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A avareza

Gilmar Zampieri

 

A avareza é o pecado contra a generosidade. A generosidade é uma virtude. A avareza é um vício, assim como seu oposto, o perdulário. O perdulário gasta o que não tem, o avarento retém até o que não é necessário. Ambos são viciosos. No meio está a virtude, a virtude da generosidade. A generosidade é própria das pessoas livres e agradecidas que experimentam uma saudável alegria em ter e em partilhar. O avarento alimenta uma mórbida alegria em acumular e reter. O generoso abre a mão, o avarento a fecha. O generoso reconhece e é agradecido a Deus, o avarento idolatra os bens e o dinheiro. A ganância, a cobiça e cupidez são outros nomes para o “apego excessivo aos bens materiais” que a avareza representa.

O ganancioso abocanha o que aparece e cobiça o que não tem necessidade, mas, por vício, não deixa de desejar ter mais, perturbando sua alma sem cessar. Kierkegaard dizia que Dom Juan era um tarado metafísico, por desejar a “alma feminina” e como não a encontrava em nenhuma mulher particular, desejava sempre a próxima mulher, na sua insana busca sem fim. O avarento, por sua vez, diria eu, é um tarado físico pois não busca a essência metafísica do ser, mas deseja o ser empírico, na forma de quantidade de bens e dinheiro. Se pudesse, o avarento se casaria com os bens físicos e não os abandonaria, na saúde e na doença...! O avarento persegue o mal infinito da quantidade. Pobre alma a do avarento, mal sabe que ao homem de nada adianta ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma. E a alma do avarento não pertence a Deus, mas pertence aos seus bens! Já está perdida, portanto.

A avareza é pecado, pois subverte a ordem natural das coisas e subverte a reta razão. Não é natural e não é da reta razão tomar os meios como fim em si mesmos. E é exatamente isso o que o avarento faz. O avarento toma os bens e o dinheiro, que são meios, bons e necessários, como se fossem fim em si mesmos, pervertendo-os. Ao invés de fazer a alegria dos outros através dos bens que tem, se satisfaz em simplesmente ter. A avareza subverte a ordem natural das coisas pois faz do sujeito objeto e do objeto, sujeito. O avarento não é senhor dos bens, os bens é que são seu senhor.

Falta sabedoria ao avarento e merece uma dupla ironia pela sua mesquinhez em tudo possuir e reter. Primeira: para que seguir os desejos se os desejos são infinitos e insaciáveis? Seguir os desejos sem fim é como correr atrás do vento, pura ilusão. Segunda: tu vais morrer e de nada adianta, no teu cortejo fúnebre, ser seguido por um carro forte cheio de dinheiro e escrituras dos bens de tua propriedade...! Na hora do cortejo, melhor será seres acompanhado por uma única pessoa a quem tenhas ajudado do que todos os bens que tenhas cobiçado e adquirido, ou roubado! Ou não?

O excessivo apego aos bens materiais e o desejo desenfreado de ter sempre mais faz do avarento uma alma perturbada e sem salvação, até que perdurar o seu estado de “espírito faminto” e insaciável. O agravante na atitude avarenta é que não só torna o seu portador um infeliz sem cura, mas sua atitude acaba resultando em dano e sofrimento aos outros. Pecar é pecar contra si, contra Deus e contra os outros. E o avarento peca contra os outros na medida em que o que retém, sem necessidade, pertence, naturalmente, aos outros, mas lhes é subtraído. Via de regra, o avarento é também, um ladrão. Sim, é forte dizer que o avarento é um ladrão, mas talvez seja verdadeiro. Se os bens desnecessários que possuo e me apego, falta aos outros, então eu guardo para mim o que não é meu, logo, sou ladrão. Ou não?

O avarento é um infantil. Freud, ao classificar as fases de desenvolvimento psicossexual de uma criança, chamou uma delas de “fase anal”. Na fase anal a criança experimenta o prazer no controle e na retenção do xixi e do cocô que deveriam ser, naturalmente, liberadas. Mas, a criança fica entre “entregar à mãe” ou reter para si, pois seria como tirar uma parte de si e puxar a descarga. A criança saudável vence essa fase e segue o ciclo do desenvolvimento em direção ao dom de si. Avarento é aquele que não superou e está preso na fase anal. O avarento fede, para parafrasear o poeta Cazuza que dizia “a burguesia fede”...!

Com uma boa terapia, com muita oração e a graça de Deus operando, quem sabe o avarento encontre o caminho de viver saudavelmente. Ou a avareza é o que Jesus identificou como o pecado contra o Espírito Santo de Deus e, portanto, não tem salvação? Se o avarento não tem salvação, o sistema capitalista nos levará à perdição, pois se alimenta do espírito da avareza.

 

 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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