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Da crítica ao ódio, ida e volta

Gislaine Marins

Quando começaram a organizar na Itália os primeiros comícios que insultavam a política e que seriam o  elemento fundador do Movimento 5 Estrelas, um amigo me convidou para participar e eu respondi: desculpe, mas não acredito na política do palavrão. Não era uma certeza, mas a forte intuição de que palavras ofensivas destruíam o essencial da política: a crítica e o diálogo.
Passados dez anos, os partidos do ódio triunfaram em várias partes do mundo. As expectativas foram capitalizadas pela raiva, a frustração foi instrumentalizada eleitoralmente. Mais do que isso, o ódio asfixiou a crítica, desferiu um golpe certeiro na capacidade de diálogo e abalou a nossa humanidade.
A nossa relação com os outros é sempre mediada pela comunicação, caracterizada por duas dimensões, uma racional e outra emocional. Essas esferas se sobrepõem e estão em constante contato: a arte de dialogar é também a arte de dosar a nossa racionalidade e a nossa emotividade. Não somos robôs, guiados apenas pela lógica fria das ações programadas, e não somos animais irracionais, à mercê das nossas reações instintivas. Precisamos de uma e de outra coisa: da crítica ponderada, que leva à compreensão e ao diálogo construtivo, e da emoção que permite entender a realidade com sensibilidade. Deixar-se levar pelo ódio nos condena à irracionalidade, ao medo, ao terror, à repulsa; anula a crítica, a política, o debate, o diálogo, o humano.
Quando me recusei a participar do comício do insulto, não imaginava que hoje estaria aqui a escrever sobre a capacidade dialética que perdemos. De fato, alguns pensavam que a minha rejeição fosse uma reação moralista, pudica. Não é nada disso: o palavrão tem função na nossa existência, mas não é aquela de impulsionar a política.
O palavrão serve para evitar a agressão física. Um insulto costuma ser um soco metafórico. Às vezes vai além da metáfora usada para evitar o conflito aberto e para criar barreiras de defesa. O palavrão pode ser uma injúria que destrói a dignidade do outro, quando deliberadamente apela para a esfera instintiva, para o âmbito violento do nosso ser, abdicando da discussão argumentativa.
Uma forma para saber se o palavrão está sendo mal empregado é perguntar-se: uso insultos para me defender de uma facada ou para evitar um comentário que não me agrada? Se insulto para evitar um debate, estou embarcando na política do ódio.
Muita gente já percebeu isso, controla o impulso irado, mas cai em outro equívoco: o de reprimir a crítica para evitar qualquer confronto. É outra forma de enfraquecer a nossa já abalada humanidade. É necessário retomar sem medo o debate, a crítica, os instrumentos que acionam os mecanismos da transformação, não da simples degradação.
Berrar não resolve, calar não resolve, silenciar não adianta. A crítica já fez sua viagem de ida ao abismo do ódio nos últimos anos. Está na hora de fazer o caminho de volta para a crítica sadia, que estimule a nossa transformação, não a nossa destruição.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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