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Acolher: verbo transitivo direto!

Marta Maria Godoy

Há alguns dias passei pela Borges de Medeiros, em Porto Alegre, lá no Viaduto Otávio Rocha,  já há algum tempo sem seus “moradores” (hesitei ao colocar as aspas...). Tinha ido visitar um amigo que mora nas proximidades e, na conversa, perguntei se ele sabia o que tinha sido feito daquele povo. E ele me disse que “estavam por aí”, sob um outro viaduto lá de perto e sob as marquises dos prédios próximos do seu (que não tem marquise). Antes havia lido e visto imagens sobre a atitude da Guarda Municipal de São Paulo, adentrando ao espaço de acolhimento do povo de rua para recolher... seus pertences! O fato de o pe. Júlio Lancellotti estar lá não surpreende! Há mais de três décadas que sua opção por estar ao lado desse povo se concretiza com a sua presença profética e celebrativa, na defesa dos direitos de quem, sem teto, também vive sem voz, sem vez, sem dignidade! E, é claro, no espancamento, sobrou pra ele também! Na hora me indignei! Meu coração se perguntava por que sequer o ouviram (as imagens, as que vi, mostravam ele tentando argumentar, falar, gesticulava...) e... nada! Só gás de pimenta...

Depois, porém, como “das letras e da indignação” que sou, pensei no verbo; no verbo que denota a ação que se vem desenrolando durante tanto tempo, no trabalho do pe. Lancellotti: acolher! E pensei na transitividade desse verbo. Transitividade verbal (não se assustem!) quer dizer o que o verbo “pede”, para “vir depois dele” na frase. Há os que não pedem nada: são os intransitivos. Mas há os transitivos! São os que pedem algum complemento, “algo” que transite depois deles, sob pena de não terem sentido se enunciados sem esse complemento. Neste caminho, há os transitivos indiretos que são ligados ao complemento pela preposição, portanto, há “algo” entre o verbo e o que vem depois dele... E os transitivos diretos. Ah, esses vão direto ao complemento, sem nada entre eles! Passada essa explicaçãozinha, vemos que esse é o caso do verbo acolher, transitivo direto! Alargando essa ideia de transitividade direta, podemos pensar um pouco além: quando alguém acolhe não há nada no entremeio; trata-se de uma ação cujo sujeito olha imediatamente ao redor, abre os braços e deixa-se conduzir pelo clamor do imediato, do que emerge da necessidade ao redor. Me faz lembrar os momentos em que Jesus foi interpelado, sobretudo nas ruas, em que parou e acolheu imediatamente a pessoa e sua necessidade... e que coisas extraordinárias aconteceram: doenças que deixaram de existir, pessoas que se tornaram diferentes, outras que passaram a ouvir e outras, ainda, enxergar ou falar! Há os que chamam tudo isso de “milagre”... eu diria que é a transitividade direta do verbo acolher!

Pois é. Não fui me informar sobre como isso funciona em outros idiomas (de alguns até tenho conhecimento), mas é possível dizer que o fato de não haver nada entre esse verbo e o seu complemento, na subjacência do idioma que usamos, sem dúvida deixa claro o que deve significar acolher para nós: caminho direto para abrigar, agasalhar, amparar, apoiar, proteger, resguardar, aceitar, atender, considerar, receber, escutar... o outro, a outra! Neste sentido, o acolhimento cristão deve ser insuperável e corajoso, desprovido de quaisquer intromissões entre o “fazer” e o “a quem”, situando-se entre a ternura e endurecimento muitas vezes, porém sempre em busca do estabelecimento da justiça guiado unicamente por um amor incondicional como foi o de Jesus de Nazaré.

 

 

 

Sobre o autor

Marta Maria Godoy

Religiosa consagrada. Graduada em Letras. Pós-graduada em Linguística Aplicada - Leitura e Produção textual. Mestranda em Teologia pela EST/S. Leopoldo, na área de Teologia Prática.

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