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Feliz ano-novo, dinossauros!

Gislaine Marins

"Percorri vales e planícies. Cheguei a uma estação, peguei o trem, confundi-me em meio à multidão". Esta é a frase que encerra o conto Os Dinossauros, de Italo Calvino. O texto faz parte do livro As Cosmicômicas, cujo protagonista passa por várias metamorfoses. A frase final deste conto deixa ao leitor a ideia de que, em uma dessas transformações, a personagem pode ser confundida com um transeunte, com um viajante (quem sabe humano, quem sabe nós, quem sabe o leitor, quem sabe eu). Ou que, ao contrário, demonstramos por vezes comportamentos jurássicos, que fariam um verdadeiro dinossauro passar despercebido na multidão.

A minha proposta não é contar muito sobre o texto, que é bastante divertido, mas também melancólico. No entanto, preciso dizer que a ação se passa em um momento no qual as demais personagens acreditam que todos os dinossauros foram extintos. O dinossauro protagonista não é reconhecido como tal e sobre os animais jurássicos circulam apenas descrições lendárias. Portanto, as personagens não possuem elementos para identificá-lo. Quando o grupo é ameaçado por uma manada, começa a circular o boato de que são dinossauros terríveis e que eles serão destroçados. Então o dinossauro é encarregado, por ser o mais forte e o maior, de averiguar a situação e de avaliar o perigo. Ao retornar, traz notícias que deveriam acalmar o grupo: não são dinossauros, são rinocerontes. Então os outros questionam como ele é capaz de fazer tal afirmação. O dinossauro revela quem é. E os outros não acreditam.

O conto poderia ser lido como uma alegoria do mito da caverna, em que o isolamento não é representado pelo espaço, mas pelo tempo. Depois de milênios, o conhecimento retorna ao estado de mito e lenda, um risco que corremos sempre e que a infodemia em curso confirmou. Perdemos memória do conhecimento científico acumulado em dois séculos de estudos sobre o uso de vacinas e nos abandonamos ao pensamento mágico sobre o enfrentamento da crise sanitária. Vacinas salvam. Não deveriam ser obrigatórias, pois deveria ser óbvio que devem ser usadas.  

Descobrimos que a obviedade não pode ser distraída. Daí os cientistas costumarem dizer que nada é óbvio e terem uma evidente inclinação para a reconstrução das teses passadas para apresentarem novas hipóteses. Então percebemos que o conto também poderia ser lido como um ensaio sobre o medo daquilo que é inexistente e sobre aquilo que somos incapazes de reconhecer porque desconhecemos ou porque perdemos a memória.

O conto poderia ser interpretado ainda como uma comédia sobre os estereótipos. Se é correto afirmar que só podemos fazer conjecturas a partir daquilo que conhecemos, também é verdade que conhecemos mal e superficialmente muitas coisas. Ficamos no “ouvi dizer que”, “está nas redes”, “deu na televisão”, sem questionar os gurus que tiram ideias absurdas da cartola para desolação das pessoas informadas, para o riso das claques, para a tragédia pessoal de quem é ludibriado por ser ingênuo e ignorante.

O conto poderia ser visto ao contrário, como uma metáfora da melancolia dos que sabem que estão perdidos e se dissolvem na massa, abdicando do desejo de deter o tempo e de olhar para onde vão. Apesar disso, o registro está ali e é apresentado ao leitor como uma narrativa em primeira pessoa, como testemunho e como apologia da memória. Lembrar e narrar é a coragem do tempo presente, é a medalha daqueles que sobrevivem.

É tempo de bons propósitos, como se amanhã não dependesse daquilo que fizemos ontem. Porém, agindo como se já estivéssemos todos extintos, somos incapazes de avaliar o nosso potencial de superação. Recomeçar do zero é bom somente para quem acredita em mitos e para quem gosta de repetir os mesmos erros. Reconhecer a manada, enfrentar a própria identidade, os medos, os equívocos e os escombros para alcançar a planície é gesto de coragem, que nos transforma em algo novo. Que se perde na multidão, mas não de dissolve em palavras sem sentido.

A todos os dinossauros, feliz ano-novo!

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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