isso, aparentemente, ninguém percebia o absurdo da situação.

De repente, Freud interrompe a sua explicação e diz em bom português: Gislaine, você poderia ilustrar para os participantes como poderíamos declinar a lição em relação ao Brasil?

Eu? E quem sou eu para falar de psicanálise e conjuntura? Uma simples professora que sonha com livros, moinhos e utopias.

Mas o Doutor Freud não dava margem de negociação e exigia uma resposta imediata, fechando-se num silêncio constrangedor que convidava à confissão dos segredos mais preciosos. Não tive alternativa.

Bem, o Brasil é um país dividido. Ou melhor, trividido. Para usar termos familiares, doutor, poderia dizer que a nossa sociedade, e os partidos políticos que representam essa pluralidade social, está dividida em id, ego e superego. A maioria dos partidos, aqueles que se definem como centro, centrão, conservadores, neoliberais, ultraliberais, são o nosso ego social. É a parte que aparece mais. É individualista e hipócrita, mas volúvel aos humores da coletividade e costuma dar um passo atrás devido à pressão pública. Nunca desiste de seus propósitos egoístas, é indiferente a tudo o que lhe parece assistencialismo, tem dificuldade para entender que privilégio não é direito e que meritocracia é eufemismo de favoritismo de classe. O seu time dos sonhos é formado por onze seleções de um craque só, cada um deles buscando chegar brilhante e isoladamente ao gol e à glória. Não procura união, mas vantagem. Ego não forma sociedade, no sentido literal da palavra, mas mantêm a fachada, detendo-se diante do terror de perder as rédeas da razão e perante as demandas sociais que desmascaram a sua índole de alpinista social.

Na realidade, o ego não pode viver sem o superego. Nessa categoria encontram-se ativistas, progressistas, socialistas e outros “istas” geralmente demonizados por id. O superego da política tem particular apreço por orçamentos participativos, assembleias, inclusão de minorias, estatais e tudo aquilo que cheira a povo, pobreza, massa. O ego, com seus modos burgueses, fica horrorizado só de pensar que uma pessoa na rua possa receber um prato de comida sem ter trabalhado para isso. A ideia de solidariedade agita o seu coração e mina as suas ambições pessoais. Por isso, não perde a oportunidade para criticar o superego e a sua mania de juntar todo mundo, como se fosse natural e óbvio cada macaco ficar no seu galho. Os pobres na pobreza, os remediados na remediação e os ricos na riqueza. O ego sente-se realmente incomodado pelos questionamentos do superego, e ainda tem de lidar com id, o pior de todos.

O id não conhece regras. O seu desejo é lei. Aos inimigos prega a morte. Aos amores exige entrega incondicional. Não há meio-termo nem lógica para id: o seu universo passional resume-se a “ame-me ou deixe-me”. Se id não gosta de um ministro, demite. Não gosta de um jornalista, insulta. Não gosta de uma pergunta, vai embora. Mas id é sedutor, porque é forte. Quem se sente frágil quer estar ao seu lado, sob a sua proteção. Id protege e ameaça: comigo tudo, nada sem mim. E ego, principalmente quando ego se sente triste e sozinho, cai na sua tentação. Cai, quando teme que algum pobre vá dormir sob a marquise do seu condomínio, estragando a paisagem. Cai, quando acha que não irá poder passar as férias no seu parque de diversão favorito. Estar ao lado de id, nessas horas, dá segurança, dá prazer, permite que se sinta exclusivo no mar da nossa desgraça. Id é como Bacamarte, entendeu, doutor?

Freud acenou afirmativamente. Homem culto, disse que conhecia muito bem a obra de Machado de Assis.

Perguntei, então, se ele estava satisfeito com a minha resposta. Foi nesse momento que uma interrupção na conexão retirou o doutor Freud da sala virtual e os participantes do encontro repentinamente parecem ter percebido que havia acontecido alguma coisa. Alguém se propôs a tentar resolver o problema técnico, mas ninguém comentou a participação de Freud. Nesse ínterim, soou o meu despertador e eu acordei, para mais um dia absurdo e sem respostas plausíveis para o drama que vivemos.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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