Natal do Senhor, a inserção de Deus na vida humana
Todo dezembro, as cidades e as moradias ganham símbolos que anunciam a chegada do Natal do Senhor. Um lembrete, um ensino, uma mensagem, uma crença em cada símbolo. O Natal do Senhor é um evento por demais significativo, que transcende símbolos e palavras, e que precisa ser acolhido com o coração e com a ação.
Em 1223, numa gruta da cidade de Greccio, na Itália, Francisco de Assis com o objetivo de ajudar as pessoas a entenderem a Encarnação de Deus, organizou o presépio, reunindo pessoas e animais. A iniciativa de Francisco ao organizar o presépio vivo foi tão bem recebida que se tornou uma tradição, que se espalhou pelo mundo inteiro para celebrar o Natal do Senhor.
Na origem, o termo presépio significa “curral”, “estrabaria”, “manjedoura”, e tornou-se símbolo do cenário do nascimento do Menino Jesus. Junto ao presépio, está a estrela de Belém, que guiou os magos até o local do nascimento e simboliza a luz e a esperança que o Menino Jesus traz ao mundo. A coroa do Advento, composta por quatro velas, é um símbolo que representa as quatro semanas de preparação para o Natal do Senhor.
A palavra “preparação” tem sua origem no latim praeparatio, que significa “ato de preparar antecipadamente”. O termo é formado pela junção do prefixo prae – que significa “antes”, “antecipadamente”, e do verbo parare – que tem o sentido de “dispor”, “arranjar”, “deixar pronto”. Logo, a “preparação”, está ligada à ideia de “dispor algo com antecedência”.
Com a evolução do conceito, a “preparação”, abrange diversos significados, como o ato de se preparar para um objetivo, a organização para um evento, a fabricação de algo, ou até mesmo um produto químico ou biológico. Nos diferentes significados, demonstra-se a importância e os tipos de “preparação” que se desenvolvem e envolvem as pessoas.
No sentido cristão e litúrgico, a “preparação” é um procedimento fundamental, que envolve desde a formação, organização, atenção aos processos e participação ativa, até a oração mais intensa. Durante as quatro semanas do tempo do Advento, a Igreja motiva os fiéis a intensificarem sua “preparação” para celebrarem o Natal do Senhor. A “preparação” espiritual envolve oração, conversão, caridade e renovação da fé com o propósito de acolher o Menino Jesus no coração e na ação.
A narrativa bíblica descreve que Deus se fez homem por amor à humanidade e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade (João 1,14). Sua Encarnação humilde em uma estrebaria da pequena cidade de Belém, simboliza a humildade divina que veio salvar e redimir o mundo do pecado, anunciando um Reino de graça e de paz, e não de condenação (Lucas 2,1-7).
Na época, os anjos anunciaram o nascimento do Menino Deus aos pastores como as “boas novas de grande alegria para todo o povo”. O anúncio feito aos pastores, pessoas consideradas marginalizadas na época, e demostra que o Menino Deus veio para todos, sobretudo, para os últimos, os mais pobres (Lucas 2,8-20).
A teologia cristã enfatiza que Jesus Cristo é a encarnação do Verbo divino, “esvaziando-se” de sua glória para se tornar humano sem deixar de ser Deus (Filipenses 2,5-11). Com sua Encarnação, não deixou de ser Deus, mas se tornou plenamente humano, assumindo a forma de servo para servir e nos redimir do pecado e da morte (Marcos 10,45; Mateus 20,28). Da estrabaria, em vez de um palácio, Ele demonstra a humildade de Deus, que se aproxima da humanidade em sua fragilidade, contrapondo-se àqueles que desprezam o mandamento divino e as pessoas.
Pelo Natal, Deus faz sua plena inserção no mundo, feito Pessoa na história da humanidade. Inserção esta que é um profundo gesto de amor e de solidariedade com todos e todas. Sua inserção convida a humanidade a aceitar seu Reinado, que é de Salvação.
Ao enfeitar as cidades e moradias, a humanidade dá sinais de que pretende acolher o Reinado de Deus. Em cada Natal, há uma oportunidade de renovar a nossa vontade de acolher seu Reinado e participar dele como filhos e filhas. Os cristãos são chamados a ser uma “manjedoura”, para os outros, em especial com os mais necessitados, partilhando o amor, os bens, a solidariedade, como Deus fez no ato de sua Encarnação.
Francisco de Assis viveu o Natal do Senhor identificando-se com Ele, a ponto de criar o primeiro presépio da história. Ao transformar a gruta com animais e pessoas em um cenário de compreensão da Encarnação de Deus, viveu o encontro pessoal com o Menino Deus, Salvador da humanidade. Assim, tornou sua vida um permanente Natal do Senhor.
Francisco preparou o povoado de Greccio para acolher em suas vidas o Menino Jesus. A humanidade, fazendo uso dos símbolos como o presépio, das liturgias, orações e ações, pode preparar-se para reviver com autenticidade o Natal do Senhor. Com a devida preparação, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, todos os corações e mentes podem deixar-se habitar pelo Menino Jesus, fazendo da vida humana uma “manjedoura”, lugar da Encarnação de Deus.
Na nossa teologia e na nossa fé, o Natal do Senhor é a inserção de Deus na vida humana e na história da civilização, presença eterna que veio para iluminar o mundo, nossa caminhada de peregrinos de fé, em especial, os pobres e mais necessitados da graça divina. Que as celebrações do Natal do Senhor nos façam mais cuidadores daqueles que sofrem e clamam por solidariedade, reconhecendo neles o servir a Ele (Mateus 25,35-40).
Como canta a canção “Natal é vida que nasce, Natal é Cristo que vem”, que a celebração do nascimento de Jesus Cristo seja uma esperança de vida nova para toda a humanidade. Para tanto, será preciso além de expor símbolos, que cada pessoa seja o “presépio”, o local de acolhimento, e suas casas “Belém”, para que Cristo possa viver em cada coração e estar presente em cada ação humana, transformando vidas e relações humanas.
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