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Quem ama cuida

Jaime Bettega

O espaço é amplo, se parece com um campo aberto. Árvores e arbustos dividem e harmonizam o mesmo solo, dando a impressão de um cartão postal, em alguns momentos. Os pássaros sobrevoam o gramado, em busca de insetos e de outros alimentos. Em alguns dias é necessário reforçar o milho quebrado e o alpiste: então, as aves fazem verdadeiras festas. Algumas espécies se ocupam em espantar os demais. Pensando bem, a convivência entre os diferentes sempre necessita ser retocada. Aparar arestas é uma atividade que desconhece fim. Se entre os demais seres criados cenas de exclusão se sucedem, o que pensar dos humanos, que ainda se distanciam por causa da nacionalidade, da cor da pele, da classe social?!  A fraternidade universal é um sonho que jamais poderá ser deixado de sonhar. São muitos os laços que necessitam ser entrelaçados. A tarefa é árdua. Ainda bem que o amor é capaz de verdadeiros milagres.

Dias atrás, caminhando pelo gramado, percebi que os quero-quero estavam agitados e incomodados com minha presença. Além de sonoros ruídos, revoavam insistentemente, dando a impressão de que eu seria um invasor de território. Andei mais uns passos e, então, percebi que havia um ninho com ovos. Para me proteger, tomei distância e acompanhei a calmaria que, aos poucos, se restabeleceu. Os quero-quero não querem ninguém por perto, durante o período que os ovos são chocados. Se agora estão assim armados e coesos, ao ponto de formarem um verdadeiro exército, imagem depois do nascimento dos filhotes. Por uns instantes recordei que o cuidado, presente em todas as espécies, não deixou de existir, a preservação da espécie ainda passa pela proteção. Os quero-quero se impõem, não aceitam intrusos, cuidam das novas vidas que estão sendo geradas.

Os humanos podem e devem aprender com os demais seres do planeta, a grande lição da proteção. Infelizmente, nem todos os pais cuidam de seus filhos, nem todas as famílias protegem seus idosos, nem todos os irmãos permanecem lado a lado daqueles que possuem o mesmo sangue, nem todos os amigos estendem a mão, quando o outro necessita. A humanidade evoluiu, a tecnologia é fantástica, as melhorias são contínuas. No entanto, ainda há gente perambulando pelas ruas, crianças sem colo, idosos sem carinho, mesas sem pão. O amor tem se apresentado escasso em alguns ambientes. A solidão continua machucando corações, que não merecem sofrer tanto assim. Os dias estão passando: não sei quando os filhotes de quero-quero vão quebrar a casca e dar os primeiros passos. Tenho ficado à distância. Afinal, mesmo não tendo nenhum papel assinado e carimbado, aquele espaço pertence ao bando de quero-quero que há tempo sobrevoa as redondezas. Toda vez que enxergo um quero-quero ou ouço o seu cantar, recordo algo muito simples: quem ama cuida!         

Sobre o autor

Jaime Bettega

Frei capuchinho, natural de Caxias do Sul, RS. Formado em Filosofia, Teologia e Administração de Empresas. Pós-graduado em Gestão de Pessoas e Administração, com enfoque na Espiritualidade nas Organizações, mestre em Ética Organizacional.
 

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