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Eternidade

Gislaine Marins

Há uma outra eternidade nesses dias de saudade. É feita de história e de marcos, que o dinheiro não compra.

É o samba cantarolado enquanto estamos ocupados com os nossos afazeres. É o livro de Machado, mulato acadêmico, que as elites, em branco e preto, embranquecem, mas não podem apagar. A eternidade está na língua, nas arapucas e no canto da uirapuru, indígena eterna, apesar de todas as tentativas de exterminarem os nossos povos nativos. Eterna é a moqueca, na melhor tradição que passa de boca em boca, preparada sem autorização dos donos da casa grande, hoje chamada de pátria amada. Como também é eterna a capoeira, a ginga, os tambores e o berimbau, que marcam a passagem do tempo.

A história do Brasil, feita de saques, contrabandos, fraudes, estupros, capturas, assassinatos, escravidão, produziu uma riqueza enorme. Trocamos especiarias por miçangas, enriquecemos submetendo as pessoas ao cativeiro, estupramos para gerar mão-de-obra, matamos os resistentes e desistimos do temor a Deus, que em tantas operações é invocado e em tantos crimes é esquecido. Resta o dinheiro acumulado. E resta a ganância, desejo incontido e incontrolável de obter sempre mais, criando desertos humanos e geográficos onde quer que se instale. Fica o dinheiro com as suas abstrações, como esponjas para limpar as consciências sem necessidade de pedir perdão. É a eternidade das almas penadas.

Há uma eternidade construída por saberes antigos, que nenhum dinheiro abate. Por isso, o ódio recai sobre os ombros daqueles que cantam, dançam, escrevem e partilham o pão. O pão que alimenta o estômago e o que nutre a nossa criatividade. O dinheiro, com a invisibilidade das suas transações, quer ocupar o espaço daquilo que, não tendo forma e não tendo preço, escapa aos seus tentáculos.

Aos ressentidos, ignorantes por vocação e escolha própria, lamento informar: a cultura não morre. Podem retirar os nomes das galerias oficiais, podem cortar os fundos, podem censurar as obras. A cultura renasce, pois é essencial como o pão. Quem valoriza as suas tradições sabe que a cultura eterniza os homens: é a eternidade laica, que nos permite olhar para trás e ver uma longa estrada. É o impulso que nos faz desejar ter muito caminho pela frente. E teremos, lá onde o dinheiro se esvai e não nos alcança.

Voa, Jaider Esbell, artista indígena da maior qualidade, herdeiro de Macunaíma. Vai como o herói da nossa gente: vamos ficar para contar a história. Para quem ama a cultura a vitória nunca morre

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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