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O real perde valor em 2020

Miguel Debiasi

Para muitos teóricos latino-americanos a colonização ainda não acabou. O colonialismo é uma prática que se fortalece em cada época histórica. As vias de colonização são a política, cultura, economia, ideologia, epistemologia e outras. Em tempo presente povos latino-americanos são submetidos as concepções culturais e práticas sociais a manipular consciências e dispersar as lutas emancipatórias. Em contrapartida, a descolonização é uma luta a ser enfrentada em era contemporânea pela máxima cooperação dos povos e países dominados.

O papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti diz que a globalização e o progresso não possuem um rumo comum. O avanços dos países desenvolvidos detentores da tecnologia, ciência, medicina, cultura, infraestrutura são resultados de um processo da política econômica mundial que enfraquece a ética e a responsabilidade social com os mais fracos. A globalização provoca tensões internacionais por uma visão míope dos interesses econômicos e que leva milhões de seres humanos a pobreza e a degradação ecológica. O espírito da globalização provoca o surgimento dos nacionalismos extremos, o fechamento ideológico e confrontos culturais que exterminam a ideia e o sentimento de pertença à mesma humanidade.

Ajuda mútua entre povos, países e continentes beneficiaria a humanidade inteira. Na realidade isto não acontece e em contrapartida gera-se pobreza, sofrimento humano e degradação do ecossistema que afeta o planeta. Na economia globalizada não há intercâmbio e desenvolvimento solidário e as riquezas tornam-se concentradas e seus detentores ignoram todos os riscos de uma desigualdade socioeconômica e sociocultural. A atual globalização gera uma tensão local e universal, se por um lado, oferece pequenas contribuições, por outro, retira muito mais do que é oferecido, tornando-se um mecanismo de subdesenvolvimento dos povos e dos países.

A política econômica neoliberal do ministro Paulo Guedes fracassou, a ponto de retirar o Brasil entre as dez maiores potências econômicas do mundo. Por consequência da incapacidade do ministro da economia, a moeda brasileira, o real em 2020 perdeu nada menos que 40% do seu valor. Se comparada com outras moedas do mundo, o real foi o que mais perdeu valor. Na economia interna do país, o dólar subiu mais que 40%, uma alta próxima aos três reais. A situação é tão grave que o mercado neoliberal não acredita mais nas ideias do ministro da economia. Paulo Guedes que defendeu as reformas trabalhistas, da previdência social, da infraestrutura e a venda das estatais como condição para o crescimento econômico, por sua incapacidade política e incompreensão da estrutura do governo gerou o maior endividamento do país, aumentando a dívida externa e interna.

O governo da “nova política” e do “caminho certo” para o Brasil fracassou, manifesta-se incapaz de cumprir a própria Lei do Teto de Gastos Públicos. Notório fracasso do ministério da economia que não segue aprovação do programa Renda Cidadã no congresso nacional. Sua fragilidade é exposta na divisão entre os membros do ministério da economia e estes em conflito com os demais ministérios do governo federal. Tamanho é o descontrole das finanças públicas que se os senhores deputados e senadores aprovassem o programa Renda Cidadã, o governo federal não teria recursos para financiar seus gastos. A única saída que o governo enxerga é a venda do patrimônio dos brasileiros, aliás, prática de todos os governos neoliberais. Em contrapartida, os governos que regulam a economia aumentaram o patrimônio público, recuperaram as estatais, aumentaram as reservas cambiais, pagaram as dívidas externas e diminuíram as internas, e criaram diversos programas sociais, colocando o pobre no orçamento e beneficiando o povo.

A desvalorização do real denuncia o fracasso das elites do país, da política econômica do governo e dos meios de comunicação, que são obcecados pelos seus interesses à custa do sacrifício do povo. No Brasil, a riqueza tem dono. O Estado brasileiro tem os eternos mandatários. O governo é das elites. Em contrapartida, qualquer partido, movimento, organização que cruzar esta fronteira são extintos, ameaçados e julgados como subversores sociais. O Brasil da ordem e do progresso, traduz numa frase quem são os mandatários e por quanto tempo pretendem governar o país, lamentavelmente, hoje e sempre.   

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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