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No mesmo dia em que a OMS declara emergência global por Ébola, estudo português-brasileiro calcula o risco real para Portugal e o Brasil

por Beverli Rocha

Pesquisa do CPAH quantifica a probabilidade de importação do vírus via rota aérea Lisboa-São Paulo

Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
Foto: Divulgação

 

A declaração foi feita neste domingo, 17 de maio. A Organização Mundial da Saúde classificou o surto de Ébola em curso na República Democrática do Congo e no Uganda como "emergência de saúde pública de importância internacional", o nível mais alto de alerta sanitário global. São 246 casos suspeitos, 80 mortes prováveis e a cepa envolvida é a Bundibugyo, identificada pela primeira vez em 2007 e menos estudada do que a cepa Zaire, responsável pelos surtos anteriores de maior dimensão.

Segundo a OMS, o surto ainda não cumpre os critérios de emergência pandêmica, mas a declaração ativa os mecanismos internacionais de resposta e coloca a pergunta que todos os países conectados à África central precisam responder com rigor: qual é o risco real de esse vírus chegar até nós?

Um estudo publicado esta semana pelo Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), com sede em Portugal, tenta responder a essa pergunta especificamente para Portugal e o Brasil, com base nos modelos científicos disponíveis na literatura internacional.

O investigador Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, pós-doutor em Neurociências com graduações em Biologia e Psicologia, autor da pesquisa, aponta que o trabalho está depositado em preprint no Zenodo, com DOI registado e ainda não passou por revisão por pares em revista científica. No entanto, com base na síntese e análise dos dados é possível fazer estimativas baseadas nesses modelos. Com essa ressalva estabelecida, os números são os seguintes: durante um surto de alta intensidade comparável ao de 2014 na África Ocidental, a probabilidade de ao menos um caso de Ébola ser importado para Portugal em 30 dias, via rotas de conexão aérea, situa-se entre 15% e 30%. Para o Brasil, as estimativas são similares pelas rotas que passam pela Europa ou por conexões diretas de países africanos com voos para São Paulo. O surto atual, com epicentro na província de Ituri no nordeste da RDC, ainda está abaixo da intensidade de 2014, o que significa que essas estimativas representam um teto para o cenário atual, não uma projeção direta.

O segundo número é igualmente importante: a probabilidade de que um caso importado gere transmissão comunitária sustentada em Portugal ou no Brasil é estimada em menos de 1%, desde que os protocolos hospitalares de isolamento funcionem corretamente.

O conceito central que a pesquisa aplica é o de distância efetiva, desenvolvido pelos físicos Dirk Brockmann e Dirk Helbing e publicado em 2013 na revista Science. Ao contrário da distância geográfica convencional, a distância efetiva é calculada a partir do fluxo real de passageiros entre aeroportos, medido pelos dados da International Air Transport Association.

 

Na prática, isso significa que dois aeroportos com alto volume de tráfego direto entre si são epidemiologicamente próximos, independentemente dos quilômetros que os separam no mapa. Lisboa tem conectividade aérea direta com várias capitais africanas. São Paulo e Fortaleza têm ligações regulares via Lisboa e via rotas diretas com países do continente africano. Essa arquitetura de rede posiciona os dois países num raio de importação relevante para qualquer surto ativo na África subsaariana.

O Ébola é habitualmente discutido como uma doença aguda de alta mortalidade, mas para quem sobrevive, a doença não termina com a alta hospitalar. Estudos já documentaram sequelas como cefaleias crónicas, tremores e falta de memória e processamento cognitivo, meses e anos depois da recuperação.

 

 

 

 

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