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Enquanto os adultos se distraem

Gislaine Marins

As crianças crescem enquanto os adultos se distraem.

Sei, a situação é difícil hoje. Estamos rodeados por um vírus que espalha a morte, o desespero e a fome. Por isso é preciso pensar nelas, as crianças. Elas são o futuro vivente, elas merecem mais do que recebem ou receberam nos últimos tempos. Não podemos condenar a infância à sobrevivência: é preciso garantir o direito à vida, à liberdade, às oportunidades, à confiança, à saúde. Uma vida sem direitos fundamentais é mera sobrevivência, é um crime, é uma violação inaceitável. A hora é de choro e de morte, mas é agora que devemos ter a coragem de pensar no pão que queremos repartir amanhã.

Enquanto isso elas crescem.

Acordei lembrando a primeira vez que tive um aluno com necessidades especiais. A família tinha trocado de escola, como acontece muitas vezes nesses casos. A discriminação, os estereótipos, a falta de confiança no potencial que podem desenvolver acaba levando a melhor sobre as crianças e as suas famílias. Esquecemos o dom da observação, tão caro a pedagogos como Maria Montessori, e preferimos usar as fórmulas previstas nos manuais: o direito de fazer menos, de receber menos, de ter menos. Lembro de uma família desesperada porque o filho queria fazer as mesmas atividades dos outros alunos e os professores recomendavam que os pais não permitissem isso para evitar que a criança ficasse frustrada. Frustrada! Impedir a aventura maravilhosa de experimentar, descobrir os próprios limites e quem sabe surpreender adultos protetivos para evitar que se sentisse frustrada.

Sim, o nosso mundo está doente. Doente dos olhos e do coração, os dois meios que temos para enxergar com sensibilidade. Acima da realidade, a prescrição. Em vez da experiência, a limitação. Um mundo que protege as crianças cortando as suas oportunidades é o mesmo que considera as meninas mais frágeis do que os meninos, que aconselha que as mulheres sejam submissas aos seus maridos, que os operários temam os seus patrões, que os alunos obedeçam aos seus professores, que o povo seja oprimido pelos seus governos. Esse é o mundo que troca o respeito pelo terror. Que troca a autonomia pela dependência. Que substitui a liberadade pela chantagem. Se não respeitamos o potencial desconhecido de cada criança, sejam elas etiquetadas ou não pelos nossos preconceitos – de saúde, de raça, de gênero, de classe social –, estamos construindo com sucesso um futuro de muros, exclusões e discriminações. Estamos reiterando a nossa ruína social e ética.

Ora, bolas! Deixem as crianças crescerem!

Nós possuímos tudo de que precisamos: neurônios, articulações, sentidos, tudo funciona para darmos sentido à nossa realidade. Custamos a aceitar que a maior parte dos nossos fracassos estão ligados à descrença no outro. Fingimos não saber que o que interfere no processo de aprendizagem não é a criança, mas a falta de comida para acionar as sinapses cerebrais. Preferimos dizer que os alunos se distraem durante as aulas, como se não soubéssemos que por trás da tela do computador temos apenas um holograma e que as redes telefônicas nem sempre funcionam como deveriam. Seguimos com religiosidade e dogma as ideias contidas nos programas para salvar o nosso trabalho, o nosso esforço, que é enorme e desvalorizado, mas que não deve ser instrumentalizado para ocultar os reais problemas da educação.

Não podemos nos conceder o luxo da distração. Não podemos criar novas gerações de adultos esquecidos da riqueza interior que todo ser humano possui, imbuídos de convicções que limitam o potencial das pessoas, amedrontados pelas coisas belas que os jovens podem fazer, temerosos de que o progresso humano represente uma acusação aos erros do passado. Quando será que veremos no espelho, entre as rugas e os sorrisos perdidos, a nossa mesquinhez e a nossa falta de coragem?

Hora de morte, hora de balanço. Quando falo de coragem não aludo a um comportamento destemperado, impulsivo, irracional. Coragem não é alimentar o pensamento mágico e convencer-se da eventualidade do milagre. Coragem é resistir e nutrir o futuro com confiança no potencial das pessoas. Quem aprendeu a ser racista pode desaprender, quem aprendeu a oprimir pode aprender a libertar. Quem aprendeu a ofender, pode aprender a ser gentil. Quem aprendeu a dar crédito a falsas notícias pode aprender a ler corretamente. Nós temos tudo para fazer isso. Precisamos encontrar a brecha para transformar o que hoje nos parece apenas apêndice da nossa tragédia. Depois de todas as perdas, não podemos aceitar que o mundo permaneça na sintonia da destruição. Renascer é preciso e é, no fundo, a nossa única possibilidade.

 

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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