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Nossos desejos coletivos para 2026

Miguel Debiasi

Na entrada de ano, há pedidos que vão da saúde ao dinheiro e sucesso. Tais rogos espelham a natureza intrínseca da condição humana: a busca incessante pelo florescer do eu. Em contrapartida, o olhar voltado para as necessidades coletivas e comunitárias é, muitas vezes, negligenciado.

A percepção e o significado da entrada do ano são profundamente moldados pela subjetividade individual e pela cultura em que cada pessoa está inserida. A nível pessoal, a virada do ano pode evocar uma gama de sentimentos. Para alguns, é um momento de renovação, esperança e definição de novas metas; para outros, pode gerar ansiedade, angústia ou reflexão sobre o tempo perdido, um fenômeno conhecido como “Síndrome do Fim de Ano” ou “Dezembrite”. Essas reações dependem fortemente das experiências de vida, valores, crenças e do estado emocional das pessoas.

Para um filósofo racionalista que defende que a razão é a principal fonte de conhecimento, a virada de ano é entendida a partir de uma perspectiva que valoriza estrutura lógica e a ordem racional do tempo. Ou seja, a divisão do tempo em anos, meses e dias é vista como uma construção racional e uma convenção humana útil para organizar a vida, a ciência e sociedade. Ela reflete a capacidade da razão de impor ordem e clareza à experiência temporal, que de outra forma seria um fluxo contínuo.

Uma abordagem estritamente racionalista rejeita quaisquer rituais de ano novo baseados em superstições, misticismo ou esperanças infundadas na “sorte” ou em forças sobrenaturais. A ênfase recai no controle racional que o indivíduo pode exercer sobre suas próprias ações e pensamentos, e não em rituais externos para “atrair boa sorte”. A virada do ano é, assim, um ponto de referência lógico no calendário que serve como catalisador para o exercício da razão, o autoconhecimento e o planejamento consciente, desprovido de qualquer significado místico ou extra racional.

Já os teólogos entendem a virada do ano de maneiras diversas. Para muitos deles, essa data cívica é um momento propício para: refletir sobre os erros e pecados do ano anterior, buscando o perdão de Deus; assumir novas atitudes e resoluções alinhadas à vontade de Deus; e agradecer a Deus pelas bênçãos passadas, olhando para o futuro com fé e otimismo na Sua providência.

Há uma minoria de teólogos que rejeita completamente a celebração do Ano Novo em 1º de janeiro. O argumento central é que a data e o mês de janeiro possuem raízes na adoração a deuses pagãos (como Janus, o deus romano dos inícios) e que Deus condena tais práticas. Eles optam por focar na observância das festas bíblicas, detalhadas em Levítico 23, por considerá-las de maior significado profético e teológico mais profundo.

No contexto geral, a entrada de Ano Novo é momento de renovar os pedidos de paz, saúde, prosperidade (dinheiro), e amor. Esses desejos são frequentemente acompanhados por diversos rituais e simpatias, tais como: para atrair a paz – usar roupas brancas é a simpatia mais comum; para atrair fartura e riqueza – comer lentilha, guardar sementes de romã na carteira ou colocar dinheiro no bolso ou sapato são gestos simbólicos; para superar problemas: pular sete ondas no mar e fazer um pedido mental a cada salto é uma tradição popular; para atrair amor – usar lingerie de cores específicas, como vermelho ou rosa.

Com outro foco, na entrada do ano, é inspirador fazer pedidos que equilibrem o bem-estar individual com aspirações coletivas, visando a melhoria da vida dos brasileiros e da humanidade em geral.  Nossos pedidos podem incluir:

Paz e harmonia: O fim dos conflitos e da violência, buscando um mundo onde reine a paz, a justiça e a fraternidade;

Justiça e Igualdade Social: Sistemas mais justos e igualitários, onde todos tenham acesso às mesmas oportunidades e direitos, promovendo a solidariedade e superando as diferenças pelo amor e compaixão;

Melhora Econômica e Prosperidade: Aspirações por uma economia sólida e prosperidade financeira que se reflita em desenvolvimento e qualidade de vida para toda a população;

Saúde Pública e Acesso Universal: Um sistema de saúde acessível e de qualidade para todos, com foco na prevenção de doenças e bem-estar geral da população;

Sustentabilidade e Meio Ambiente: Metas que envolvam o cuidado com a natureza, como plantar árvores e adotar práticas sustentáveis, para garantir um futuro saudável para o planeta;

Educação de Qualidade: Investimento e acesso a uma educação que capacite os indivíduos e promova o pensamento crítico e autoconhecimento;

Democracia de Qualidade: A valorização da democracia como sistema que melhor garante a proteção dos direitos individuais e coletivos, a participação popular nas decisões, a resolução pacífica de conflitos e a busca pela justiça social mundial.

É possível compreender que os pedidos individuais para o novo ano frequentemente carregam uma dimensão coletiva e comunitária. Essa característica está em sintonia com a cultura brasileira, que tende a ser mais coletivista, priorizando a harmonia do grupo e a interdependência social.

Guiado pelos princípios do Evangelho, minha prece e meus esforços visam um 2026 abençoado para toda  população. Defendo a crença de que o bem-estar individual se realiza plenamente apenas no contexto da prosperidade coletiva.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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