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O país ao contrário

Gislaine Marins

“O país ao contrário” é o título de um livro infantil de Lidia Ravera, escrito em 1994. Inicialmente o título era: “O país de Siap”, o que era muito mais indicado para refinamentos adultos, embora ilustrasse perfeitamente o uso lúdico que as crianças fazem da língua. Em outras palavras: o livro deleita leitores de todas as idades, tocando por meio de situações concretas os absurdos da vida, a irracionalidade das nossas escolhas.

No Brasil de Siap também temos os nossos contrários e contrastes. Sobre os contrastes, parece que estamos todos de acordo: não há quem não viva com apreensão esses meses de pandemia, desemprego, inflação, aumento da pobreza, queda do poder aquisitivo. Nisso o Brasil de Siap parece unânime, inclusive para aqueles que dizem isso a fim de justificar o desgoverno de Siap. Desgoverno, pois em Siap tudo acontece ao contrário.

Não concordamos muito em relação aos nossos contrários. Assim, muitos comunistas ficam ofendidos porque os padres passaram a ser chamados de camaradas e muitos padres explicam que Evangelho não é comunismo. Integralistas ficam ofendidos por serem chamados de fascistas e fascistas afirmam categoricamente que eles não existem. Os que falam pelas suas bocas são, portanto, ventríloquos? Os fascistas são meros fantoches? Não são fascistas os que debocham da morte e da fome? Não são fascistas os que não se importam com o aumento do dólar? Não são fascistas os que desprezam a caça ao osso?

O pior no Brasil de Siap é que a caridade virou crime e os crimes de responsabilidade tornaram-se impuníveis. Ensinar a quem não sabe tornou-se profissão de risco: qualquer aluno pode usar o que os professores dizem contra eles em um tribunal. É um clima de asfixia que sugere falar de flores e de poesia de nuvens, como Ferreira Gullar escrevia há mais de cinquenta anos. No Brasil de Siap é preciso não falar do Brasil de Siap.

A nossa comoção pode manifestar-se, mas somente em relação à tragédia alheia, dado que, ao contrário, aqui nada acontece. A lógica deve estar a serviço da mentira, para contar bem errado, por meio de falsos silogismos aquilo que não aconteceu e que queremos destruir. Por ser tudo ao contrário, os que estão certos são acusados de estar errados e quem está errado orgulha-se das suas vitórias. Vitórias que são derrotas, é claro.

Ao contrário, quero dizer que é desgastante escrever por linhas tortas. Porém, já não há caminhos para outra escrita, senão sair do labirinto dando muitas voltas. É preciso passar pelo avesso, pelas entrelinhas, pela lógica e pelas nossas irracionalidades e mentiras. Esse é o caminho árduo da vida. Perder no país da mentira para ganhar a própria lucidez. Salvar quem está ao nosso lado para não cantar em vão com um Orfeu sem Eurídice. É preciso escrever ao contrário: quem sabe, assim, alguns desconfiem que já não há sentido literal, que atacamos covardemente a noção de diálogo como interlocução, como relação entre pessoas que desejam compartilhar suas visões de mundo.

O Brasil de Siap virou uma Grécia, onde os jovens são devorados para saciar a ganância. Ninguém é Teseu, não temos nehuma Ariadne. Temos nós mesmos, os nossos paradoxos, os nossos oxímoros, as nossas antíteses e a nossa incapacidade. Temos de sair dessa tragédia com todas as nossas incapacidades, para dizer ao contrário. Percebendo, ao menos uma vez, a que ponto levam os nossos equívocos. É preciso olhar para trás e não virar estátua de sal, mas lembrar. Lembrar sempre, para que finalmente Siap deixe de viver ao contrário e se torne o Brasil.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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