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Adeus, escrúpulos!

Gislaine Marins


Cada vez que leio alguma coisa muito absurda, vem-me automaticamente à mente a frase da personagem machadiana que trai o melhor amigo. Sim, estou falando do amante no célebre conto "A Cartomante". Diante da última dúvida sobre a relação com Rita, ele pensa: "Adeus, escrúpulos!" E entrega-se completamente ao jogo fatal da paixão, ignorando todas as suas consequências.
Esta semana alguém defendeu nas redes sociais a venda de órgãos, criando um mercado livre dos transplantes. Argumentou sobre as vantagens econômicas para quem, sendo pobre, poderia ganhar um extra vendendo um rim e voltando ao batente no dia seguinte, como se um rim a mais ou a menos não tivesse impacto sobre a saúde e a capacidade laboral. Criou-se um caso virtual, que arrastou milhares de internautas. Anos de ética, bioética, filosofia, direitos humanos para acabar em uma simplória opinião. É a vitória do sistema "adeus, escrúpulos!"
Outro exemplo: as pessoas continuam firmes defendendo a Amazônia, horrorizam-se com incêndios, com assassinatos no campo. Todo mundo tem bom coração. Mas quando chega na hora de mudar os hábitos, selecionar a carne que compra, criticar as políticas adotadas para a região do agribusiness, a maioria mostra-se indiferente. Delega todas as responsabilidades a quem governa, como se o voto que elegeu os governantes não fosse seu: "adeus, escrúpulos!"
Diante da precarização do trabalho, a informalidade voltou a crescer e a exploração a aumentar. Soube que nas últimas festas do ano, muitos garçons foram contratados pela metade do preço. É aceitar ou deixar o lugar para alguém mais desesperado. Isso também está acontecendo em muitas empresas, que estão demitindo os funcionários para recontratá-los pela metade do salário. A vida é assim: na teoria a gente quer ser parte ativa na geração de renda e emprego, quer que as pessoas tenham uma retribuição justa, mas na prática o que aplicamos é: "adeus, escrúpulos!"
Percebo que a frase é hipnótica e reforça essa ideia de que o que não interessa a mim, a mim e a mim está destinado a ser colocado no fim da lista de qualquer prioridade, boa intenção e critério racional. O que vale é: "adeus, escrúpulos!" O mais trágico é que a indiferença não funciona apenas para quem lê e não interpreta o que lê ou não se importa em ignorar a realidade, apesar da cultura de lustre. O mais triste é que a maioria nem lê e adota a indiferença como estilo de vida. Se as pessoas lessem mais e entendessem o que leem, a educação não seria um slogan vazio, seria uma prática com consequências positivas visíveis. A falência da nossa sociedade, o opinianismo doentio que todo mundo pratica, sem sentir necessidade de dar qualquer fundamento às bobagens que afirma não é sinal da derrota dos que trabalham pela educação. É a vitória dos que querem diploma para enfeitar a sala de estar. É o sucesso dos que desejam o fim de qualquer forma de educação para que o opinianismo vigore triunfante e inconsistente.
Escrúpulos para quê? A gente não pode dar um jeitinho? Não pode deixar para lá? Não pode fingir que sabe o que desconhece? Não pode ir levando? Não pode esperar que dê certo? É muito mais fácil, não requer estudo, esforço ou responsabilidade.
"Adeus, escrúpidos!" é o reino da irresponsabilidade. Mas convém lembrar: a irresponsabilidade tem um preço. Não importa se as pessoas percebem ou admitem isso: o preço é aplicado por tabela e, geralmente, o cobrador também não tem nenhum escrúpulo. É uma pena: um país com escritores de tamanha qualidade mereceria leitores mais qualificados, à altura das linhas magistrais que os mestres nos deixaram e capazes de enfrentar a realidade, aproveitando as lições que a literatura apenas imaginou.  

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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