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Não eram pessoas, eram negros

Gislaine Marins

Digamos que uma escola decide celebrar o dia da consciência negra. Digamos que, não sendo muito consciente, a professora da turma explica que os quilombos eram lugares para onde os negros fugiam. Digamos que uma criança pergunta: "por que as pessoas fugiam?" Digamos que ao invés de responder, a professora corrige a criança: "não eram pessoas, eram negros". Digamos que eu contasse na Itália que isso aconteceu no Brasil. Não aconteceu em 1950, quando os italianos ainda não tinham visto o fim das lutas de descolonização da África e nos Estados Unidos vigoravam as leis de segregação racial. Aconteceu em 2019, portanto pareceria inverossímil para qualquer italiano. Qualquer italiano que não vê o que anda acontecendo por aqui.

Digamos, ao contrário, que eu contasse que aqui na Itália virou boa norma não melindrar a sensibilidade dos que pregam o fascismo. Digamos que uma senadora sobrevivente de um campo de concentração quando era criança, hoje é hostilizada por aqueles que se sentem cansados dessa "ladainha" de holocausto, e de pobres judeus, e de heróis partigianos... As pessoas que um dia depois do fim da guerra tinham deixado de ser fascistas pensaram melhor e passaram a achar que é preciso dizer que fascista também sofre, também tem sentimento. Não é justo continuar a dizer que eles são os vilões dessa história. Fascista também tem coração, dirão. Isso não aconteceu antes do processo de Nuremberg, que revelou ao mundo toda a crueldade do nazifascismo e despertou uma nova consciência sobre os horrores da guerra. Aconteceu em 2019, então se eu contasse para um brasileiro que isso está acontecendo, pareceria inverossímil. Pareceria absurdo porque ele não vive na Europa e não percebe o perigo dos neopopulismos nacionalistas, que levantam muros, defendem slogans que instrumentalizam as raízes cristãs do continente e pregam um conceito medieval de família, no qual o lugar das mulheres é aquele de gerar herdeiros para as terras com baixa natalidade diante dos fluxos migratórios. Se isso se parece com os discursos do Reich, não é mera coincidência.

Com nossos bons sentimentos e com o temor de ferir suscetibilidades alheias, usamos a melhor disposição para selecionar o que queremos ver: que o povo brasileiro é pacífico e cordial, que as feridas do fascismo foram definitivamente superadas. Não falemos de coisas tristes, encerradas no passado. Assim como já há quem conteste o Dia da Consciência Negra, não duvido que comecem a contestar o Dia da Memória, em recordação dos que morreram nos campos de concentração. Aliás, o Dia da Libertação do fascismo, que se comemora a 25 de abril de cada ano na Itália, já possui críticos e ausentes excelentes nas celebrações oficiais. São tempos sombrios sob o sol que aparentemente esplende e ilumina, como a história deveria ilustrar as nossas consciências. Esquecem que a história serve especialmente para lembrar as tragédias e os piores aspectos do ser humano. Fazendo isso, procura deter a tentação de novos horrores. A importância da memória está justamente em vigiar os nossos mais discriminatórios impulsos a justificar que negros são negros e que judeus são judeus, e portanto é normal que na sociedade os negros ocupem os lugares dos negros e os judeus ocupem os espaços dos judeus. Para essas pessoas, de consciência humana, porque a consciência negra evidencia um momento triste da história, qualquer ato de racismo é apenas um caso triste e isolado, que representa uma exceção. Assim, podem justificar melhor os seus sentimentos de respeito por quem acha que negro é negro e judeu é judeu, uma categoria diferente das pessoas.

É uma pena que situações como essas tenham de ser vivenciadas por crianças em pleno 2019, às vésperas do início da terceira década do século XXI. É espantoso que esse tipo de manipulação do conceito de pessoas, de opinião e de suscetibilidade seja tão facilmente permeável na nossa sociedade. É lamentável que não se compreenda que o respeito é algo que se deve às vítimas, e que a crítica e a condenação de princípios excludentes não podem ser nivelados pelo critério de igualdade entre opostos. O respeito não é o contrário da prepotência, assim como a paz não é o contrário da guerra. A vida não é apenas casualidade, o positivo não é apenas o oposto do negativo e as nossas escolhas não são um desfolhar de pétalas enquanto repetimos com automatismo: bem-me-quer, malmequer. Escolher o respeito e a paz exige sacrifícios. O primeiro deles é o de praticar a honestidade intelectual, superando a hipocrisia de fazer média com o que não é uma opinião, é um crime. Racismo e antisemitismo são crimes: negros e judeus possuem histórias muito diferentes e milhões de mortos sobre as suas memórias. Os negros, vítimas do tráfico atlântico; os judeus, vítimas por milênios, culminando com o genocídio da Segunda Guerra Mundial. O crime de genocídio foi catalogado e aplicado a outros casos infames da história recente depois que a humanidade compreendeu o horror do último conflito mundial e os planos de extermínio dos nazistas.

Mas há algo ainda mais inquietante do que o fato de essas relativizações terem lugar no ano de 2019. Se trata do contexto e dos protagonistas. O fato de uma professora corrigir com superficialidade que não se referia a pessoas, mas a negros, é gravíssimo. Basta pensar que o efeito das suas palavras não recai sobre uma pessoa apenas, mas sobre um grupo em fase de formação. A observação não foi ouvida apenas por uma aluna, negra por sinal, foi ouvida por toda a turma. No caso da senadora italiana, tratou-se de casos reiterados promovidos por representantes políticos da sociedade. Negaram-lhe a melhada do mérito por razões meramente burocráticas, por exemplo, salientando que não tinha sentido dar uma medalha para alguém que não fosse nativo da cidade e não tivesse um percurso de vida ligado à comunidade local. Em ambos os casos, tudo é legal, a crítica é de conteúdo: como se a legalidade formal bastasse para cumprir o que é justo. Não basta.

Nossas histórias se separam justamente no momento em que tocamos uma outra sensibilidade: a que reclama a dignidade do ser humano. A correção feita pela professora à aluna negra permaneceu um fato privado, uma dor silenciosa da qual tive notícia somente por acaso, imaginando, porém, que não se trata de um caso isolado. A história da senadora gerou uma reação coletiva e institucional de peso: o Estado italiano estabeleceu que ela deve passar a ter uma escolta diante da ascensão do antissemitismo na Europa e várias cidades estão disputando o privilégio de honrá-la com a medalha ao mérito.

Em alguns lugares, para não vermos os erros, enfiamos a cabeça no buraco. Em outros, erguemos a cabeça e enfrentamos o monstro. Por isso, nada está perdido enquanto temos voz para perguntar ao nosso irmão: você é um ser humano ou apenas mais um elemento explorável na sociedade? Você tem coragem de ser ou prefere consentir submissamente à média e à mediocridade? Quase todos os dias é o momento certo para nos fazermos estas perguntas. Especialmente hoje, quando pensamos estar muito mais evoluídos do que estavam os que mataram e morreram durante as maiores tragédias da nossa história. É nessa ilusão que se esconde um dos maiores perigos que nos rodeia e nos corrompe, graças à nossa conivência com o que é inaceitável. Digamos isso. E digamos forte.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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