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A preguiça

Gilmar Zampieri

A preguiça é o pecado contra a diligência. A diligência é uma virtude, a preguiça é um vício. A diligência é a virtude da presteza e zelo na execução de alguma tarefa ou missão. A preguiça é o pecado da inação e da inércia. O diligente está sempre disposto a dizer sim, o preguiçoso, a dizer não. O diligente está sempre pronto e de mangas arregaçadas, o preguiçoso está sempre de pernas e braços atados por uma corrente invisível, que só não lhe pesa mais do que a má consciência pela vontade culposa. Sim, a vontade é culposa pois o pecado da preguiça é uma repugnância voluntária ao trabalho e à ação. Disso se deduz que não há pecado da preguiça lá onde o indivíduo está fatigado, cansado e exausto. Não se pode confundir preguiça com necessidade imperiosa de parada física e mental. Logo, o pecado da preguiça nada tem a ver com o merecido descanso, lazer e atitude contemplativa. 

Mas, que mal há na ociosidade, no relaxamento, no espreguiçamento prolongado num dia de feriado ou no domingo? Nenhum, absolutamente, nenhum. Que mal pode haver em não ter vontade de ir à aula num dia frio e chuvoso, ou não ter vontade de fazer a caminhada diária, levar o lixo na rua ou lavar a louça? Nenhum, absolutamente nenhum, ou, no máximo, um pecadinho venial. Não é desse tipo de preguiça que os mestres da espiritualidade estavam pensando quando listaram a preguiça entre os sete pecados capitais. Eles pensavam em algo bem mais grave.

A preguiça, listada entre os sete pecados capitais, é aquela preguiça que compromete a saúde espiritual do seu portador. Não é uma preguiça física apenas, mas mental e espiritual que suga a vitalidade e enreda seu possuidor na rede da apatia. O apático não se mobiliza, não age, não reage, não empreende, não trabalha e se afunda no sofá da tristeza. A preguiça corrompe o que há de melhor no humano, isto é, a boa vontade no cumprimento de um dever, de uma missão, de uma tarefa ou vocação. A preguiça corrompe o espírito que anima a boa vontade. E a boa vontade pervertida abre as portas para todos os vícios.

O preguiçoso perverte a boa vontade e perverte o espírito de superação, de crescimento, de elevação a que foi destinado e se puxa para baixo, fazendo corpo mole, satisfazendo-se em ser galinha sabendo e podendo ser águia. O preguiçoso mata, na raiz, a possibilidade de ser melhor, acomodando-se e satisfazendo-se em ser menos. O preguiçoso sabota a si mesmo, preferindo ser menos, onde poderia ser mais. O preguiçoso se arrasta quando poderia voar, se anula quando poderia fazer a diferença, se ofusca quando poderia brilhar e se satisfaz com a mediocridade quando poderia alcançar a excelência.

A preguiça, quando passa de momentos para um estado permanente, recebe o nome de acídia. A acídia é o pecado da tristeza que deprime o ânimo, causa tédio, melancolia e um torpor mental que impossibilita a iniciativa de fazer qualquer ato bom. A acídia mais do que preguiça, é indiferença absoluta e imobilizadora. Há uma ambiguidade de tal forma nesses dois conceitos que o Catecismo da Igreja Católica, quando enumera os sete pecados capitais, o faz assim: soberba, avareza, inveja, ira, impureza, gula, preguiça ou acídia. Preguiça ou acídia? São sinônimos? Se sim, porque colocar os dois? Se não, então seriam 8 pecados capitais? É no mínimo curioso e fica, aqui, apenas a provocação...! 

É muito espirituoso, jocoso e bem-humorada a sacada do poeta gaúcho Mário Quintana o dizer que a preguiça é a mãe do progresso e se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Ou, ainda, que a preguiça só pode ser uma virtude visto que o preguiçoso, por inação, não cometerá os outros pecados capitais. Serve como provocação e como humor inteligente, mas desvia do essencial. E o essencial é que o preguiçoso tem o hábito de descansar antes mesmo da fadiga e, por conta disso, é um coveiro de talentos e habilidades do que terá que prestar contas. 

Desconheço dois textos bíblicos mais claros e emblemáticos, no julgamento da preguiça como pecado, dos que seguem:

Anda, preguiçoso, olha a formiga, observa o seu proceder, e torna-te sábio: sem ter um chefe, nem um guia, nem um dirigente, no verão, acumula o grão e reúne provisões durante a colheita. Até quando dormirás, ó preguiçoso? Quando irás te levantar do sono? Um pouco dormes, cochilas um pouco, um pouco cruzas os braços e descansas, mas te sobrevém a pobreza do vagabundo e a indigência do mendigo (Pr. 6,6-11).

Como ler essa passagem bíblica e não lembrar da fábula da formiga e da cigarra contada por Esopo, La Fontaine e Monteiro Lobato? Nas três versões da fábula a cigarra cantava enquanto a formiga trabalhava e, quando o verão acaba e o inverno rigoroso bate à porta da pobre cigarra, sem abrigo e proventos, esta, sem cerimônia vai até a casa da formiga implorando socorro e ajuda. A formiga, surpresa, lhe pergunta: e o que é que fez durante todo o verão enquanto nós trabalhávamos? A cigarra responde: “cantava”. Pois então, dizem as formigas, “agora, dance”. Em Monteiro Lobato, porém, o final é surpreendente e a ele remeto para não ser motivo de favorecer a preguiça do leitor...!

O segundo texto é uma parábola contada por Jesus. O texto, Mt 25, 14-30, é um pouco longo, o que não favorece a preguiça e, então, eu arrisco um resumo. A parábola conta que o Reino de Deus é semelhante a um homem que, viajando para o estrangeiro, confia aos seus servos uma quantia de talentos, cada um segundo suas capacidades. A um, deu cinco talentos, a outro, dois e ao terceiro, um. Imediatamente, o que recebeu cinto talentos, saiu para trabalhar e multiplicou o que recebeu. Assim, também, com o que recebeu dois talentos. O que recebeu um talento, abriu uma cova e o enterrou. 

Depois de algum tempo o homem voltou e foi pedir contas aos seus servos. Os que multiplicaram os talentos os entregaram ao seu senhor e recebem, em troca elogios e promessa de, a eles, serem confiados ainda maiores empreendimentos, já que foram fiéis, zelosos e trabalhadores no pouco. Mas o que recebeu um único talento, tentando se justificar, foi logo dizendo que, por medo da severidade do seu senhor, enterrou o talento e o estava devolvendo. Ao que, ouviu o que não esperava: “servo mau e preguiçoso...servo inútil, lançai-o fora nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes”!

Que pecado interessante esse da preguiça! Será ela um vício capital e perdição da alma ou será que a transformação da preguiça em pecado capital foi uma invenção para estimular o espírito do capitalismo, através da ascese do trabalho? A Igreja estaria em conluio com os empresários para os beneficiar, colocando o trabalhador como modelo de homem virtuoso e a preguiça como vício que leva ao inferno? Não seria, antes, o mundo do capitalismo, mesmo no trabalho supostamente livre, uma forma de escravidão, inferno já, aqui e agora e, a preguiça, um direito sagrado? A resposta e essas perguntas é, obviamente, não, contudo, não custa fazê-las, nem que seja para espantar a preguiça de perguntar...!  

 

 

 

 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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