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Cinco lições III - Queria ter falado o que sentia!

Miguel Debiasi

Há muitas formas de calar as pessoas. Existem políticas e ideologias para silenciar uma sociedade. Para ambos, pessoas e sociedade, basta apenas tirar-lhes a liberdade e impor situações de opressão, alienação, exclusão. Sem fala, não há cultura. A palavra é cultura. Isto é, vida. Silenciar alguém ou o povo é impor-lhes graves perturbações que representam infelicidades. Em uma sociedade massificada, ter coragem para dizer é preciso. Na história da civilização, é possível descrever muitos movimentos em prol da libertação, a maioria surgidos com o objetivo de opor-se e combater a opressão. São movimentos de caráter político, ecológico, social, religioso, etc. Nenhum ser humano se realiza na opressão.

Ainda que inserida no contexto regionalista nordestino, a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicada em 1938, retrata a silenciosa realidade no Brasil. O livro procura descrever o sofrimento, a angústia e a falta de perspectiva de um povo ao focalizar uma família sertaneja de retirantes que, além de padecer a miséria da seca, martiriza-se por outra, a condição social imposta pelos grandes proprietários de terra. A família é composta pelo pai, Fabiano, que quase não fala, não sabe ler nem escrever. A esposa, Sinhá Vitória, mal sabe contar. Em extrema miséria, tem esperança de adquirir uma cama de couro. Dos filhos, o primogênito quer saber ler e entender o significado da palavra inferno. O caçula quer ser vaqueiro, profissão do pai. Ao círculo familiar pertence a cadela Baleia, mais humana que os filhos, pois pensa e age como gente, e sua morte vira drama. É também parte da família um papagaio que não fala e só late porque é o único som que escuta. Os retirantes de Vidas Secas retratam as famílias que vagam pela caatinga seca em busca da felicidade sem que ninguém escute sua voz, a exploração lhes impôs o silêncio.

Em continuidade ao tema da série Cinco Lições que vem sendo publicada nesta coluna, sobre a lista dos arrependimentos dos pacientes terminais da enfermeira Bronnie Ware, o terceiro arrependimento comum é: “Queria ter tido coragem de falar o que realmente sentia”. O lamento é por não ter tido a coragem de poder dizer que não gostavam de uma situação, de pessoas, ou até de manifestarem o que sentiam por elas. É sabido que a pessoa se humaniza ao ter condições de expressar-se com liberdade. Ao impossibilitar-lhe a linguagem, há a ocultação do sujeito. No silêncio social, valores e intenções sofrem um desvio, o que não colabora com a felicidade. Na ausência da fala, é possível manipular sentimentos e vidas, é tolhida a felicidade. 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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