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Às escuras

Gislaine Marins

 

A falta de luz era motivo para nos contarem histórias. Meu pai contava, meus tios contavam, a imaginação viajava. O pouco que sei sobre múscia também aprendi no escuro. Meu pai dizia: é preciso tocar de olhos fechados, reconhecer as notas pelo ouvido e pelo tato, conhecer as notas sem olhar o braço do instrumento.

Às escuras, elaborávamos hipóteses, planos, programas. Rompíamos o silêncio. Era preciso conhecer o lugar exato das velas e dos fósforos. Tatear os móveis, caminhar lentamente para pegar a lanterna. Às escuras fazíamos teatro de sombras e ouvíamos histórias de fantasma. Minha tia, caminhando à noite, temia os copos-de-leite no banhado: moviam-se ao vento como almas penadas. Eram os percursos iluminados apenas pela lua nos bairros pobres.

Quando a luz voltava, retornavam as certezas. Ah, era o contador da luz, era o transformador do poste, era o temporal. Tudo encontrava o seu lugar no campo das explicações plausíveis. Com a luz também voltava a nossa distração. O jantar preparado como sempre, a comida engolida como sempre, a TV ligada como sempre, a mudez respeitada como sempre. Os olhos empanturrados de histórias que não nos pertenciam. Osouvidos abarrotados de fofocas sobre vidas imaginárias. Era um tédio. Preferia a cantoria à luz de velas. Antes do livro, a escrava Isaura já tinha cara de Lucélia Santos. Diadorim era Bruna Lombardi.

Há algo de misterioso, porém, nas palavras. Como viver às escuras. Imaginar. Quando finalmente li Grande Sertão: Veredas, uma emoção desconhecida se apoderou de mim. Esqueci a Bruna Lombardi, sem esquecer os olhos verdes de Diadorim. Quando penetrei a musicalidade do romance, descobri um país totalmente diferente do sotaque habituado aos meus ouvidos. Aprendi outra língua. Senti a angústia de Riobaldo, que se chama amor, mas não pode ser nomeado. Era cantiga de amigo, escrita no sertão, num outro tempo, mas com semelhante sentimento: corrosivo, carregado de ausências. A intuição vem às escuras, puxando outras leituras, dialogando com outras musicalidades, sentindo as alheias dores. Não se aprende fartando de imagens os nossos olhos, esgotando os ouvidos de respostas sem perguntas, engasgando as palavras de opiniões sem conhecimento.

Esvaziamos os sentidos para preencher o tempo.

Na verdade, não queria falar nada disso. Queria apenas lembrar que a luz um dia sempre falta. Mas o estrago está feito e já não há espaço para dar instruções sobre como encontrar velas e lanternas no escuro. Tudo culpa da literatura, essa matéria inútil para tudo. Menos para a vida.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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