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Francisco e nós unidos por uma preocupação comum

Miguel Debiasi

 

A terceira reflexão com base na Encíclica laudato Si, mi Signore – “Louvado sejas, Meu Senhor”, que propõe um esforço mundial em defesa e preservação da “casa comum”, destaca um exemplo de relações ecologicamente correta. Beirando oitocentos anos de sua morte, São Francisco de Assis continua como um verdadeiro baluarte da ecologia. Em contexto mundial de poucas iniciativas das autoridades governamentais e escassa prevenção ao ambiente da parte dos grandes detentores da produção industrial, minérios, agronegócio, agropecuária, é preciso recorrer a Francisco de Assis.  

O respeito a ecologia é algo exatamente necessário, mas pelo visto é ato difícil de ser empreendido pela humanidade. O próprio documento Laudato Si, alerta da dificuldade de suscitar uma reflexão inter-relacionada a vida de forma integral. Como diz o pontífice “as reflexões teológicas ou filosóficas sobre a situação da humanidade e do mundo podem soar como uma mensagem repetida e vazia”. Quando a reflexão teológica e filosófica não é apresentada e confrontada com o contexto atual das pessoas perde sua importância social. Assim é com a fé cristã, quando não traz novas motivações e exigências face ao mundo em que fazemos parte, também perde sua força e importância, pois não responde a vida de forma integral. Pela fé em Cristo, os cristãos precisam considerar e responder aos acontecimentos das pessoas e de suas atuais situações de vida. Quanto mais os contextos humanos forem desafiadores, exige-se da parte da teologia, consequentemente da fé cristã, reflexões que levem a assumirem com responsabilidade ações transformadoras, como do cuidado a “casa comum”, a mãe terra.

Os livros da Sagrada Escritura propõe compreensão da fé em Cristo numa correlação entre o ser humano e a natureza. Pela própria criação da natureza, Deus nos fala e comunica de sua bondade com o ser humano. O teólogo do livro da Sabedoria indica “pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar o seu Autor” (Sabedoria 13,5). Aquele que nos fez vivendo no meio de suas obras, nos faz conhecer e descobrir antes a força do seu Criador. São Paulo Apóstolo, em sua carta aos cristãos de Roma, escreve: “sua realidade invisível – seu eterno poder e sua divindade – tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não tem desculpa” (Romanos 1,20). Ao conhecer Deus nas obras criadas o ser humano é convidado a contemplar a beleza da criação e zelar por ela, como forma de elevação do pensamento em Deus.

Nesta compreensão, a mãe terra ou “casa comum” é algo que deve ser cuidada pela ação humana. São Francisco de Assis, em sua pobreza e austeridade louvava ao Senhor por todas as criaturas criadas, pequenas, atribuía a elas ser belas, formosas, radiantes e úteis. Por seu comportamento e sua relação de nada possuir e de tudo bendizer pela obra do Senhor, Francisco de Assis tornou-se um verdadeiro testemunho de ecologia integral a ser seguido mundialmente. Além ver em Francisco de Assis seu amor radical pela obra de Deus e de viver a sua preocupação com a natureza, manifestada pela prática da justiça aos pobres, os últimos, os abandonados da sociedade. A ação de São Francisco ultrapassa de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo econômico sobre a natureza, a mãe terra, o planeta. Francisco, ao entrar em comunicação com a natureza e com todas as criaturas, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que Deus criou em seu amor. Para o papa Francisco, esse chamado de Deus para o cuidado da natureza, dos pobres, pode ser despertado em todos os seguidores de Cristo, nos passos de São Francisco de Assis.

Para isto, o papa Francisco propõe da necessidade de aperfeiçoar a relação com o meio ambiente, a casa onde acontece a vida humana. Para um cristão pensar e falar da vida humana é meditar de sua relação com todas as criaturas do mundo. A fé precisa fazer a renúncia de sua imaterialidade para conectar-se com a vida real, a exemplo de Jesus Cristo e de São Francisco. Dessa forma, o cristão é capaz de rejeitar a ideia que a natureza, o meio ambiente, a mãe terra, seja um mero objeto de uso, de consumo e de domínio econômico. Em contexto global de imensuráveis agressões humanas a mãe terra e todas suas criaturas, é urgente assumir o desafio de proteger a “casa comum”, seja pela convicção teológica e pelas obras da fé. Logo, ao cristão cabe viver a preocupação, há da solidariedade universal com a “casa comum”. Na consciência que todos estarmos unidos por uma preocupação comum, do cuidado da criação, vive-se um pouco do carisma de São Francisco de Assis. Certamente, se isso for vivido, atualiza-se a proposta do documento Laudato Si, do papa Francisco.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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