A morte dos fatos: o retrocesso da razão
O ser humano é, por essência, um contador de histórias. Dos gestos primitivos às pinturas rupestres, sempre buscamos formas de registrar nossa existência e transcender a realidade imediata. Em nosso tempo, essa linguagem foi sequestrada pelas narrativas de pós-verdade. Usa-se a linguagem para a desinformação, e livrar-se desse mal não é algo imediato e tão simples; será preciso ter paixão pela verdade.
A trajetória ancestral de contar histórias divide-se em marcos fascinantes. A arte rupestre, com cenas datadas com mais de 50 mil anos, servia como mapa, ritual e registro visual antes mesmo da invenção da escrita. Em seguida, a tradição oral – por meio de mitologias, lendas e ensinamentos pela fala, dança e canto – fortaleceu os laços comunitários. Com o surgimento da escrita, por volta de 4000 mil a.C., as narrativas ganharam formato permanente, evoluindo dos papiros aos livros e, posteriormente ao teatro, ao cinema e às mídias digitais.
Hoje, existe uma ciência que se dedica exclusivamente a estudar a estrutura, a forma e a função das narrativas: a narratologia, uma vertente da semiótica e da teoria literária. Outras ciências humanas, como a psicologia, a história e a antropologia, também se apoiam na pesquisa narrativa para decifrar a experiência humana.
Do ponto de vista do funcionamento e do impacto das mensagens no cérebro, a neurociência é a que melhor explica a força do storytelling, ou do contar histórias. Estudos mostram que ouvir histórias sincroniza a atividade cerebral entre o emissor e o receptor. Esse processo libera neurotransmissores poderosos, como a ocitocina – responsável pela empatia e conexão emocional; e a dopamina – responsável pela curiosidade, motivação, foco e memorização. Essa base neurobiológica justifica por que informações transmitidas por narrativas são lembradas até 20 vezes mais do que dados expostos de forma puramente fria e expositiva.
Se, por milênios, a arte de narrar serviu como um pilar para a evolução e a coesão social, hoje essa mesma força encontra-se subvertida. A tecnologia e a velocidade da informação digital permitiram que essa linguagem fosse sequestrada pelas narrativas de pós-verdade. Em vez de registrar a realidade e transcender a experiência humana, o storytelling moderno passou a ser utilizado para a desinformação, consequentemente, manipulando vontades e alienando a sociedade.
O termo pós-verdade foi cunhado em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, em um ensaio para a revista americana The Nation. Ao refletir sobre escândalos políticos como o caso Watergate e a Guerra do Golfo, Tesich argumentava que, diante de realidades muito duras, a sociedade passou a “desejar livremente” viver em um mundo de ilusões, onde fatos inconvenientes são substituídos por narrativas mais agradáveis.
Embora tenha surgido nos anos 90, o conceito ganhou força global a partir de 2016, impulsionado pelo Dicionário Oxford, que o elegeu como a palavra do ano. Esse pico de uso ocorreu devido a eventos políticos polarizadores, como o referendo do Brexit no Reino Unido e as eleições presidenciais nos Estados Unidos. O referendo do Brexit decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia através campanhas políticas que usaram forte apelo emocional e dados imprecisos para convencer os eleitores, ilustrando o conceito de pós-verdade. A eleição presidencial americana de 2016, que teve Donald Trump como vencedor, foi marcada por narrativas intensas, desconfiança na imprensa tradicional e forte disseminação de desinformação nas redes sociais.
A pós-verdade não deve ser confundida com a mentira. Enquanto a mentira é a falsificação deliberada da verdade para enganar terceiros, na pós-verdade, o indivíduo adere à informação porque ela conforta suas próprias convicções, o que o leva a ignorar ativamente quaisquer provas em contrário.
Esse fenômeno é impulsionado por informações de forte apelo emocional – como medo, raiva ou sentimento de pertencimento a um grupo – que se espalham mais rápido do que dados comprovados. No ambiente digital, essa lógica é potencializada pela criação de “bolhas” e câmeras de eco, onde os indivíduos são expostos continuamente apenas a visões de mundo que corroboram suas próprias crenças, tornando a aceitação de uma narrativa dependente da validação social e não da sua veracidade.
Nesse ecossistema, as fake news prosperam porque confirmam visões de mundo preexistentes, alimentando uma profunda crise de confiança nas instituições e na própria ideia de verdade. Potencializado por algoritmos que priorizam a indignação, esse cenário transcende a internet, desafiando a estabilidade democrática, a coesão social e a própria capacidade da sociedade de resolver problemas reais a partir de fatos objetivos.
O império da pós-verdade não afeta apenas o debate político, mas também ameaça áreas vitais como a saúde pública e o conhecimento. O descrédito em instituições, órgãos oficiais e a proliferação de teorias conspiratórias geram desinformação em massa e comprometem o futuro da sociedade.
Para a superação da crise da informação, o poder público e as esferas políticas desempenham um papel central, que vai além da regulação e da punição judicial. Cabe à ciência política formular políticas públicas estruturantes, como a inserção transversal do letramento midiático na educação básica, e estabelecer marcos legais que exijam transparência dos algoritmos e maior responsabilidade das plataformas digitais na mitigação da viralização de conteúdos sabidamente fraudulentos.
Paralelamente, o combate à pós-verdade demanda postura ativa e consciente do cidadão. Na prática, isso significa desenvolver o pensamento crítico e o hábito de questionar a fonte de uma mensagem antes de assimilar seu conteúdo. O indivíduo deve aprender a identificar gatilhos emocionais, evitando o compartilhamento de materiais com forte teor sensacionalista ou de pânico. Adotar a regra de “na dúvida, não compartilhe” transforma o usuário em um agente ativo na quebra da cadeia da desinformação.
A superação dessa crise requer uma mudança estrutural e coletiva. A consolidação da democracia e da coesão social no século XXI depende do esforço conjunto entre Estado, empresas de tecnologia e a sociedade, garantindo que o debate público volte a ser fundamentado em fatos, evidências e na aceitação do contraditório para a elevação da consciência e da ética.
Infelizmente, no campo político, a proliferação de notícias falsas por agentes durante os pleitos eleitorais representa uma das maiores ameaças à integridade institucional. A sociedade, diante dessa instrumentalização da mentira, tem no voto o seu instrumento de freio e contrapeso mais legítimo, banindo do campo político aqueles que, sem uma biografia de lutas pelo bem-comum, operam à margem da ética.
A verdadeira política é indissociável da verdade. É urgente o resgate de mandatos comprometidos com a integridade, onde lideranças sejam capazes de construir narrativas históricas coerentes, fundamentadas na ação transparente e no respeito à confiança nas instituições públicas e à confiança depositada pelo eleitorado. Tudo isso para que os fatos e a razão sejam formadores de elevada consciência, de modo que a verdade prevaleça sobre as divergências de ideias e posturas políticas.
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