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O Abraço Múltiplo de Deus

Vanildo Luis Zugno

Deus é amor. Uma simples frase de três palavras. Simples assim. Tudo está dito. É o coração da teologia do evangelista João. Ele a repete incessantemente: Deus é amor. E diz mais: quem ama mora em Deus. Linda e aconchegante expressão: morar em Deus. Quem não o deseja? Todos sonham em um dia entrar e permanecer na casa de Deus. Quem sabe, agora mesmo. Pois o tempo que há de vir só tem sentido se já o saboreamos antecipadamente no agora. Ninguém deseja aquilo do qual sequer sentiu um pré-gosto. Só desejamos plenamente o que conhecemos antecipadamente. O aperitivo desperta a vontade de comer mais. Amar agora, é a condição para poder viver o amor plenamente em Deus.

Mas o que é o amor? Para o cristão, o amor é Jesus Cristo. É ele quem nos mostra antecipadamente o que viveremos plenamente em Deus. “Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos”, disse Jesus. E pelos inimigos também. Ele não morreu na cruz apenas por aqueles que com Ele fizeram o caminho da Galileia até Jerusalém. Morreu por todos. Inclusive por aqueles que o mataram na cruz. A todos perdoou. A todos amou.

Amor e perdão são duas coisas que caminham sempre juntas. Como disse Jesus falando a respeito da mulher que lhe ungiu os pés com lágrimas, “os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pois ela amou muito”. E quem experimentou a alegria do perdão, é capaz de amar mais e mais. Não há amor sem perdão. E o perdão é a fonte de todo amor, porque Deus nos amou primeiro.

Amar é perdoar. Amar é dar. E, mais do que dar, amar é dar-se. É entregar-se totalmente ao outro. Quem quer o outro para si, não ama. Querer o outro para si não é amar, mas é possuir, é tomar o outro para que ele sirva aos meus interesses. Quando quero o outro para mim, não estou amando, mas dominando. E, dominar, é fazer-se senhor do outro. É fazer do outro um objeto de minhas posses. É coisificar o outro.

O amor só é possível quando há a capacidade de esvaziar-se, de anular-se a si mesmo para que o outro tome conta de mim. Foi o primeiro movimento de Deus para que o mundo passasse a existir. Deus, que é tudo, encolheu-se para que o mundo e a humanidade passassem a existir. Deus, ao criar do nada, pôs um limite ao seu todo. Agora ele tem outro a quem amar e por quem se entregar.

E essa entrega ele a realizou enviando seu Filho ao mundo na condição humana. Para tal, como diz Paulo na Carta aos Filipenses, Ele esvaziou-se da condição divina e assumiu a condição humana. E não qualquer condição humana. Deus assumiu a condição dos últimos dos humanos, a condição dos escravizados. Na identificação com os escravizados de ontem e com os escravizados de hoje, Deus mostrou o seu amor pela humanidade. Fazendo-se um de nós, mostrou-se como Filho de Deus e mostrou o caminho para Deus. É na identificação compassiva com os escravizados de hoje que encontramos o amor real de Deus.

A entrega de Deus à humanidade foi tão amorosa, tão livre, que o Filho não quis adonar-se da ação salvadora. Ele se retirou. Voltou para junto de Deus. E nesse vazio criado pelo Filho, Deus enviou seu Espírito para que a humanidade continuasse a caminhar com suas próprias pernas. O amor não domina. O amor liberta e permite que a pessoa continue, livremente, a ser ela mesma.

Quando alguém diz que ama, mas não permite que o outro seja ele mesmo, não está amando. Está dominando. Está estabelecendo uma relação de senhor e escravo, e não uma relação de amante e amado.

Na criação do Pai, na salvação do Filho e na santificação do Espírito, experimentamos, de formas variadas, os múltiplos apelos do abraço de Deus que nos ama. Um abraço que não prende. Pelo contrário, é um abraço de entrega. Deus se coloca em nossos braços e nos faz seus no seu amor acolhedor. Um abraço no qual Deus, longe de nos segurar presos a Si, nos impulsiona, nos dá força, nos impele para que sigamos nosso caminho e sejamos cada vez mais nós mesmos.

Um abraço que exige entrega. Que nos compromete a abraçar também. Um abraços que nos faz abrir os braços e deixar que os abraços dos escravizados de hoje nos tomem a nossa identidade e nos façam um com eles assim como Deus se fez e se faz um com nós. Um abraço que nos pede a coragem de retirar-nos do centro para que seja criado espaço para que o outro irrompa com sua própria identidade. Um abraço que nos transforme no que o outro é para que ele recupere a sua dignidade. Um abraço que não prenda o outro a nós, mas lhe dá força para que trilhe seus caminhos e sonhos.

Assim agindo, experimentaremos já no agora um pouco do futuro e pleno amor de Deus. Amor que se dá de formas múltiplas, variadas, nos muitos abraços de Deus e nos muitos abraços que damos e acolhemos no dia a dia.

Abraçando e amando, poderemos compreender um pouco do que significa afirmar que Deus é Trindade. Pois a Trindade de Deus não é um mistério lógico e nem ontológico. É um mistério de amor. Um mistério que só pode ser desvendado se nos permitirmos acolher os múltiplos abraços de Deus e nos permitirmos abraçar e deixarmo-nos cingir pelos braços que em nossa direção se estendem a cada dia.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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