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Argentina x Inglaterra se enfrentam em semifinal marcada por história, rivalidade e grandes ídolos

por Thiago Machado

O confronto será nesta quarta-feira (15), às 16h, Atlanta

Foto: Michael Steele/Getty Images
Foto: Divulgação

Não é apenas uma semifinal de Copa do Mundo. Para argentinos e ingleses, provavelmente nunca será.

Quando Argentina e Inglaterra entrarem em campo nesta quarta-feira, 15, em Atlanta, haverá uma vaga na final do Mundial de 2026 em disputa. A Espanha, que eliminou a França, já espera pelo vencedor.

Mas existem partidas que carregam histórias demais para caber em 90 minutos.

Argentina x Inglaterra é uma delas.

Do lado argentino, a memória das Ilhas Malvinas continua presente. Diego Maradona permanece como uma figura quase mitológica. E Lionel Messi, aos 39 anos, disputa aquele que pode ser seu último grande mata-mata em uma Copa do Mundo.

Do lado inglês, há outras lembranças.

O gol de mão de Maradona.

A eliminação de 1986.

A derrota nos pênaltis em 1998.

A expulsão de David Beckham.

E também a revanche de 2002, quando o próprio Beckham marcou o gol da vitória inglesa.

São duas seleções separadas por um oceano.

Mas ligadas por décadas de conflitos, partidas polêmicas e feridas que o futebol jamais conseguiu apagar completamente.

Argentina x Inglaterra vale muito mais que uma vaga na final da Copa

A frase mais repetida nas ruas, bares e redes sociais argentinas antes da semifinal ajuda a entender o clima.

“Pelas Malvinas, por Diego e pela última de Leo.”

Em poucas palavras, três gerações da história argentina aparecem reunidas.

As Malvinas representam uma ferida nacional.

Diego é Maradona.

Leo é Messi.

O futebol mistura tudo.

É evidente que uma partida não altera acontecimentos históricos. Também não resolve conflitos políticos ou devolve vidas perdidas em uma guerra.

Mas o futebol possui uma capacidade particular de transformar memória coletiva em símbolos.

Para muitos argentinos, vencer a Inglaterra sempre possui um significado diferente.

Não é Brasil.

Não é Uruguai.

Não é Alemanha.

A rivalidade com os ingleses possui outra natureza.

Ela mistura política e futebol.

Por isso, mesmo jogadores e treinadores tentando reduzir o confronto ao campo, a história inevitavelmente reaparece.

Guerra das Malvinas mudou para sempre a rivalidade

O conflito pelas Ilhas Malvinas é o principal elemento político por trás da rivalidade.

Argentina e Reino Unido disputam a soberania do arquipélago localizado no Atlântico Sul.

Em 1982, a tensão resultou em guerra.

As forças argentinas desembarcaram nas ilhas em abril daquele ano.

O Reino Unido respondeu militarmente.

O conflito durou aproximadamente dez semanas.

Centenas de militares morreram.

A Argentina foi derrotada.

Mas a reivindicação de soberania nunca desapareceu da política e da sociedade argentina.

Até hoje, mapas produzidos no país identificam o território como parte da Argentina.

A frase “Las Malvinas son argentinas” aparece em escolas, documentos, eventos esportivos e manifestações públicas.

Quatro anos depois da guerra, Argentina e Inglaterra se encontrariam em uma Copa do Mundo.

E Diego Maradona transformaria aquele jogo em um dos acontecimentos mais famosos da história do esporte.

Maradona transformou o jogo de 1986 em um símbolo argentino

México.

22 de junho de 1986.

Estádio Azteca.

Argentina e Inglaterra disputavam uma vaga na semifinal da Copa do Mundo.

Diego Maradona marcou dois gols.

Os dois entraram para a história.

Mas por motivos completamente diferentes.

O primeiro aconteceu aos seis minutos do segundo tempo.

Maradona tentou tabelar na entrada da área.

A bola subiu.

O goleiro Peter Shilton saiu para afastar.

Maradona saltou.

E tocou na bola com a mão.

O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser validou o gol.

Os ingleses protestaram.

Não adiantou.

Argentina 1 a 0.

Depois da partida, Maradona criou uma das frases mais famosas da história do futebol.

O gol havia sido marcado “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”.

Nascia a “Mano de Dios”.

Quatro minutos depois veio o Gol do Século

Se o primeiro gol foi polêmico, o segundo foi genial.

Quatro minutos depois, Maradona recebeu a bola ainda no campo argentino.

Girou.

Acelerou.

E começou a correr.

Peter Beardsley tentou pará-lo.

Peter Reid ficou para trás.

Terry Butcher tentou o desarme.

Terry Fenwick apareceu.

Maradona continuou.

O goleiro Peter Shilton saiu.

Diego driblou.

Finalizou.

Gol.

Foram poucos segundos.

Mas aquelas imagens atravessaram décadas.

Em 2002, uma votação internacional organizada pela FIFA escolheu o lance como o Gol do Século.

Curiosamente, os dois lados de Maradona apareceram no mesmo jogo.

A malandragem.

A genialidade.

A provocação.

A capacidade de decidir.

Para os argentinos, a vitória ganhou um significado ainda maior por acontecer apenas quatro anos depois da Guerra das Malvinas.

“Para meu pai, nunca seria apenas uma partida”

Diego Maradona Júnior, filho do ex-jogador argentino, resumiu o peso do confronto antes da semifinal de 2026.

Segundo ele, para o pai, enfrentar a Inglaterra jamais seria apenas um jogo.

A declaração encontra respaldo nas próprias palavras de Maradona.

Anos depois da Copa de 1986, Diego admitiu que a Guerra das Malvinas estava presente emocionalmente naquele confronto.

Maradona dizia que, antes da partida, os jogadores tentavam afirmar que futebol e política não deveriam ser misturados.

Mas, internamente, o sentimento era diferente.

A memória dos jovens argentinos mortos durante o conflito estava presente.

A vitória não poderia mudar o passado.

Mas ganhou um valor simbólico enorme.

Quarenta anos depois, Argentina e Inglaterra voltam a se enfrentar em uma fase decisiva de Copa.

Diego não está mais presente.

Mas sua história estará em Atlanta.

A rivalidade começou antes das Malvinas

A Guerra das Malvinas intensificou o confronto.

Mas os problemas futebolísticos entre argentinos e ingleses começaram antes.

Na Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra, as duas seleções se enfrentaram nas quartas de final.

O jogo foi extremamente tenso.

O capitão argentino Antonio Rattín acabou expulso.

Ele inicialmente se recusou a deixar o campo.

A partida ficou marcada por reclamações sobre a arbitragem.

A Inglaterra venceu por 1 a 0.

Depois do jogo, o técnico inglês Alf Ramsey utilizou uma expressão extremamente ofensiva para se referir aos argentinos.

A imprensa dos dois países ampliou a tensão.

Para a Argentina, a partida de 1966 se transformou em uma espécie de símbolo de injustiça esportiva.

Vinte anos depois, Maradona apareceria.

Beckham virou vilão nacional em 1998

O próximo grande capítulo aconteceu na França.

Copa do Mundo de 1998.

Oitavas de final.

Argentina e Inglaterra.

O jogo terminou empatado por 2 a 2.

Mas um lance mudou a história de David Beckham.

No início do segundo tempo, Beckham caiu após uma disputa com Diego Simeone.

Ainda no chão, o inglês chutou o argentino.

Simeone caiu.

O árbitro expulsou Beckham.

A Inglaterra disputou boa parte da partida com dez jogadores.

O confronto chegou aos pênaltis.

A Argentina venceu.

Na Inglaterra, Beckham virou alvo.

Jornais responsabilizaram o jogador pela eliminação.

Torcedores o insultaram.

Bonecos com sua imagem foram pendurados.

O meia precisou de anos para reconstruir sua relação com parte do público inglês.

Beckham teve sua revanche em 2002

Quatro anos depois, o destino colocou Argentina e Inglaterra novamente frente a frente.

A Copa do Mundo de 2002 era disputada na Coreia do Sul e no Japão.

As seleções estavam no mesmo grupo.

David Beckham era o capitão inglês.

Quando Michael Owen sofreu um pênalti, Beckham pegou a bola.

Do outro lado estava Pablo Cavallero.

O inglês correu.

Bateu forte.

Gol.

Beckham comemorou de maneira explosiva.

A Inglaterra venceu por 1 a 0.

Para o jogador, aquele momento representou uma redenção pessoal.

Quatro anos antes, ele havia sido apontado como responsável pela eliminação.

Agora, marcava justamente contra a Argentina.

Foi o último encontro entre as seleções em Copas do Mundo.

Até 2026.

O reencontro acontece 24 anos depois

Argentina e Inglaterra passaram mais de duas décadas sem se enfrentar em um Mundial.

Muita coisa mudou.

Em 2002, Lionel Messi tinha 14 anos.

Jude Bellingham ainda nem havia nascido.

Harry Kane era uma criança.

Agora, os dois países voltam a se encontrar.

E novamente em um jogo eliminatório.

A Argentina chega como atual campeã mundial.

O título conquistado no Catar em 2022 encerrou uma espera de 36 anos.

Messi finalmente levantou a taça.

Mas a história não terminou.

Aos 39 anos, o camisa 10 disputa outra Copa.

E novamente está perto da final.

Messi enfrenta a Inglaterra pela primeira vez em uma Copa

Existe uma curiosidade impressionante no confronto.

Lionel Messi nunca enfrentou a Inglaterra em uma Copa do Mundo.

O jogador participou das edições de 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026.

Em nenhuma delas encontrou os ingleses.

Agora, possivelmente em seu último Mundial, o duelo finalmente acontecerá.

O simbolismo é inevitável.

Messi cresceu sendo comparado a Maradona.

Durante anos, ouviu que precisava conquistar uma Copa.

Conquistou.

Depois, ouviu que precisava liderar uma geração.

Liderou.

Agora, enfrenta justamente o adversário responsável por uma das atuações mais famosas de Diego.

Não existe obrigação de repetir 1986.

Mas o paralelo está criado.

A última Copa de Messi aumenta o peso da semifinal

Lionel Messi ainda não confirmou oficialmente cada detalhe de seu futuro internacional.

Mas a idade transforma cada partida em um possível capítulo final.

Aos 39 anos, o argentino sabe que dificilmente disputará outra Copa do Mundo.

Por isso, a campanha de 2026 ganhou um caráter especial.

Para os torcedores argentinos, existe o desejo de prolongar a história.

Mais um jogo.

Mais uma final.

Mais uma chance de ver Messi disputar o título mundial.

A frase “pela última de Leo” nasce desse sentimento.

Não significa apenas vencer a Inglaterra.

Significa adiar uma despedida.

Se a Argentina perder, a trajetória de Messi em Copas pode terminar em Atlanta.

Se vencer, haverá um último palco.

A final.

Messi chega à semifinal como protagonista

Messi não atravessou a Copa de 2026 apenas como uma figura simbólica.

O argentino segue sendo decisivo.

Sua participação ofensiva ajudou a Argentina durante toda a campanha.

A seleção passou pela fase de grupos e sobreviveu a confrontos eliminatórios contra Cabo Verde, Egito e Suíça.

O camisa 10 continua ocupando uma função central.

Talvez não percorra mais o campo como fazia aos 25 anos.

Mas interpreta espaços.

Controla o ritmo.

Escolhe os momentos.

A Argentina também possui uma estrutura criada para potencializar seu capitão.

Jogadores correm.

Pressionam.

Cobrem espaços.

Messi decide.

A fórmula funcionou em 2022.

Continua funcionando em 2026.

Inglaterra chega com Kane e Bellingham em grande fase

Do outro lado existe uma seleção inglesa que também carrega enorme pressão.

A Inglaterra não conquista uma Copa do Mundo desde 1966.

São 60 anos de espera.

Durante décadas, diferentes gerações fracassaram.

Beckham.

Lampard.

Gerrard.

Rooney.

Agora, a esperança está em Harry Kane e Jude Bellingham.

Os dois assumiram o protagonismo ofensivo durante o torneio.

A Inglaterra também atravessa uma transformação sob o comando de Thomas Tuchel.

O treinador alemão assumiu a missão de levar os ingleses ao título.

A semifinal contra a Argentina representa o maior teste do projeto.

Argentina e Inglaterra se conhecem através da Premier League

Apesar da rivalidade histórica, os jogadores atuais convivem de maneira muito mais próxima.

Diferentes argentinos atuam ou atuaram no futebol inglês.

Emiliano Martínez se tornou um dos principais goleiros da Premier League.

Cristian Romero conhece o estilo inglês.

Alexis Mac Allister construiu sua carreira recente no país.

Outros integrantes da seleção também possuem experiência na liga.

Isso muda a dinâmica.

Não existe mais o desconhecimento de décadas passadas.

Os jogadores se enfrentam durante a temporada.

Alguns são companheiros de clube.

Conversam.

Compartilham vestiários.

A rivalidade continua.

Mas o futebol moderno aproximou os dois lados.

Scaloni tenta afastar guerra do futebol

Lionel Scaloni adotou um discurso cuidadoso.

O treinador argentino sabe o peso histórico da partida.

Mas tenta manter o elenco concentrado.

A mensagem é simples.

Existe uma semifinal.

Existe um adversário.

Existe uma vaga na final.

A Guerra das Malvinas pertence à história.

Maradona pertence à memória.

O jogo de 2026 pertence aos atuais jogadores.

Rodrigo De Paul também seguiu uma linha semelhante.

Os argentinos reconhecem a rivalidade.

Mas evitam transformar a partida em uma guerra simbólica.

O cuidado é compreensível.

A pressão já é gigantesca.

Nas arquibancadas, o sentimento será diferente

Se jogadores e treinadores tentam controlar o discurso, torcedores possuem outra liberdade.

Bandeiras das Malvinas fazem parte do ambiente argentino há décadas.

Camisas de Maradona aparecem em qualquer jogo da seleção.

Máscaras de Messi.

Faixas.

Músicas.

A arquibancada argentina transforma memória em espetáculo.

Do lado inglês, “Wonderwall”, do Oasis, virou um hino espontâneo da campanha de 2026.

A música acompanha as comemorações da seleção.

Atlanta deverá reunir duas torcidas carregadas de símbolos.

Maradona.

Messi.

Malvinas.

Kane.

Bellingham.

Wonderwall.

É futebol.

Mas também é memória coletiva.

Vencedor enfrentará a Espanha na final

No campo, a matemática é muito mais simples.

Quem vencer avança.

A Espanha já está classificada para a decisão.

Os espanhóis eliminaram a França por 2 a 0 na outra semifinal.

Argentina e Inglaterra disputam a segunda vaga.

Para os argentinos, existe a possibilidade de defender o título conquistado em 2022.

Para os ingleses, a chance de voltar a uma final mundial depois de 60 anos.

Dois países.

Duas histórias.

Duas pressões completamente diferentes.

Conclusão

Argentina x Inglaterra nunca foi apenas futebol.

Talvez seja impossível transformar esse confronto em um jogo comum.

A Guerra das Malvinas continua presente na memória argentina.

Maradona transformou 1986 em mito.

Beckham viveu a queda em 1998 e a redenção em 2002.

Agora, Lionel Messi e Jude Bellingham lideram uma nova geração desse confronto.

Para a Argentina, existe o desejo de honrar Diego e prolongar a última Copa de Leo.

Para a Inglaterra, existe a oportunidade de superar fantasmas históricos e voltar à decisão mundial depois de seis décadas.

A vaga na final está em jogo.

Mas, quando argentinos e ingleses se encontram em uma Copa, 90 minutos nunca contam toda a história.

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