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De onde menos se espera…

Vanildo Luis Zugno

Aproximam-se as festas de Natal e Ano Novo e, com elas, a tradicional sensação de que “o ano passou muito rápido”. E de que, a cada ano, o tempo passa mais rápido… Minha primeira reação é dizer que a sensação não é verdadeira. Afinal, todos sabemos que todos os anos, salvo os bissextos, têm 365 dias, os meses, salvo fevereiro, têm trinta ou trinta e um dias, as semanas têm sete dias, os dias têm vinte e quatro horas, as horas têm sessenta minutos, e os minutos sessenta segundos… Matematicamente, a duração dos anos e de suas porções é sempre a mesma. É verdade. Mas não é toda a verdade.

Acontece que, no tempo, há um fator fundamental. No tempo, há o fator humano. Não é o tempo cósmico o que muda. A mudança, e ela é muito real, se dá nas pessoas que vivemos no tempo. O problema não é o tempo. O problema é a sensação humana do tempo. Nós humanos sentimos a rapidez do tempo a partir daquilo que acontecem ao nosso redor. Quanto menores as mudanças, mais lento o tempo. Quanto mais rápidas as mudanças, mais rápido o tempo.

E as últimas décadas da humanidade foram marcadas por extremas mudanças. Em todos os âmbitos da existência. Economia, política, cultura, religião, ecologia, esportes, ciência, tecnologia… Mudanças rápidas, bruscas, improváveis, imprevisíveis. Algumas nos surpreendem por jogar-nos para frente, para um tempo que pensávamos ainda distante. Outras mudanças nos dão a sensação de voltar a viver num passado que pensávamos superado para sempre. Dois breves exemplos. Quem, há vinte anos, poderia imaginar que a China seria hoje a locomotiva econômica do mundo? Quem, há vinte anos, poderia imaginar que o fascismo voltaria a ser uma força política viável na sociedade pós moderna?

Nesse tempo de mudanças radicas, nasce uma pergunta: de onde vem as mudanças? Afinal, muitas vemos temos a sensação de sermos ultrapassados em nossa capacidade, pessoal e coletiva, de produzir ou administrar as mudanças que ocorrem ao nosso redor. Gostaríamos que fosse desse ou daquele jeito. Mas, na real, as coisas não acontecem como planejamos ou nos atropelam e levam de roldão por caminhos que não podemos imaginar.

A maioria das mudanças, é certo, tem suas causas na ação humana. Éum desafio para nós compreender como agem os humanos e também a forma como podemos intervir para que as mudanças tomem os rumos e ritmos que desejamos. Outras, no entanto, estão para além das nossas capacidades. Para os que baseiam sua vida numa perspectiva de fé cristã, cremos que há mudanças que vêm de Deus. Cremos que, para além das capacidades e limites humanos, está a Graça de Deus, está a Sua Divina Providência.

Não fosse assim, como acreditar que o Messias poderia nascer na casa do carpinteiro José de Nazaré e do ventre da camponesa Maria? Impossível. Fora do cálculo humano. Maria ficou assustada e duvidou. José pensou em fugir. Tanto ele como ela precisaram da intervenção do Anjo para acreditar que Aquele que viria mudar a história da humanidade sairia, não do Templo de Jerusalém nem dos palácios dos governantes, mas que nasceria na periferia de Belém, num abrigo de animais, entre pastores e gente do povo. Mas foi isso que aconteceu e que celebramos no Natal. É Deus agindo no tempo e surpreendendo a humanidade com sua temporalidade benfazeja que nos atropela e assegura que o tempo de Deus não é o tempo dos homens.

Que as festas do Natal nos ajudem a compreender os mistérios do tempo de Deus e seu agir que nos surpreende a cada dia.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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