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Felicidade de cativeiro

Gislaine Marins

 

Poderá parecer estranha a minha preocupação com um tema histórico em um momento em que todo o planeta está com os olhos vidrados nas estatísticas da difusão do coronavírus. Espero conseguir explicar o que uma coisa tem a ver com a outra.

Não é questão de misturar alhos com bugalhos. O fato é que, ao final do regime escravagista brasileiro, um senhor de escravos desabafou a sua indignação em relação ao liberalismo inglês, que deixava morrer em total liberdade o seu próprio irmão caído na desgraça da pobreza. Para ele, o efeito do fim da escravidão era esse: em nome da liberdade, ninguém mais se preocupava pela sorte dos indivíduos. Ao contrário, o senhor de escravos tratava de cuidar bem dos negros, porque sabia do valor dos seus braços.

O senhor de escravos não se limitava a fazer apologia do tratamento que reservava aos escravos, mas chegava a afirmar que os negros reconheciam nessa condição uma sorte e por isso eram felizes. Esta era a diferença com o homem livre e miserável do Reino Unido, que não podia contar com ninguém, além de eventuais filantropos. O senhor de escravos denunciava que, no lugar de um sistema, propunha-se a anarquia.

Superamos a escravidão. Felizmente, superamos a escravidão. No entanto, não superamos a mentalidade de senhores de escravos. Os modernos senhores dos braços operários não coram ao defender o valor monetário da sua produção, incluindo os recursos humanos. Tentam convencer os cativos por seus discursos pretensamente sensatos que paralisar a produção irá causar maiores prejuízos à sociedade do que a propagação descontrolada de contágios por coronavírus.

Na realidade, não é preciso hipocrisia nem acusações aos que tentam frear a economia. Sem controle dos contágios, os casos graves irão crescer de forma exponencial, colocando em colapso o sistema de saúde pública e particular. Os países que mais sofreram com a epidemia de coronavírus só conseguiram limitar as mortes – até o momento – a menos de dez mil casos porque adotaram medidas drásticas de circulação às suas populações. Mesmo assim, calcula-se que uma em cada dez pessoas atualmente autorizadas a sair de casa por motivos essenciais está contagiada e não sabe disso. Uma em cada dez pessoas nas ruas está contagiando o pequeno percentual de pessoas que ainda pode circular. Explicando com poucas palavras: as mortes continuam na ordem de centenas, diariamente, na Itália, apesar das medidas restritivas. Imaginem se não tivessem tomado nenhuma medida.

Imaginem: como as indústrias iriam recomeçar a produção com a perda de vários percentuais de operários dizimados pelo vírus? Como o comércio iria retomar as vendas se um percentual descontrolado de consumidores tivesse morrido? Como os serviços voltariam a funcionar com a falta de um percentual significativo de eventuais clientes? Como seria o mundo com um percentual incalculável de mortos daqui a alguns meses? Como será o mundo com a perda de milhares de pessoas nos próximos tempos?

O futuro será de crise, é claro. Será de perda, de dor pelos nossos afetos. Será de dificuldade econômica, mas será ainda pior, se esta crise for alimentada por ideias estapafúrdias de liberdade para a produção.

Os modernos senhores do trabalho braçal não percebem que hoje a luta não é contra o liberalismo e suas filantropias redentoras. Não percebem que contra o vírus não há discussão ideológica e econômica. Revelam apenas incapacidade para imaginar outros cenários, além do presente. Mostram que não possuem espírito de risco e iniciativa, quando hoje a aposta está na busca de soluções para um mundo que não será o mesmo nos próximos meses. Apostam na exploração imediata e máxima dos braços, conseguindo ser ainda mais cruéis que os antigos senhores de escravos, zelosos por manter a saúde dos seus cativos a fim de proteger os seus lucros.

Aqui na Itália, há uma corrida por iniciativas que preparem as bases para o futuro. Os filantropos entraram em campo, o governo está baixando medidas keynesianas, com grandes investimentos públicos para garantir renda básica e incentivos fiscais às empresas, os empresários estão usando os instrumentos sociais à disposição e, em alguns casos, estão aumentando salários para os que estão autorizados a trabalhar para garantir os bens de consumo essenciais.

Tudo isso irá aumentar dívidas, tanto do Estado quanto das famílias e das empresas. Não importa: encontraremos forças para reconstruir tudo, para mudar os nossos hábitos, para descobrir novas formas de trabalho, para inventar novos modos de relação com as pessoas. Não importa, porque isso colocará à prova a nossa criatividade, a nossa esperança, a nossa empatia, a nossa fé na vida. Como essas bases, mesmo endividados, teremos a força moral e a determinação física para transformar o mundo. Quem sabe um mundo com menos senhores de escravos fantasiados de empresários, um mundo com liberais mais filantropos e um mundo com muito mais pessoas solidárias e lúcidas, capazes de enfrentar com espírito de abnegação os esforços enormes que nos pedem hoje, assim como as renúncias e as dificuldades a que nos submetem, a fim de que, ao encerrarmos esta triste temporada, possamos deixar algo positivo neste mundo tão sofrido. E, quem sabe, teremos uma nova felicidade, sem cativeiros, sem chantagens, sem pressões que desesperam as pessoas e colocam em risco a vida.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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