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A economia do dom

Vanildo Luis Zugno

Natal e Ano Novo é época de dar e de receber presentes. Quase todo mundo faz isso. Há, no entanto, um pequeno equívoco nisso tudo. A data certa para dar presentes não seria essa. Presentes deveriam ser dados na festa da Epifania. Ou seja, no dia em que celebramos a ida dos reis magos até o lugar onde Jesus nasceu para presenteá-lo com ouro, incenso e mira. O dia do presente é o dia 6 de janeiro.

Mas, enfim, como é difícil mudar costumes, continuaremos dando presentes no dia do Natal e, por extensão, no Ano Novo. Mas, o que significa dar um presente? A resposta é simples: dar um presente é dizer que gostamos de alguém. E que gostamos dele assim como ele é. E, sobretudo, que não queremos nada em troca. Se damos um presente esperando que essa pessoa retribua com outro presente, não estamos presenteando, mas negociando.

E o triste nessa época do ano é que o ato de dar um presente, que deveria ser um gesto que nasce do fundo do coração, tornou-se um grande negócio. A propaganda quer-nos convencer, a todo o custo, a dar mais e mais presentes. Porque, para o comércio, o gesto de amor de presentear, foi convertido no gesto ganancioso de lucrar.

Se olharmos com profundidade, neste tempo de presentes, estão em disputa duas lógicas econômicas. Por um lado, a economia capitalista que pensa todas as relações como uma troca em que sempre temos que ter lucro. Nessa lógica, o presente não é gratuito, mas é um investimento. A pessoa dá um presente não porque ama, mas para fazer-se amado. E, quanto mais caro o presente dado, maior é o amor com que espera ser amado. O amor virou negócio. É comprado e é vendido em intermináveis prestações que pesam no orçamento de cada mês durante o ano todo.

Do outro lado, está a economia do dom. É a economia do Deus que se faz humano sem esperar nada em troca. É dom gratuito, desinteressado, com o único objetivo de ensinar-nos a amar. Maria, José, os pastores e os reis magos entenderam este gesto de amor de Deus. E foram visitar o menino levando seus presentes sem esperar nada em troca.

Na economia do lucro, do capital, da compra e da venda, cada um dá conforme suas possibilidades e recebe em troca conforme a sua contribuição. Quem dá mais, recebe mais. E quem dá menos, recebe menos. Na economia do dom, do amor, da gratuidade, cada um dá conforme as suas possibilidades e recebe conforme suas necessidades. Quem precisa mais, recebe mais. E quem precisa menos, recebe menos.

São duas lógicas econômicas que estão, literalmente, no berço da experiência cristã, no berço do menino Jesus. E elas marcam todas as relações econômicas, as do passado e as do presente.

Que nesta Festa da Epifania, nos deixemos tocar pelo gesto de Deus que se dá a todos nós indistintamente, sem esperar nada em troca. E nos deixemos tocar pelo gesto dos pastores e dos reis magos que, com aquilo que tem – pouco ou muito – vão até Jesus e se colocam na dinâmica do dom, da gratuidade, da fraternidade universal.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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