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Da escravidão à liberdade em Cristo

Miguel Debiasi

A participação plena na festa mais significativa da fé exige uma preparação que antecede a celebração. Somente se celebra dignamente a festa da Páscoa do Senhor quando se assume, conscientemente, a experiência da passagem da escravidão do pecado para a liberdade em Cristo. Essa jornada de conversão, que nos aproxima de Jesus Cristo e nos identifica como seu discípulo, é o caminho indispensável para vivenciar a verdadeira libertação que a Ressurreição nos oferece.

A preparação quaresmal está intrinsecamente ligada à celebração da Páscoa, servindo como um período de conversão e renovação espiritual que culmina na alegria da Ressurreição de Jesus Cristo. A conexão entre o tempo preparatório, a Quaresma, e a festa celebrada, a Páscoa, é multifacetada.

No sentido teológico, a Quaresma reflete os 40 dias de Jesus no deserto (Mateus 4,1-11; Marcos 1,12-13; Lucas 4,1-13), um tempo de intensa provação e preparação para Sua missão pública. A cada Quaresma é um “novo êxodo”, a passagem do pecado para a graça, do egoísmo para o amor, um período para reviver o mistério da morte e ressurreição de Cristo em suas próprias vidas. Ela, simboliza a conversão, a mudança de mente e de ações necessárias para entrar na Terra Prometida, a vida eterna (Números 14,29-33; Deuteronômio 29,5).

Espiritualmente, a Quaresma é um tempo de aprofundamento, focado na oração mais intensa, no jejum e na caridade ou esmola. Essa tríade de práticas espirituais oferece aos fiéis o caminho para se desapegarem do pecado e das distrações mundanas. A oração, em particular, catalisa uma mudança interior, um retorno sincero a Deus, criando um espaço sagrado na alma para acolher a graça transformadora da Páscoa de maneira mais profunda.

Liturgicamente, o período quaresmal, com sua liturgia sóbria, caracterizada pelo uso do roxo e a omissão do Glória e do Aleluia, guia a comunidade em um caminho penitencial e batismal. Ele culmina no Tríduo Pascal, Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado Santo, que não deve ser visto como uma preparação, mas como a própria celebração do mistério pascal.

Através dos pilares da oração, do jejum e da esmola, ou do exercício quaresmal, os fiéis buscam uma transformação interior pessoal e profunda. A oração intensificada aproxima de Deus; o jejum cultiva o domínio próprio e no desapego mundano; e a esmola expressa concretamente o amor ao próximo e a caridade cristã, especialmente para com os necessitados. Essas práticas preparam a alma para a renovação das promessas batismais e para acolher a vida nova que Páscoa oferece.   

A Quaresma é o caminho essencial de conversão, a jornada que percorremos em união com Cristo, em direção à Cruz, para, então, celebrarmos com Ele o triunfo pascal. As práticas e os sacrifícios quaresmais, como a oração, o jejum e a esmola, auxiliam os fiéis a morrer para o egoísmo e para o homem velho, permitindo que ressuscitem transformados em Cristo para uma vida nova, para o homem novo (Efésios 4,22-24; Colossenses 3,9-10; João 3,4-7).

A Páscoa ou Pessach em hebraico, que significa passagem, tem dois significados centrais: no Antigo Testamento, celebra a libertação física do povo de Israel da escravidão do Egito, liderado por Moisés, rumo à Terra Prometida, um ato de libertação de Deus (Êxodo 12); e no Novo Testamento, ganha um significado mais profundo na fé cristã, comemorando a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, simbolizando a vitória sobre o pecado e a morte, a salvação e a esperança de vida eterna, a passagem da morte para a vida.

A Páscoa cristã marca a transição monumental para uma nova e eterna aliança com Deus, selada pelo sacrifício de Jesus. Mais do que um mero simbolismo, ela representa o perdão total e a renovação radical da vida. A celebração da Páscoa do Senhor infunde esperança viva, reavivando a memória dos poderosos atos salvíficos de Deus que ecoam por toda a história.

O efeito espiritual da Quaresma e da celebração da Páscoa é a transição para a liberdade. Assim como ocorreu a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, a Páscoa cristã celebra qualquer ato de emancipação do pecado e de suas manifestações opressoras, seja a opressão política, a exploração econômica, a discriminação étnica, a desigualdade social, o racismo e qualquer outra forma de poder dominador. Somente ao nos engajarmos nessa caminhada de libertação, os cristãos celebram verdadeiramente a Páscoa do Senhor.

O Domingo da Páscoa simboliza um novo começo: a vitória da vida sobre a morte e da esperança sobre o desespero. É o momento em que toda situação de morte é verdadeiramente transformada. A vida nova é uma realidade tangível para aqueles que acolhem o convite de Jesus, seguindo o caminho que Ele mesmo percorreu e no qual saiu vitorioso sobre a cruz e a morte.

A Páscoa de 2026, mais do que um momento dentro do ciclo litúrgico, convoca os cristãos a refletirem profundamente sobre as escravidões contemporâneas, sejam elas pessoais ou estruturais. Fortalecidos espiritualmente e teologicamente, a celebração impele a um compromisso ativo e transformador: o de se tornarem pessoas melhores e, consequentemente, contribuírem para uma sociedade mais justa e fraterna.

Este engajamento transformador é o verdadeiro sinal de que o Reino de Deus, a tão almejada realidade de liberdade e vida plena, manifesta-se e atua em todos os ambientes e contextos humanos e sociais. A Páscoa, assim, transcende o rito e se torna a passagem da opressão para a libertação integral, impulsionando os fiéis a serem agentes da ressurreição na transformação das realidades sociais.

 

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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