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Qual é o plano?

Vanildo Luis Zugno

 

- Qual é o plano, pai?

- Melhor não ter nenhum plano, filho. Porque, se você tiver um plano e não der certo, ficará frustrado...

O diálogo entre pai e filho marca a sequência final do filme “Parasitas” dirigido por Boong Joo-hon. Um dramático e divertido filme que retrata as contradições da sociedade coreana. De um lado, uma família de quatro pessoas que mora numa mansão e goza de todas as benesses do progresso econômico vivido por aquele país do oriente nas últimas décadas. Por outro lado, outra família, também de quatro pessoas, que mora num subsolo imundo e tenta sobreviver das sobras da riqueza desta mesma sociedade. As duas famílias se encontram e, nos desencontros entre a extrema riqueza e a extrema pobreza, humor e tragédia se instalam.

Enquanto a família rica vive o sem sentido da abundância sem limite, na família pobre, o drama é pela sobrevivência do dia-a-dia. O pai, conformado com a situação, tenta sobreviver convencido de que não há como mudar as coisas. Para ele, não adianta sonhar. As coisas nunca vão mudar. O máximo que se pode alcançar é aproveitar o pouco que sobra da mesa dos ricos. Não há sonhos. Não há utopias. O filho, apesar dos constantes fracassos, continua a sonhar, a construir planos para tirar a família, incluído o pai, de sua situação de miséria.

O drama de “Parasitas”, tão bem narrado com a linguagem e a estética oriental, é similar ao vivido em muitas partes do nosso mundo tão desigual e onde somos convencidos a não sonhar. Vivemos o fim das grandes narrativas, o fim das grandes utopias. A ideologia que alimenta a sociedade desigual quer nos convencer de que a única satisfação possível é a de consumir. Para os ricos, o consumo abundante e sem limite. Para os pobres, o consumo das sobras e das imitações.

As frustrações do consumismo sem fim que levam ao desalento, à desesperança e, no limite, à morte, clamam pela redescoberta da capacidade de sonhar e de ter planos. E de não ter medo da frustração que o fracasso dos planos pode gerar em nós. É preciso aprender a conviver com a frustração e superá-las para continuar a sonhar, para continuar a ser humanos.

Para o cristão, isso faz parte do núcleo central da fé e se inspira no próprio ser de Deus. Ele criou a humanidade em um plano de amor e de convivência harmoniosa. Mas a humanidade lhe disse “não” e tomou outro caminho. Adão e Eva, instigados pelo tentador, rejeitaram o sonho de Deus. Mas Deus não desistiu de seu sonho para a humanidade, refez o seu plano para que o fim almejado fosse alcançado.

E, quando tudo parecia perdido, Deus, mantendo a fidelidade a Seu plano, se fez carne e veio habitar no meio de Deus. E o fez da forma mais surpreendente: encarnou-se no ventre de uma humilde camponesa de Nazaré. Ela, que se havia mantido fiel ao plano e ao sonho de Deus, é preparada para ser a habitação de Deus no meio de nós.

Algo inacreditável para os que habitavam “a casa de cima” da religião e da sociedade judaica. Mas crível sim, para Maria e por todos aqueles e aquelas que, como ela, não se contentavam com as sobras e queriam algo mais: queriam o encontro com Deus de forma plena e a realização da humanidade sem limite.

Que a festa da Imaculada Conceição nos ajude a redescobrir que Deus tem um plano para a humanidade. E que os eventuais fracassos não podem nos tirar a capacidade de sonhar com a plena realização de todos os seres humanos.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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