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A ética no cotidiano

Gilmar Zampieri

O mundo é cheio de maravilhas, mas nada mais maravilhoso do que o homem, dizia Sófocles. À imagem e semelhança de Deus e pouco abaixo dos anjos fomos criados, diz a bíblia. Somos um caniço, mas um caniço pensante e isso nos faz nobres e com dignidade superior, diz Pascal.

Não há como negar que somos um animal interessante, contudo, parece que não damos certo.

Nada do que é vil nos é estranho, nada do que é demente nos é desconhecido, não há crueldade imaginável que já não praticamos com requinte. Divinos e dementes. Divinos e diabólicos. Capazes de grandes atos heroicos e capazes das maiores atrocidades e maldades. Que bicho é o homem!

Entre nossas piores recomendações está a nossa vocação para a vida hipócrita e incoerente. Aparentamos ser melhores do que realmente somos, exigindo dos outros o que não somos capazes de ser, sempre prontos para apontar o dedo na ferida do outro, escondendo a nossa. Que bicho é o homem!

Os animais não humanos são o que são, sem dissimulações, sem máscaras e, por isso, ao meu ver, estão mais próximos de Deus do que o animal humano, pois neles tudo é perfeito, nada sobrando e nada faltando. Olhe o voo de um pássaro e tente achar um defeito nele. Olhe o pulo do gato e tente achar um defeito nele. Na verdade, não há, eles são perfeitos. Não consigo entender o escritor bíblico que disse que nós somos feitos a imagem e semelhança de Deus...E se fosse um animal a escrever a bíblia, o que ele diria deles mesmos?

Mas, desejo é falar ética e não de antropologia, de animais e de teologia. E, em se falando de ética, não há como não falarmos de hipocrisia. Nos apresentamos como éticos e acusamos os outros, sobretudo os políticos, de serem os vilões morais e agentes de todas as corrupções. Uma simples recordação do que acontece no cotidiano desmente qualquer pretensão de nos acharmos diferentes. Senão vejamos.

Quem nunca furou fila, sonegou impostos, burlou o fisco, ficou com troco a mais, tirou vantagem de alguma mentira, estacionou em lugar proibido, teve uma atitude preconceituosa com gay, mulher ou negro, faltou aula acima do máximo de direito, mas exige “compreensão” por parte do professor, adulterou produtos e peso, vendeu produtos e serviços acima do valor justo, vendeu produto vencido, falsificou atestado, traiu esposa e filhos, foi à missa e pediu misericórdia de Deus e depois maltratou vulneráreis, sobretudo os animais, para quem somos seus deuses, foi vítima de um guarda que pede propina ou ofereceu propina para se safar, usou caixa dois e compartilhou fakes News para destruir a reputação alheia? Quem nunca? A lista é longa, mas os corruptos são os outros, não é mesmo, sempre os outros!

A hipocrisia, diz François de la Rochefoucauld, “é a homenagem que o vício presta à virtude”, querendo dizer, com isso, que o hipócrita ainda tem salvação ao reconhecer o valor e a virtude daquilo que aparenta ser, mas não é. O hipócrita se diz solidário, mas é egoísta. Defende valores da família, mas ele mesmo já abandonou e traiu. Se diz “homem de bem”, mas faz coisas como as acima elencadas, etc. E por que se diz solidário, fiel e “do bem”? Porque sabe que é isso que deveria ser e todos, no interior da comunidade moral, esperam que ele seja. O hipócrita, sendo hipócrita, aceita e reforça as virtudes, na medida em que se esforça para aparentar ser o que não é, pois sabe que o certo seria ser. Se não reconhecesse a virtude, não precisaria aparentar ser. Nisso ele presta um louvor à virtude.

Quer-se com isso diminuir o caráter imoral da hipocrisia? De jeito nenhum. Mas há algo ainda pior. Mais baixo e vil do que a hipocrisia, é o cinismo. Cínico é aquele que goza e menospreza o virtuoso e a virtude. O cínico relativiza o bem e sequer faz questão de reconhecer que haja o bem, dando uma justificativa para sua atitude viciosa. O cínico não disfarça o seu vício, ele tem orgulho de ser. O cínico despreza e menospreza o virtuoso desconstruindo-o, para se afirmar na sua própria vilania. Veja os críticos dos defensores dos direitos humanos, ambientalistas e animalistas. Preste atenção neles. No fundo eles querem dizer: vocês se acham superiores por defender os pobres e vulneráveis, mas são uns oportunistas e manipuladores deles. No ataque e no desprezo, se auto afirmam como virtuosos sendo despudoramente viciosos. O cínico diz abertamente: eu não gosto de gay mesmo, não gosto de negro, sou preconceituoso e contra o politicamente correto, e daí? O cínico olha para o mundo de sofrimentos e mortes inocentes e diz: não tenha nada a ver com isso! O cínico se sente moralmente justificado por não ser igual ao hipócrita.

O hipócrita presta uma homenagem à virtude e nisso está a sua salvação. O cínico, perdido está. O cínico peca contra o Espírito Santo, pecado sem perdão. O hipócrita e o cínico não são, contudo, as únicas possibilidades de atitude moral. Entre os dois está a virtude, no meio está a virtude. No meio caminho virtuoso, entre o hipócrita e o cínico, está o que se esforça para ser coerente, agindo de boa-fé e na humildade, reconhecendo o valor tanto das virtudes quanto do valor da coerência entre o ser e parecer. A raridade do moralmente coerente o faz valioso, como valioso é tudo o que é raro.

 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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