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Saudade?

Gislaine Marins

 

Tempo de pandemia, isolamento, incertezas, temores. Perguntaram-me se eu, como brasileira, sentia este sentimento tão nosso: a saudade.

Saudade? E lá sou mulher para sentir saudades? 

Eu sinto a carne dilacerada, o meu coração partido, a cabeça latejando, os músculos dos ombros contraídos, tensos. Eu sinto a barriga revirando as tripas, eu sinto os olhos úmidos, eu sinto os ouvidos estourando de silêncios, eu sinto as palavras sem bocas para gritar. Eu sinto a frustração dos passarinhos que não têm para onde migrar. Eu sinto o tremor dos sabiás no inverno.

O que eu sinto não possui definição nem remédio. É ensurdecedor, mas não se vê por trás das máscaras. Assim como é invisível a minha sede de vingança. 

A desforra há de vir, e será implacável. Hei de rir diante do mar, hei de gargalhar como crianças que se encantam diante das rãs que pulam no banhado. Vou-me entregar sem temor aos abraços, vou dar beijos estalados nas bochechas dos amigos. Vou contemplar o pôr-do-sol, vou brincar com a areia, vou contar as histórias que não podem ser lidas às pressas e exigem estrelas por testemunha.

Por isso não sinto saudades. Tenho dentro de mim o sentimento vingativo de alegria para reencontrar os amigos. Professo a fé no amor. Acredito na eternidade dos bons propósitos. Secretamente, rezo pela nossa paciência: que seja firme e confiante na vitória contra as probabilidades e o pessimismo.

Saudade para quê, afinal? Para lamentar o que já foi, o que não fizemos, o que poderíamos ter feito diferente? Eu quero a ânsia do que ainda podemos realizar, do que podemos transformar e melhorar. Se o futuro é feito de aprendizagens, é também feito de escolhas: descartemos o que não nos serve mais.

Eu não preciso: de negacionismos, de mentiras, de hipocrisias, de tretas, de malabarismos enganadores. Hei de ser seletiva! Não se pode amar os gregos e aceitarrelações abusivas ao mesmo tempo. Ou o anel, ou o tapade luva.

É tempo de balanço, não de saudades. É tempo de pensar bem nas nossas decisões, pois o tempo costuma ser severo. É tempo de vida, porque se a morte é inevitável, a sobrevivência é um dever. É vivendo que poderemos construir o mundo que sonhamos. Chega de saudades, vamos à cura e ao tempo dos que pensam, acreditam, sonham e realizam. É a nossa hora.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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