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“Desafio de permanecer humanos”

Miguel Debiasi

 

A primeira encíclica do Papa Leão XIV intitula-se Magnifica Humanitas – A Magnifica Humanidade. O documento aborda a questão social do nosso tempo – da quarta revolução industrial: das revoluções tecnológicas, da Inteligência Artificial (IA) e propõe discernimento ético e medidas para salvaguardar a dignidade da pessoa humana.

Em 2026, a Igreja celebra o 135º ano da encíclica Rerum novarum (1891) do Papa Leão XIII, documento fundamental da Doutrina Social da Igreja. Ela defende meios para o desenvolvimento humano: a dignidade do trabalhador, salário justo, direito à propriedade privada, papel do Estado e organização de sindicatos e associações.

A vida e a saúde do operário devem ser respeitadas, e a pessoa humana está acima da lógica do lucro. O salário justo deve ser uma remuneração digna, o suficiente para o sustento do trabalhador e de sua família, permitindo-lhes viver com decência. O direito à propriedade privada impõe a ela uma função social, segundo a qual os recursos devem servir ao bem comum. O papel do Estado é atuar como mediador e protetor dos cidadãos, intervindo na economia para garantir os direitos dos mais vulneráveis e o bem-estar social. A Rerum Novarum, incentiva a criação de sindicatos e associações de classe para defender os direitos. Com isso, influenciou a criação de direitos trabalhistas modernos, bem como a formação de leis brasileiras como a Consolidação das leis do trabalho (CLT).

A Magnifica Humanitas acrescenta uma nova contribuição à Doutrina Social da Igreja, que é dirigida a toda a humanidade. É estruturada em cinco eixos que parte do pressuposto de que: a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à pessoa”, nem “um mal em si mesma”. Porém, ela “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. O apelo fundamental da encíclica é “construir bem” e “permanecer humanos”, com corresponsabilidade e comunhão.

Convida a sociedade a garantir que o avanço tecnológico sirva à humanidade, e não aos interesses e ao poder de poucos. A inteligência artificial não é vista como uma ameaça em si, mas como um meio pelo qual o homem participa do ato Criador. Alerta para a influência de antropologias que focam no lucro e no controle excessivo. Em contraponto, propõe a “cultura do cuidado”, que deve ser o alicerce dos relacionamentos e das políticas globais. Condena a “cultura do poder” e a lógica do “direito do mais forte”, chamando à construção de uma civilização do amor que defenda os mais vulneráveis.

Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho (1º capitulo) o Papa Leão – vê a Igreja inserida na história da humanidade; valoriza a sabedoria da Palavra de Deus e a Igreja em diálogo com as ciências humanas; aborda princípios da Doutrina Social da Igreja como um discernimento comunitário, que inclui a dignidade da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, e a inviolabilidade dos direitos humanos, como o direito à vida “desde a concepção até o seu final natural”.

Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja (2º capitulo) – o pontífice aponta cinco princípios: o bem comum, fundamental para valorizar a dignidade da pessoa, dos povos e das nações; em contrapartida, subjugar uma nação é fato imoral e inaceitável; à destinação universal dos bens: a tecnologia não pode estar nas mãos de poucos; a subsidiariedade, que demanda superação do paternalismo e do assistencialismo em favor da corresponsabilidade e a solidariedade; o acesso a era digital deve ser para todos de forma equitativa, e proteger os mais vulneráveis.  

A grandeza da pessoa perante as promessas da inteligência artificial (3º capitulo), aborda a necessidade de haver marcos jurídicos e critérios éticos e de justiça social para o uso da inteligência artificial e de seus impactos ambientais significativos, que exige uma quantidade de energia e de bens naturais, como água que afetam a Criação. “Desarmar a inteligência artificial”, ou retirá-la do domínio da competição militar, econômica e cognitiva e impedir que domine o humano. Critica o transumanismo e pós-humanismo, que interpretam o progresso como a superação dos limites do humano, negando aquilo que é fundamental no humano – sua capacidade de relação e de amor. Há dois meios de construir o progresso: um a serviço da pessoa e dos povos e outro, das lógicas do poder.

Salvaguardar o humano na transformação: verdade, trabalho e liberdade (4º capitulo) defende uma “ecologia da comunicação” com base na verdade. Os critérios de seleção de um jornalismo sério devem fundar-se no "correto e crítico”. Defende uma ampla aliança educativa, em que se aposte na escola como espaço de aprender, de buscar e amar a verdade. A dignidade do trabalho é de fundamental importância para proteger a pessoa, para renovação das organizações sindicais e do bem-comum social. A finança pela finança é um fato, diferente da finança para o desenvolvimento humano. A liberdade humana não pode ser capturada pelas plataformas digitais, que explora os usuários e suas fragilidades. A liberdade orienta comportamentos para superar o risco do controle social decorrente da coleta massiva de dados e do uso de sistemas de algoritmos.

A cultura do poder e da civilização do amor (5º capítulo), o pontífice denuncia o cenário de guerra baseado na cultura do poder, que normaliza a guerra e fortalece o rearmamento. Convoca a superar a “teoria da guerra justa”, promovendo o diálogo, a diplomacia e o perdão. Nenhum algoritmo torna a guerra moralmente aceitável. São necessárias restrições éticas rigorosas e compartilhadas internacionalmente, baseadas na responsabilidade pessoal e na proteção dos civis, pois “toda tecnologia que facilita atacar sem ver o rosto do outro abaixa o limiar moral do conflito. A cultura do poder é produto da crise do multilateralismo e do surgimento de um “multipolarismo desordenado e conflituoso. Deseja que a ONU faça reformas profundas para superar a atual crise de valores em favor do bem comum.

No final do capitulo, o pontífice faz um apelo ao cristão e a humanidade, todos chamados a construir “a civilização do amor” e para isso aponta cinco “caminhos de responsabilidade”: desarmar as palavras dizendo a verdade; construir a paz na justiça; assumir o olhar das vítimas, tomando posição, pois há conflitos em que o “não é justo permanecer neutro”; cultivar “um saudável realismo” que busque caminhos de paz viáveis com os fatos,  e não apenas com palavras.

A Magnifica Humanitas transcende as fronteiras religiosas e sociais, convocando a humanidade a orientar o progresso tecnológico e a inteligência artificial à luz do Evangelho. Mais do que um conjunto de reflexões, ela propõe um itinerário de vida cristã sóbrio, exigente e profundamente transformador. Ao unir fé, ética e responsabilidade, o documento consolida-se como um marco histórico no Magistério e na Doutrina Social da Igreja, oferecendo um farol luminoso para que a civilização contemporânea preserve a sua mais bela essência: a magnífica humanidade, habitada e amada por Deus.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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