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A subjetividade da resistência

Miguel Debiasi

O tema do império e do imperialismo tornou-se o debate da atualidade, diz o biblista argentino Néstor Míguez. Pois constata-se um cenário mundial conformado ao poder econômico e político liberal em nível global. As discussões do sentido da existência humana, embora seja uma questão debatida desde os povos da antiguidade, hoje demanda novas reflexões em face de dominação do mercado capitalista. Em face deste contexto mundial de exploração, é preciso reivindicar o valor da vida humana e do ecossistema planetário, contrapondo a supremacia da economia liberal.

A discussão que volta, então, especialmente no início deste terceiro milênio, é em torno das teorias pós-coloniais. Isto é, questiona-se se o colonialismo teve fim, ou por algum momento enfraqueceu, dada a ênfase do espírito do império que se vislumbra em nível mundial. Ademais, constata-se que o sistema capitalista dominante se reinventa constantemente nas formas de impor seus mecanismos políticos, econômicos e culturais. O fato é que o império, por meio da economia globalizada, conforma governos nacionais e poderes. Além de controle da economia, do mercado, da política, gera um espírito coletivo de resignação e de construção antropológica com valores e cosmovisões hegemônicas. A hegemonia econômica e política viabilizam um modo de conceber a vida eliminando os diferentes, descartam que surja uma concepção de vida contra-imperial.

Esta perspectiva leva a perguntar se é possível uma oposição ao sistema do império de controle hegemônico norte-americano. O Império Romano, com suas forças expansivas na história do Ocidente e do Oriente, conquistou poder político sobre o mundo habitado em vista de um único projeto. Alexandre Magno, o Grande, preparou todas as condições políticas e militares para surgir o Império Romano. De fato, é com a vitória de Otaviano, depois declarado Augusto (31 a. C.) que começa o Império Romano. É a partir deste momento histórico que Roma concentra poder como ambiente vencedor e faz das nações suas províncias. Assim, obtendo domínio dos governos provincianos por meio de tributos e de plebiscitos, constrói-se uma proposta de governo mundial, sustentada pela ideia da Pax Romana.

O exercício da Pax Romana estendia-se numa política institucional que configurava segurança, controle, domínio da totalidade do povo. Dessa forma, Roma por meio de uma proposta da Pax Romana expandia seu poder político, econômico, militar, social, cultural, e unificava todo o orbe em sua hegemonia. Pode-se dizer que neste período ocorreu um culto universal ao domínio do Império Romano. Como define o relatório do 24º Concilio Geral da Associação Mundial de Igrejas Reformadas, em Accra, Ghana, em 2004: “Império é a convergência de poderes econômicos, políticos, culturais, militares e religiosos, em um sistema de dominação que impõe o fluxo de benefícios do vulnerável ao poderoso”.

Em consequência deste poderio totalitário, a Associação Mundial das Igrejas Reformadas constata que “o império cruza todas as fronteiras, distorce identidades, subverte culturas, subordina Estados-nações e marginaliza ou coopta comunidades religiosas”. De certa maneira, o império surge das debilidades dos mecanismos políticos e fortalece-se do desequilíbrio de um Estado-nação-, resultando numa política de expansão hegemônica. A pretensão da política norte-americana é esta, obter um total domínio global. Porém, a história mostra que toda a política globalizante oferece uma dissensão, uma ação contra-imperial.

A incapacidade de uma unificação num poder mundial é a esperança dos empobrecidos, das nações subdesenvolvidas, dos povos dominados. Para resistir ou contrapor esta pretensão política norte-americana ou de outra potência mundial é preciso criar uma subjetividade de resistência coletiva. Ou seja, a subjetividade de resistência coletiva do terceiro, quarto mundo. A subjetividade dos países periféricos irrompe mediante a consciência da submissão nacional a uma potência estrangeira que explora, suga as riquezas nacionais. Logo, a subjetividade de resistência coletiva que nasce de países explorados visa autonomia e capacidade de contrapor-se ao império econômico e político globalizado.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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