Diplomas: Mais que um Papel, uma Necessidade
“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, disse Nelson Mandela, líder do movimento contra o Apartheid – legislação que segregava os negros da África do Sul. A educação tem um poder transformador não apenas para o indivíduo, mas para a sociedade e para o mundo. O maior investimento que uma nação pode fazer é na educação e qualificação das pessoas.
A educação formal e a estruturação de um sistema de ensino organizados são ideias que remonta à Grécia Antiga. Nesse contexto cultural, Platão (427-347 a.C.), destaca-se como o primeiro pedagogo da humanidade. Sua contribuição notável reside na elaboração de uma proposta educacional abrangente, que visava à formação ética e política do indivíduo para o bem da pólis, e na criação da Academia, considerada a precursora das universidades ocidentais.
Em sua obra principal, A República, Platão delineia um sistema educacional utópico que visava identificar e desenvolver talentos, culminando em um treinamento filosófico avançado para os cidadãos mais aptos, que se tornariam os filósofos-reis. A Academia, escola fundada por Platão, funcionava como um centro de estudos filosóficos e científicos que atraiu discípulos notáveis, como Aristóteles (384-322 a.C.), e valorizava profundamente a formação rigorosa e a busca pelo conhecimento verdadeiro.
Uma das figuras mais influentes da Patrística, Santo Agostinho de Hipona (354-430), defendia a integração da fé e da razão, e sua obra forneceu a base para a educação medieval. Naquela época, o acesso ao conhecimento era restrito por razões socioeconômicas. No entanto, Agostinho foi fundamental na organização de um sistema educacional cristão, que operava dentro das igrejas. O objetivo desse sistema era a instrução nas doutrinas e outros temas, formando indivíduos para o serviço eclesiástico e uma vida devota.
O sistema de diplomas de graduação, tal como conhecemos hoje, é uma invenção com raízes na Idade Média. Ele surgiu com o estabelecimento das primeiras universidades europeias, durante os séculos XII e XIII. A Universidade de Bolonha, fundada em 1088 na Itália é frequentemente considerada a mais antiga do mundo, sendo uma referência no ensino do Direito. Pouco tempo depois, a Universidade de Oxford, iniciou suas atividades na Inglaterra, por volta de 1096. Já a Universidade de Paris, originada da escola da catedral de Notre-Dame, estabelecida por volta de 1150, destacou-se no estudo de Teologia.
As primeiras universidades na Europa evoluíram a partir das escolas catedráticas e monásticas, transformando-se em centros de estudos autônomos com reconhecimento legal próprio. O sistema de graus acadêmicos, como o bacharelado, a licenciatura, o mestrado e o doutorado, que conhecemos hoje, tem suas raízes nesta invenção medieval.
O desenvolvimento do ensino superior no Brasil foi tardio em comparação com outros países da América Latina. Durante o período colonial, a Coroa Portuguesa proibia a criação de universidades na colônia, forçando a elite local a enviar seus filhos para estudar na Europa, principalmente na Universidade de Coimbra. Somente com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, as primeiras instituições de ensino superior foram fundadas. Dom João VI estabeleceu as Escolas de Medicina e Cirurgia na Bahia e no Rio de Janeiro, visando formar profissionais qualificados para a administração do novo Estado e suprir necessidades imediatas, como a demanda por médicos para o exército e marinha.
No contexto de centralização política da Primeira República, em 1920, o governo reuniu as escolas Politécnicas, de Direito e de Medicina da capital federal, criando a Universidade do Rio de Janeiro, atual UFRJ. A medida tinha como propósito formalizar o ensino superior, até então disperso, e unificar essas escolas sob uma única estrutura administrativa, visando a formação de quadros técnicos e burocratas para Estado.
O antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), defendia a educação como o principal instrumento para a formação humana integral e para a transformação social e o desenvolvimento do Brasil. Defendia uma formação humana ampla, abrangendo aspectos intelectuais, culturais, étnicos e sociais. Defensor da escola pública de tempo integral, argumentando que a criança pobre depende exclusivamente da escola para adquirir conhecimento formal e ter acesso à oportunidade que, de outra forma, só estariam disponíveis para as crianças de classes médias e altas.
Uma das profecias sobre Educação e bem-estar social do país, atribuída a Darcy Ribeiro, foi: “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. Hoje, em pleno século XXI, o governador de São Paulo, maior estado do Brasil, declarou que o “diploma tem cada vez menos relevância”, no mercado de trabalho. A afirmação foi feita na quinta-feira, 13 de novembro de 2025, vésperas do segundo dia de provas do Enem, gerando grande controvérsia.
A ênfase exclusiva em habilidades práticas, como defendido pelo governador, negligencia o fato de que o acesso à educação superior de qualidade no Brasil é historicamente desigual, favorecendo as elites e perpetuando privilégios. Para combater essa dominação social e a disparidade de oportunidades, onde os filhos dos pobres enfrentam dificuldades extremas no mercado de trabalho, a graduação para todos se faz necessária. O diploma representa mais do que um certificado: é um passaporte para a mobilidade social e para o exercício pleno da cidadania, sendo, portanto, um direito que deve ser assegurado a todos os brasileiros.
A despeito das vozes que, em uma visão elitista tentam desacreditar o ensino formal e o diploma universitário, dados demonstram que, no Brasil, o ensino superior pode mais que dobrar os salários, aumentando as chances de emprego e renda digna. É através dessa qualificação que se torna possível construir de forma mais efetiva, sociedades justas, inclusivas, inovadoras e capazes de prosperar na complexidade do mundo multicultural atual.
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